O que são Rios Voadores?



Imagem ilustrativa. Cortesia de Unsplash

Falar sobre rios voadores (ou rios atmosféricos) não é nenhuma novidade aqui no blog. Eu já falei sobre o assunto nesses outros posts, que também têm muita informação:

Só que ontem eu fui convidada pela Radio Cidadã para falar sobre o assunto. Eu falei sobre isso lá na rádio por volta das 8h12min de hoje (dia 22/03), mas minha participação foi bem curtinha. Claro que não estou reclamando disso, já que fiquei bem feliz de ter sido convidada. Eu sei que os meios de comunicação possuem essa questão do tempo bem escasso e bem cronometrado.

Ocorre que como sempre, fiz algumas anotações para me auxiliarem:

Direto do meu Commonplace book

E eu não utilizei todo o material anotado na entrevista, então resolvi criar um post sobre o assunto. Ao final do post, várias referências bibliográficas e dicas para professores que desejam tratar do assunto em aula.

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Falar sobre água está em alta nessa semana. Está acontecendo o Fórum Mundial da Água, lá em Brasília (de 18 a 23 de Março). Além disso, dia 23 de Março será o Dia Meteorológico Mundial e o bom gerenciamento dos recursos hídricos foi algo mencionado no texto de divulgação do tema desse ano.

Como todo mundo está falando de água, é natural que se fale de rios e os famosos rios voadores também acabam entrando na roda de assuntos. Mas como vamos ver, os rios voadores são uma analogia aos rios (cursos d’água) que estamos acostumados.

Os rios voadores (ou rios flutuantes ou rios atmosféricos) são massas de ar carregadas de vapor d’água e muitas vezes são acompanhadas por nuvens e são transportados pelo vento. Os rios voadores são regiões relativamente longas e estreitas na atmosfera – como rios no céu – que transportam a maior parte do vapor de água fora dos trópicos. Estas colunas de vapor se movem com o vento, levando uma quantidade de vapor de água aproximadamente equivalente ao fluxo médio de água na foz de um rio. Quando os rios voadores “desaguam” em algum lugar, liberam frequentemente esta enorme quantidade de água sob a forma da chuva ou da neve.

A expressão rios voadores surgiu na década de 1990 e aparentemente foi mencionada pela primeira vez (ao menos aqui no Brasil) pelo Prof. Dr. José Marengo, do INPE. Não é um nome científico ou oficial, mas ao longo do texto vocês vão entender que a analogia é perfeita. A expressão foi no entanto popularizada há alguns anos dentro do contexto de um enorme projeto chamado Brasil das águas. Esse projeto envolveu pesquisadores de diversas instituições do Brasil e do exterior e contou com um enorme projeto de divulgação científica em escolas e comunidades, para ressaltar a importância dos rios e do uso racional da água.

Como vocês podem ver nesse post, são muitos os rios voadores. Eles estão espalhados por todo o mundo e podemos dizer que eles são ‘caminhos atmosféricos’ onde tradicionalmente temos um enorme transporte de vapor d’água e nuvens de uma região para a outra. No contexto do projeto Brasil das Águas, o rio voador que foi mais estudado foi aquele responsável por trazer umidade da Região Amazônica para o Centro-Sul do Brasil. Tecnicamente, os meteorologistas costumam chamar esse tipo de fenômeno de esteira transportadora, pois assim como uma esteira transportadora em uma fábrica transporta itens de um lugar para o outro, a esteira transportadora traz umidade da Região Amazônica até o Centro-Sul do Brasil. E esse transporte ocorre por mais de 3000km .

Toda essa umidade transportada para o Centro-Sul do Brasil ajuda na formação de nuvens de chuva na região. Ou seja, parte da chuva que cai no Centro-Sul do Brasil é água que evaporou lá na Região Amazônica.

A floresta amazônica atua como uma “bomba d’água”: ela ‘bombeia’ umidade do Oceano Atlântico (que chega até a Floresta Amazônica com os ventos alíseos). Então chove na floresta e na sequência ocorre o que chamamos de evapotranspiração, quando as árvores ajudam a bombear umidade para a atmosfera.

Toda essa umidade que fica sobre a Região Amazônica é então transportada pelos ventos até o Centro-Sul do Brasil. Agora olhem só que interessante: a Cordilheira dos Andes tem um importante papel nisso. Esse enorme paredão de mais de 3000m de altura permite que o vento seja direcionado para o Centro-Sul do Brasil (e claro, norte da Argentina, Paraguai). Ou seja, a Cordilheira dos Andes tem um importante papel nisso. Se não tivéssemos a Cordilheira, toda umidade ficaria confinada nas proximidades da Linha do Equador e certamente São Paulo-SP seria um local com poucas chuvas e talvez até desértico.

Veja abaixo um diagrama explicativo (falei dele aqui), que ilustra todo processo de transporte de umidade.

Diagrama Explicativo sobre os Rios Voadores. Fonte: Projeto Rios Voadores

Mencionei que São Paulo-SP teria menos chuvas se não fossem os rios voadores. Pois bem, mais ou menos na linha do Trópico de Capricórnio que é onde está São Paulo-SP, temos dois desertos importantes: o Deserto do Kalahari (compreende partes de Angola, Botswana, Namíbia e África do Sul) e o Grande Deserto Arenoso  (Austrália). Vejam os desertos do mundo no mapa abaixo:

Fonte: Todo Estudo

São Paulo (e boa parte do Centro-Sul do Brasil) teria grandes chances de ser um deserto caso não existisse a Floresta Amazônica. A faixa litorânea de São Paulo-SP ainda receberia umidade proveniente do Oceano Atlântico, porém o interior ficaria totalmente seco. Seria como é na Austrália, onde as maiores cidades são as litorâneas (que recebem umidade).

Muitos moradores de São Paulo-SP provavelmente nunca visitaram a Região Norte, mas ainda assim nós dependemos deles para termos uma boa quantidade de chuvas no verão! Essa conclusão é incrível. As árvores, além de melhorarem o microclima (o clima local) pois deixam a área em torno delas mais agradável e com temperaturas mais amenas, também são importantes numa escala muito maior. Sem a floresta, não temos vida!

Eu acredito que essa conclusão ajuda mais pessoas a se conscientizarem da importância de preservarem o verde. Há parlamentares que desrespeitam a Floresta Amazônica e o Cerrado, pois advogam em causa própria, já que são latifundiários. Eu prometi que não iria discutir política aqui no blog (principalmente levando em conta esse clima de tensão e dualismo que vivemos), mas eu preciso dizer uma coisa: quando forem votar, votem em candidatos comprometidos com a preservação ambiental. Votem em parlamentares que discutam as mudanças climáticas, que tenham uma visão científica do assunto e estão comprometidos a transformar nossas cidades em cidades resilientes e comprometidos com o meio ambiente de um modo geral.

Então a mensagem importante é: sem floresta, não há vida! Além da importância na produção de umidade, a Floresta Amazônica (como toda floresta) é uma área onde o carbono é sequestrado (fica ali, armazenado). Ou seja, ajuda a controlar a quantidade de CO2 na atmosfera e isso ajuda a pelo menos mantermos os níveis de CO2 na atmosfera, o que significa controlar o aquecimento global. E a gente sabe, a floresta é desmatada muitas vezes para virar pasto. O gado produz CH4, gás de efeito estufa mais “potente” que o CO2. Ou seja, a floresta tem que ficar ali quieta e protegida, porque sua presença significa vida (e olha que nem discuti toda a questão da biodiversidade ameaçada da floresta).

Quando os rios voadores costumam acontecer?

A verdade é que os rios voadores acompanham a Estação Chuvosa. Embora o rio voador (no caso aqui, esse rio que vem da Amazônia) sempre esteja lá, ele fica mais caudaloso na estação chuvosa. Ou seja, como um rio comum. Para conhecer um pouco mais sobre a estação chuvosa no Brasil, clique aqui.

Números

Vamos agora falar em quantidade. Segundo os pesquisadores envolvidos no projeto Brasil das Águas (vou deixar todos os links no final), a Floresta Amazônica cede para a atmosfera cerca de 20 bilhões de toneladas d’água em um único dia. Claro que nem toda essa água vem para o Centro-Sul do Brasil, pois boa parte chove por lá mesmo e outra parte cai como neve nos Andes. No entanto, a quantidade assombra. Para se ter uma ideia, o Rio Amazonas despeja no oceano 17 bilhões de toneladas d’água.

Segundo dados do projeto, a vazão desse rio voador (ou “rio imaginário”) pode chegar a 3200 m³/s. Como comparação, o Rio São Francisco tem uma vazão de 2800 m³/s e o Rio Tietê tem uma vazão de apenas 116m³/s.

Esses números nos ajudam a compreender a importância desse rio voador e consequentemente nos ajudam a entender mais uma vez a importância da preservação da Floresta Amazônica.

Acrescentando

Na entrevista à Radio Cidadã, ainda falei sobre escassez hídrica em São Paulo-SP. Como é outro assunto, falarei sobre isso no próximo post.

Bibliografia

Além do que foi referenciado no texto, utilizei informações de: