Qual o papel das nuvens no aquecimento global?



Cortesia de Pixabay

O papel das nuvens no aquecimento global foi um dos assuntos discutidos no episódio 5 do Teolabcast, que contou com minha participação. O assunto foi discutido bem brevemente e já faz algum tempo que eu estou planejando escrever algo a respeito disso.

Hoje nós vamos falar de um artigo científico publicado em 2016 na Science, que utilizou dados obtidos pelo satélite CALIPSO e um GCM (Global Climate Model).

A missão CALIPSO, da NASA, tem como o objetivo o estudo das nuvens e dos aerossóis (partículas em suspensão na atmosfera). O satélite CALIPSO foi lançado em 2006 e seus dados tem sido utilizados em diversas pesquisas. Uma análise de 7 anos dos dados obtidos pelo CALIPSO sugere que as nuvens estão fazendo menos para desacelerar o aquecimento do planeta do que se pensava anteriormente, e que as temperaturas podem subir mais rápido do que o esperado, à medida que a poluição por gases do efeito estufa piora.

Essa análise trata-se de um artigo científico de 2016 publicado na Science e pode ser consultada aqui. Os autores são pesquisadores da Yale University e do Lawrence Livermore National Laboratory.

As nuvens tem um importante papel em reduzir um aquecimento global, uma vez que elas refletem parte da energia solar incidente para fora da Terra. Conforme as temperaturas aumentam, as nuvens passam a conter mais gotinhas de água e menos cristais de gelo, o que favorece essa reflexão da energia solar.

Nesse post, falei da importância das nuvens no balanço de energia e ele pode esclarecer alguns conceitos que menciono ao longo do texto.

O artigo sugere que os modelos climático tem superestimado a quantidade de cristais de gelo nas nuvens, o que significaria que há menos gelo disponível para ser convertido em gotinhas líquidas a medida que a temperatura sobe.

As nuvens frias são cheias de cristais de gelo, enquanto as nuvens consideradas quentes tem mais gotinhas líquidas. Os experimentos de modelagem numérica publicados no artigo foram focados em nuvens mistas (mixed-phase clouds). As nuvens Stratocumulus de latitudes médias (zonas temperadas) são um exemplo clássico desse tipo de nuvem mista.

Os dados da CALIPSO foram utilizados como um guia, para direcionar as modificações que eles fizeram no modelo climático global (GCM) utilizado na pesquisa. Eles então compararam resultados entre o modelo com modificações e o modelo modificado com as informações do CALIPSO. Os autores perceberam que ao adicionarem mais água líquida e menos gelo nas nuvens simuladas no modelo, condições mais realistas foram obtidas.

Como havia menos gelo, o brilho das nuvens aumentou mais lentamente do que no modelo não modificado, uma vez que menos cristais de gelo foram substituídos por líquido à medida que as temperaturas aumentavam.

Uma das grandes missões da ciência do clima é projetar o quanto a Terra esquenta quando as concentrações de dióxido de carbono dobram, algo conhecido como sensibilidade climática. Quando os níveis de dióxido de carbono foram duplicados no modelo modificado, as temperaturas aumentaram em pelo menos um quarto a mais do que quando o modelo não modificado foi usado.

O que os resultados do artigo podem realmente significar para a Terra dependerá muito de quanto dióxido de carbono, metano e outros gases de efeito estufa ainda serão lançados na atmosfera terrestre, e com que rapidez esse lançamento ocorrerá. Além disso, outros mecanismos de retro-alimentação podem ser melhor estudos e avaliados. Há também uma grande discussão na comunidade científica, pois os pesquisadores ainda tentam compreender melhor o papel dessas nuvens mistas na modelagem numérica do clima.

O grande desafio da humanidade é evitar os temidos 2°C de elevação da temperatura média global até 2100. E claro, entender como as nuvens atuam no resfriamento do planeta pode dar uma pista sobre como frear o aquecimento global.

O aumento nos níveis de CO2 registrados até agora tem desempenhado o papel mais importante em elevar as temperaturas globais médias em 1° C  durante os últimos 200 anos. Isso piorou as ondas de calor, inundações e secas, levando a temperaturas recordes nos últimos anos {x}.

O Acordo de Paris, discutido durante a COP21 (21ª Conferência das Partes da UNFCCC) estabelece uma meta para limitar o aquecimento abaixo de 2 °C. Os planos dos maiores poluidores do mundo para proteger o clima, incluindo a China, os EUA e a Europa, no entanto, até agora estão aquém das medidas necessárias para atingir esse objetivo.

Veja a série sobre o aquecimento global para saber mais.

Saiba mais sobre as COP’s nesse post.

Referências

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