Recorde de calor no Ártico e o aparente paradoxo com o frio intenso na América do Norte e Europa



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Foram muitas as notícias a respeito do frio intenso na América do Norte e na Europa nesse inverno 2017/2018. Eu falei sobre o assunto em dois posts:

No entanto, apesar dessas notícias sobre frio intenso nesse inverno 2017/2018, o Ártico teve o verão mais quente já registrado. O gráfico abaixo mostra a extensão do gelo do Oceano Ártico para o mês de fevereiro, de 1980 até 2018. Observe como fevereiro de 2018 é o mês de fevereiro com menor área de gelo.

Extensão do gelo do Oceano Ártico para o mês de Fevereiro, de 1980 até 2018. Observe como Fevereiro de 2018 é o mês de fevereiro com menor área de gelo. Cortesia de APNews/ National Snow and Ice Data Center

Outro dado importante, também do National Snow and Ice Data Center mostra como a temperatura média no Ártico para o período do inverno do hemisfério norte (DJF 2017/2018) foi alta, sendo o inverno mais quente registrado desde 1950.

 

Temperatura média no Ártico (em ºF) para o período de inverno desde 1950. Veja como o inverno 2017/2018 teve temperatura média maior que os outros invernos. Cortesia de APNews/ National Snow and Ice Data Center
Os meteorologistas consideram dezembro, janeiro e fevereiro como inverno (no caso do Hemisfério Norte, para nós no Hemisfério Sul, é verão), e as estações meteorológicas do Ártico apresentaram temperaturas em média 4,9°C mais quentes do que o normal para a temporada que acabou de terminar. O ar acima dos mares de Chukchi e Bering, perto do Alasca, ficou em média cerca 11°C mais quente do que o normal para fevereiro, de acordo com dados da National Snow and Ice Data Center fornecidos para a APNews.
Acho que eu já comentei em outras ocasiões no blog, mas as estações do ano nos estudos climatológicos normalmente são divididas como DJF (inverno Hemisfério Norte, verão Hemisfério Sul), MAM (primavera Hemisfério Norte, outono Hemisfério Sul), JJA (verão Hemisfério Norte, inverno Hemisfério Sul) e SON (outono Hemisfério Norte, primavera Hemisfério Sul).
Em fevereiro, o gelo marinho do Ártico cobriu 13,9 milhões de km², cerca de 160 mil km² menor do que o recorde histórico do ano passado {x}. Essa diferença é equivalente ao tamanho do Estado do Acre {x}. E como vimos no primeiro gráfico que destaquei nesse post, em fevereiro/2018 tivemos o mês de fevereiro em que o Oceano Ártico teve menos gelo (desde 1980, que é quando se tem dados).
Tudo isso é muito sem precedentes e a gente acaba usando adjetivos como maluco. Sim, o clima ficou maluco. Ao mesmo tempo que registramos ondas de frio intenso na Europa e América do Norte, tivemos um Ártico quente. Que paradoxo!
De certa forma, quando falei do vórtice polar nesse post, expliquei como o ar frio pode “escapar” de seu confinamento os polos. E por alguns instantes, regiões do Canadá, EUA e Europa ficaram mais frias do que o próprio Pólo Norte nesse inverno.

“Maluco” foi a palavra usada por  Mark Serreze, diretor do National Snow and Ice Data Center em Boulder, Colorado, que tem estudado o Ártico desde 1982. Em declaração dada à APNews, ele disse “It’s just crazy, crazy stuff,” (Isso é maluco, coisa maluca).

Como então explicar essa “coisa maluca”? Os cientistas sugerem que a redução do gelo oceânico, especialmente durante o
inverno, reduz a diferença de pressão atmosférica entre o ártico e as latitudes médias, o que enfraquece a corrente de jato. O corrente de jato geralmente afeta o tempo no dia a dia, a medida que ela desloca os sistemas frontais. Uma corrente de jato mais fraca pode fazer com que uma tempestade possa ficar mais tempo “presa” em uma região. Essa é uma das linhas de pesquisa de Jennifer Francis, da Universidade de Rutgers, uma das proponentes dessa teoria {x}. E claro, isso tem tudo a ver com a discussão sobre o enfraquecimento do vórtice polar.
Sendo assim, o aquecimento global tem tornado o trabalho dos Meteorologistas e outros cientistas que estudam o clima ainda mais desafiador, porque são mecanismos de retroalimentação que começamos a compreender há pouco tempo. Mas uma coisa é certa: as emissões antrópicas de gases de efeito estufa tem feito com que a temperatura média da Terra fique cada vez maior e os cientistas tem mostrado que isso está relacionado com o quadro de mudanças climáticas que temos visto por todo o planeta.

Referências

Além do que foi mencionado ao longo do texto:

Indicação de livro

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Hoje, o jornal em qualquer mídia apresenta e explica a dinâmica meteorológica. Embora façam parte de um sistema complexo, os fenômenos meteorológicos são apresentados nesta obra de forma simples e didática, desde os conceitos básicos de composição e estrutura da atmosfera até a previsão do tempo e do clima e as mudanças climáticas. {x}

O livro conta com um capítulo apenas sobre Mudanças Climáticas, que se trata do último capítulo do livro. O posicionamento desse capítulo fica muito claro a medida que lemos a obra, já que é necessário compreender os mecanismos físico-químicos da atmosfera para então entendermos como a humanidade está sendo responsável por uma mudança climática sem precedentes. Inclusive se você quiser comprar apenas esse capítulo sobre Mudanças Climáticas dá para fazer isso tranquilamente (na versão digital do livro cada capítulo custa menos de R$10,00). A Oficina de Textos foi certeira ao possibilitar isso, já que muita gente precisa apenas de parte de uma obra para realizar uma pesquisa. Corram lá e confiram!

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