Série sobre o Aquecimento Global – Episódio 2



Cortesia de Pixabay

Hoje vamos continuar nossa série sobre Aquecimento Global, que tem como objetivo apresentar os conceitos mais básicos sobre aquecimento global e dessa maneira atuar como um ponto de partida para quem está fazendo uma pesquisa sobre esse assunto.

Confiram o episódio 1 da série, onde expliquei o que é efeito estufa e sua relação com a definição de aquecimento global. Também recomendo o post do Monolito Nimbus que explica os termos esfeito estufa, aquecimento global e mudanças climáticas.

No episódio de hoje, vamos falar da da relação do aquecimento global com extremos meteorológicos.

Feito com o Canva

O Aquecimento Global tem relação com extremos meteorológicos?

Há uma categoria de “negacionistas” das mudanças climáticas que até concorda que o aquecimento global está de fato acontecendo. Ou seja, essas pessoas até concordam com boa parte do episódio 1 dessa série. Para essas pessoas, “ok, o aquecimento está acontecendo, mas não acredito nas mudanças climáticas ou outras alterações que vem sendo causadas no ambiente devido ao aquecimento global”.

O IPCC (Ingovernmental Panel on Climate Change) faz uma compilação de pesquisas publicadas que mostram os impactos que o aquecimento global tem feito no clima de nosso planeta. Além dos impactos diretos, o aquecimento global também pode ser responsável por impactos indiretos que tem direta ligação com a saúde das pessoas, por exemplo.

Derretimento das geleiras, secas prolongadas, ondas de calor, espalhamento de doenças tropicais provocadas por mosquitos, danificação de ecossistemas como mangues e recifes de corais, etc, são algumas das consequências do aquecimento global.  Cada um desses impactos mereceria um post, até para esmiuçarmos melhor os mecanismos, que foi como escrevi para falar das alterações no padrão do vórtice polar em decorrência do aquecimento global.

Logo que saiu o AR5, escrevi dois posts que falavam dos impactos do aquecimento global na América Latina (parte 1 e parte 2). Ao lerem esses posts (e vejam também os links, que encaminham para os relatórios), vocês vão observar que toda a América Latina já está presenciando os efeitos do aquecimento global. Como estamos falando de uma área que contém países em desenvolvimento, a situação fica ainda mais complicada. Muitos países contam como uma legislação ambiental ultrapassada, fiscalização ineficiente, falta de investimentos na área de preservação ambiental, falta de investimento em mitigação etc. Além disso, estamos falando de países muito pobres, com pessoas que vivem em áreas onde há grande risco de desastres ambientais (deslizamentos, alagamentos, etc).

Talvez como melhor exemplo ilustrativo, temos os furacões. O aquecimento dos oceanos pode fazer com que ciclones tropicais (furacões) possam ter mais energia para se desenvolverem em furacões de maior categoria (saiba mais sobre a intensidade e a categoria dos furacões aqui). Além disso, o aquecimento dos oceanos pode possibilitar que os furacões se desloquem para áreas mais distantes de onde se formaram, a medida que vão passando por águas mais quentes. Dessa maneira, podem acabar atingindo áreas que não eram normalmente atingidas por furacões e pode ser exatamente isso o que aconteceu com o furacão Sandy {x}.

De maneira simplificada, o aquecimento global pode fazer com que a atmosfera fique mais quente e mais seca ou mais quente e mais úmida, dependendo da localidade que você está. De maneira geral, os lugares que já são úmidos estão ficando ainda mais úmidos e os que já são secos, estão ficando ainda mais secos {x}.

É importante sempre lembrar que os efeitos do aquecimento global no ambiente são agravados por outros problemas ambientais. Por exemplo, o aquecimento global pode alterar o regime de chuvas de uma localidade, prejudicando o sistema de abastecimento de água. No entanto, se essa mesma localidade não cuida de seus mananciais e não tem programas para evitar que as nascentes sejam poluídas ou para evitar que a vegetação em torno das nascentes sejam arrancada, a falta d’água e os problemas de abastecimento serão ainda maiores.

A produção de conhecimento é um processo dinâmico

É importante sempre ressaltar que a produção de conhecimento é um processo dinâmico. Ou seja, artigos são escritos a todo momento e a todo momento são revisados, publicados, questionados, etc. Muita gente tende a crer que a ciência trata de “verdades absolutas”, porque logo pensa nas leis científicas. Porém até mesmo as leis científicas podem ser “derrubadas” pelo princípio de falseabilidade, desde que novas observações que possibilitem isso sejam realizadas. Ou seja, ciência não se trata de verdade absoluta.

O aquecimento global por causas antropogênicas conta com 97% de consenso da comunidade científica. É um marco espantoso e isso significa que boa parte dos cientistas concordam que as atividades humanas estão aquecendo a atmosfera. Pode até ser que no futuro esse consenso seja derrubado, porém a melhor ferramenta que temos no momento é esse consenso.

São muitos artigos científicos publicados sobre o tema, são muitos grupos trabalhando separadamente e muito esforço profissional que fez com que a comunidade científica chegasse a essa conclusão atual. E essa conclusão é a melhor ferramenta que temos para atuarmos no momento.

O que se discute muito e é tema de várias pesquisas científicas são as consequências do aquecimento global, porque para chegarmos a essas respostas dependemos de simulações numéricas cada vez mais avançadas, que levam em conta diferentes cenários. Nesse post em que falo sobre o nascimento das previsões climáticas, falo brevemente sobre os desafios das previsões. É preciso levar em conta as atividades humanas e possíveis mudanças nessas atividades, por exemplo.  Um modelo pode considerar que o ser humano desmate ou emita CO2 nos próximos 50 anos a mesma taxa de hoje. Outro modelo pode considerar que ocorra uma mudança no comportamento humano e é difícil prever essas alterações de comportamento. É até por essa razão, que na minha opinião, o estudo das mudanças climáticas se beneficia muito do trabalho conjunto entre profissionais de diversas áreas do conhecimento. Antropólogos, economistas e sociólogos, por exemplo, podem ajudar a ter um melhor palpite sobre a previsão das mudanças de comportamento do ser humano.

Além de lidar com as imprevisibilidades do ser humano, os modelos climáticos já tem que lidar com a natureza caótica da atmosfera. Ou seja, trata-se de um grande desafio para a comunidade científica.

Diretamente do meu Commonplace book, onde escrevi boa parte do conteúdo dessa série.

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Hoje, o jornal em qualquer mídia apresenta e explica a dinâmica meteorológica. Embora façam parte de um sistema complexo, os fenômenos meteorológicos são apresentados nesta obra de forma simples e didática, desde os conceitos básicos de composição e estrutura da atmosfera até a previsão do tempo e do clima e as mudanças climáticas. {x}

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