A ideia de “jogar tudo para o alto” é perigosa



Cortesia de Pixabay

Esse é mais um daqueles meus posts opinativos. São textos em que imprimo um pouco da minha experiência de vida para de alguma forma ajudar pessoas em dúvida apresentando meu ponto de vista sobre algum assunto.

Meu ponto de vista é o “correto”, ou seja, ele atende suas necessidades e anseios? Eu não sei dizer, caros leitores. Quando eu preciso tomar uma decisão sobre algo, gosto de ler pontos de vista diferentes até para ter mais segurança quando eu realmente precisar bater o martelo. Acho importante enxergar os prós e os contras através dos olhos dos outros.

Hoje vamos falar sobre a ideia de jogar tudo para o alto e ser feliz, que tanto é propagada por aí. Vez ou outra aparece um texto falando de alguém que jogou tudo para o alto e foi dar a volta ao mundo em uma kombi ou abriu um food truck de algodão doce ou qualquer coisa nessa linha. Ou talvez nem tenha ido viajar pelo mundo, apenas jogou tudo para o alto porque não aguentou tanta pressão e quis dar um tempo. Só que pressão sempre vai existir, o que a gente precisa é aprender a lidar com isso.

O que observo com preocupação é que a ideia de  jogar tudo para o alto geralmente é apresentada com uma conotação de liberdade e felicidade e bem, no texto de hoje vou falar sobre responsabilidade e sacrifícios e de como isso pode ser importante a longo prazo.

O que me motivou a escrever esse post foi esse tweet:

Alguns de meus leitores já sabem minha história. Eu vim de bairro da periferia de São Paulo-SP e sou de família de classe média operária. Cresci num lar muito estável, com pais que sempre incentivaram meu irmão e eu a estudarmos. Meu pai e minha mãe sabiam da importância dos estudos.

Meu avô materno era um homem muito inteligente, que aproveitou poucas oportunidades que teve para fazer cursos que a igreja protestante que ele frequentava ajudava a organizar e aprendeu várias coisas de maneira autodidata e na base do empirismo. Ele tinha uma farmácia no interior da Bahia, naquele tempo em que o dono da farmácia tinha que “quebrar o galho” e atuar como médico. Ele tratou pessoas com queimaduras e com outros ferimentos gravíssimos, ajudou mulheres durante o parto, ajudou no cuidado com bebês, etc.

Por fim, meu avô deixou essa região rural bem afastada no interior da Bahia. Primeiro ele foi para um vilarejo maior (onde abriu a farmácia), depois para outro distrito ainda maior (onde atuou como comerciante e vereador) e por fim chegou até São Paulo-SP, pois queria dar oportunidades para que seus filhos pudessem estudar e trabalhar. Ele chegou em São Paulo com toda a família, composta na ocasião por 8 filhos (um deles, minha mãe), esposa, uma neta e um genro.

Quase todos os meus primos cursaram ou cursam o ensino superior. Os que ainda são crianças ou adolescentes, também já tem  seus sonhos e parecem bastante focados. Além de mim, meu irmão e mais 3 primas também estudaram em Universidades Públicas. Outra prima foi beneficiada com bolsa integral pelo Prouni. E os outros primos fazem parte daquela realidade igualmente difícil de quem precisa trabalhar durante o dia e estudar a noite.

Meu pai teve uma história familiar mais difícil. Perdeu o pai cedo, passou necessidades. Mas minha avó paterna era muito esforçada. Trabalhou como cozinheira, trabalhou na feira e sempre e incentivou os filhos a estudarem. Ajudou e incentivou meu pai a procurar um emprego em um emprego melhor, o que permitiu que ele pudesse ter uma carreira. Ele estudou e cursou uma faculdade somente depois dos 35 anos, já casado e com dois filhos.

Esses são exemplos de como o bom direcionamento e uma boa estrutura familiar fazem toda a diferença até mesmo em uma família pobre. Com exceção de duas primas que tiveram bolsa integral em uma escola particular, todos os outros (incluindo eu e meu irmão) estudamos em escolas públicas durante o ensino fundamental e o ensino médio.

Como diz a querida amiga e colega de profissão, Cátia Braga: estuda que a vida muda. Eu e meus familiares  somos exemplos muito claros dessa afirmação. É um caminho difícil e extremamente desanimador em muitos momentos, mas a única chance que uma pessoa pobre tem de crescer na vida é estudando. E aqui eu uso o termo “crescer na vida” me referindo aos objetivos financeiros mesmo, já que precisamos estudar para termos melhores oportunidades de trabalho. Claro, como vocês sabem eu acredito que estudar faz a gente crescer intelectualmente e esse é outra e importante vantagem sobre instruir-se.

Vou falar algo e sei que muita gente mal intencionada vai compreender de maneira bem negativa, mas vou falar mesmo assim. Quando converso com pessoas que tiveram uma infância mais privilegiada que a minha, elas nem percebem que eu sou da periferia. Isso quer dizer que eu tenho vergonha de ser da periferia? Claro que não. Isso quer dizer que eu escondo que sou da periferia? Claro que não, inclusive isso faz parte de mim e eu sempre conto para meus amigos sobre os “causos da ZL”. Bom, se você leu até aqui e tem boa vontade acredito que está compreendendo onde quero chegar. O que quero dizer é que por eu ter estudado eu tenho a possibilidade de transitar por diversos meios e conversar com pessoas de background bem mais privilegiado, ou seja, que puderam desde cedo estudar em escolas particulares de elite e frequentar lugares que eu jamais poderia sonhar em frequentar durante minha infância.

Se você enxergou algo “negativo” no parágrafo acima, não posso fazer nada. Você leu lá no começo que nesse post estou apresentando meu ponto de vista. E você tem todo o direito de discordar.

Estuda que a vida muda. A Cátia tem toda razão. Provavelmente você não vai ficar milionário, mas vai ter um trabalho melhor. Além disso, você vai tornar-se uma pessoa mais culta e seus horizontes vão se ampliar. Vai ser como ver um céu estrelado pela primeira vez. Há muita coisa maravilhosa para se enxergar por aí, em todas as áreas do conhecimento. Mas para isso é preciso estudar, é preciso ler, é preciso ouvir o outro, é preciso conversar com pessoas mais instruídas, é preciso informar-se, etc. Frequentar a escola (aqui falo ensino médio, curso técnico, Universidade, etc ) é a melhor maneira para obter isso, porque é onde a gente adquire os alicerces.

“If the stars should appear one night in a thousand years, how would men believe and adore; and preserve for many generations the remembrance of the city of God which had been shown! But every night come out these envoys of beauty, and light the universe with their admonishing smile.”

Ralph Waldo Emerson

Não estou dizendo que é fácil. Eu sofri bullying no Ensino Fundamental. Não foi bullying pesado, mas me deixou desanimada e me fez querer mudar da escola.  No Ensino Médio, com 15 anos, tinha que me deslocar para outro bairro para frequentar uma escola melhor (fui aprovada para estudar nessa escola através de um vestibulinho). Logo cedo percebi que eu tinha que dar o melhor de mim e que tinha que enfrentar duas horas diárias (ou mais) de condução para me instruir. Claro que em alguns momentos eu pensei em desistir (breves momentos), mas minha família me colocava nos trilhos novamente para que eu compreendesse a importância do que eu estava fazendo e me faziam entender que até aqueles momentos de dificuldade seriam lembrados como motivos de triunfo no futuro.

Eu nunca tive a opção de “jogar tudo para o alto”. Eu gostaria de ter tido essa opção, pois quem não quer viajar pelo mundo? Só que quando você é de família de classe média operária, você NÃO TEM ESSA OPÇÃO. E se sua história familiar for parecida com a de minha família, você tem que ter isso em mente de maneira muito clara: jogar tudo para o alto não é uma opção.

Muitas vezes a gente se irrita com a escola, faculdade ou com o trabalho. São problemas de relacionamento com colegas ou professores, desmotivação por conta da desorganização do local, etc. Ficamos estressados também com os meios de transporte, desanimados com a situação político econômica do país, etc. Além dos problemas intrínsecos: doenças, conflitos internos, problemas familiares, etc. Viver é muito difícil, mas a gente precisa ter muito cuidado ao tomarmos nossas decisões. Talvez se você decidir jogar tudo para o alto, sua vida vai ficar mais difícil, pois ficar sem concluir seus estudos ou ficar sem emprego pode não resultar naquilo que você imaginava.

E outra coisa, você vai jogar tudo para o alto e depois? O que você vai fazer? Se quiser mudar de trabalho ou de curso, tenha então um novo plano bem traçado e bem realista. Entenda que provavelmente essa decisão vai trazer alguns ônus, já que começar do zero não é fácil (embora às vezes seja exatamente o que precisamos).

Há um tempo atrás uma amiga, um pouco mais jovem que eu, estava descontente com seu trabalho e veio conversar comigo a respeito. Ela queria pedir demissão e sugeri que ela mantivesse a calma e pensasse exatamente no que faria quando deixasse o trabalho. Ela não soube me dizer o que faria, disse que viajaria. Perguntei então o que ela faria depois que retornasse de viagem e depois que o dinheiro acabasse. Ela não soube dizer. Por fim, ela tomou a decisão de se manter no trabalho. Acabou sendo promovida e várias coisas bacanas aconteceram na vida dela.

Vejam, não estou dizendo que eu sou a dona da razão. O que apresento aqui é apenas o meu ponto de vista. Vejo as pessoas agindo muito impulsivamente (ao meu ver) e eu quero apresentar aqui minha opinião a respeito disso. Há momentos na vida que a gente precisa sim dar um pouco mais da gente e eu não me arrependo de ter dado 100% de mim lá pelos meus 20 e poucos anos. Isso possibilitou que hoje, aos 30 e muitos, eu pudesse ter uma vida mais confortável. Hoje eu não conseguiria estudar cálculo até mais de meia noite (precisei fazer isso várias vezes). Eu dei o máximo de mim quando minha saúde permitia. Não que eu esteja com problemas de saúde e na verdade me considero jovem e bem disposta, mas é claro que eu não tenho o mesmo vigor que uma pessoa de 20 e poucos anos. Além disso, agora eu tenho um filho pequeno que exige 100% de mim.

Não estou dizendo também que minha trajetória de vida é a correta e que todo mundo deve fazer exatamente assim para dar certo. Não sou um molde, um modelo. Tem gente que tem filhos aos 20 e poucos, outros fazem faculdade com mais de 40, outros mudam de profissão aos 50, etc. Eu mesmo tenho alguns planos de mudança para médio e longo prazo. O que quero dizer é que há algumas coisas em todo esse discurso que eu gostaria que meus leitores mais novos entendam:

  • tenham responsabilidade nas decisões de vocês: largar tudo talvez não seja uma opção se você é pobre!
  • todas as decisões tem ônus;
  • se quiser largar tudo, faça com responsabilidade e trace novos planos antes de qualquer decisão;
  • tenham objetivos bem traçados;
  • não tem problema mudar de ideia, mas o importante é sempre ter um plano realista;
  • estuda que a vida muda.

Hoch jaghpu’Daj HoHbogh SuvwI’ yIvup

[Lamento pelo guerreiro que mata todos os seus inimigos]

{x}