“Diga-me com quem tu andas e te direi quem és”. Será?



Cortesia de Pixabay

Há um tempo atrás uma jornalista, Quinn Norton, que iria integrar o time de um importante jornal norte-americano, acabou sendo recusada pelo jornal. O motivo: ela era “amiga” de neonazistas.

É preciso deixar muito claro, para eventuais pessoas maldosas e/ou com dificuldade de interpretação de texto que chegarem até aqui, que eu não tenho nenhuma simpatia por qualquer ideologia que pregue supremacia desta ou daquela etnia ou cor de pele. Também não tenho simpatia por nenhuma ideologia extrema (seja extrema direita ou extrema esquerda).

Essa situação envolvendo a jornalista me fez pensar em algumas coisas:

  • o que faz alguém ser “amigo” de um neonazista?
  • será que não banalizamos o significado de uma amizade?

Norton escreveu alguns textos onde ela foi simpática com algumas figuras que seguem ideologias relacionadas ao nazismo (leia mais aqui). Pelo o que entendi, ela não defendeu o nazismo, ela apenas tentou ver “o lado bom” de pessoas relacionadas a esses movimentos.

Ao fazer isso, certamente a jornalista sabia que estava procurando sarna para se coçar. Ela parece ser uma mulher inteligente, acho que ela imaginou que iria criar polêmica ao falar sobre essas coisas. Tentar ver lado bom em nazistas faz as pessoas se revoltarem, pois a memória dos horrores do nazismo ainda está muito viva na nossa história, até porque essas atrocidades ocorreram há pouco tempo e foram bem documentadas. Vez ou outra aparecem por aí imagens de quadros pintados por Adolph Hitler e apesar de ele ser um pintor habilidoso, percebo que há um certo constrangimento em admitir isso. Hitler e outros membros do Partido Nazista foram transformados em monstros, demônios, ou seja, figuras que não são humanas. Porém ao observar essa foto de Goebbels, colorizada pela talentosa Marina Amaral, não deixo de observar que não há nada malignamente sobrenatural nesse homem. Ele até se parece com o funcionário da repartição pública que você precisou ir na semana passada ou talvez até lembre fisicamente um parente. Ele é um homem comum e isso é mais assustador do que qualquer atributo de natureza sobrenatural que pudesse ser atribuído a ele.


Precisamos levar em consideração também que Quinn Norton  é jornalista e sendo assim precisa de fontes de todos os tipos para que possam auxiliá-la a escrever a respeito dos temas que foram designados a ela ou que ela tem interesse em pesquisar. Muitos jornalistas me seguem no Twitter, por exemplo, porque eles escrevem sobre ciência e mais especificamente, sobre Meteorologia. Se por alguma razão ela estava escrevendo sobre o movimento neonazista, me parece claro que ela precisaria conhecer gente desse meio. Sem dúvida quase todos nós concordamos que é preciso ter estômago forte para se relacionar com pessoas desse meio.

Muitas vezes adicionamos pessoas nas redes sociais que a gente só conhece “de vista”. No Twitter, por exemplo, não conheço pessoalmente mais de 90% dos meus contatos. Eu procuro não me fechar totalmente em bolhas, mas claro que eu não sigo perfis que discutem assuntos ou seguem ideias que eu abomino veementemente. Também não sigo perfis de pessoas violentas ou muito agressivas. A verdade é que não tem jeito, a gente acaba se fechando em bolhas, até pela nossa própria sanidade, já que não faz sentido e nem é mentalmente saudável seguir uma pessoa abertamente preconceituosa, por exemplo. Lembro de um caso marcante para mim que ocorreu durante as eleições de 2010, quando eu seguia uma pessoa que até aquele momento era tranquila e amigável. Com o resultado das eleições, ela mostrou uma face totalmente preconceituosa e raivosa contra nordestinos. Eu não quis ler aquilo de maneira alguma, claro que parei de segui-la e bloqueei seu perfil.

Esses contatos que a gente conhece só “de vista”, não são nossos amigos. Podem tornar-se amigos, mas em um primeiro momento são simples contatos, pessoas com as quais você se identifica ou gosta do que compartilham. Sei que isso é muito óbvio, mas às vezes acho que a gente banaliza o significado da palavra amizade e isso não é algo necessariamente da atualidade. Lembram quando ainda existia o Orkut e havia quem se gabasse por ter um perfil “fechado” para adicionar novas pessoas (pois já tinha atingido 1000 ‘amigos’) e então tinha que criar um novo perfil? Pois então, amigo mesmo dá para contar nos dedos das mãos (e talvez até mesmo de uma única mão) e precisamos ter sempre isso em mente, para termos a consciência que podemos contar realmente com poucas pessoas.

E eu sei que todos nós somos perversos, em maior ou menor grau. Sendo assim, mesmo que uma pessoa transmita uma imagem “cool e livre de preconceitos” nas redes sociais, a gente não sabe como essa pessoa é cotidianamente. Eu dei unfollow na mulher que tem preconceito contra nordestinos, mas vai saber como são no dia a dia as pessoas descoladonas que sigo? Eu não sei.

As redes sociais muitas vezes sugerem a ideia de “se eu não compartilhei, então não existe”.  As coisas só ganham existência se eu postar a foto no Instagram ou o textão no Twitter/Facebook. E não é assim, as coisas são muito mais complexas e o ser humano gosta de usar máscaras para ser aceito. Algumas máscaras cobrem o rosto inteiro, outras apenas os olhos. Algumas são mais resistentes, outras são mais frágeis.

Por isso achei totalmente leviano e simplório afirmar categoricamente que a jornalista Quinn Norton seja nazista. A história em que ela sem envolveu é muito esquisita e dá margem à muitas dúvidas sobre as intenções dela, com toda certeza. Porém precisamos avaliar a complexidade das coisas e compreender as hipocrisias e mentiras que as pessoas falam sobre si, preferindo muitas vezes criar polêmicas sobre os outros para expiarem seus demônios pessoais.

É muito fácil criticar um nazista ou um preconceituoso de modo geral, porque é algo evidentemente errado. Eu acho que existem pessoas que adoram criar “treta” na internet e ficam procurando traços de preconceito em locais ou situações onde isso não fica claro ou nem existe. Observem por exemplo o comentário IDIOTA que recebi nesse post:

“Não vou colocar todas as capitais nordestinas no gráfico para não poluí-lo.” preconceituoso do crlh

(ok, pode ser zoeira de quem comentou, quis fazer graça e tal, mas vamos supor que ela realmente tenha interpretado minha frase de maneira negativa.)

Qualquer pessoa familiarizada com a elaboração de gráficos sabe que se a gente coloca muitas linhas nele, ele fica poluído, ou seja, de difícil visualização e interpretação e no post em questão ficou muito claro que foi isso que eu quis dizer.

Ainda sobre esse post em questão,  eu fiquei assustada com o nível dos comentários. Eu sei que certamente eu não fui totalmente clara e cabe uma revisão desse texto, escrevendo de maneira mais sucinta e mais objetiva sobre os diferentes climas brasileiros e por isso eu penso em reescrevê-lo. Mas eu fiquei assustada com o nível intelectual de muitos comentários, que são realmente deprimentes. Mas isso é assunto para outra ocasião, o que quero falar aqui é que a comentarista identificada como Lia Souza (que escreveu o comentário que destaquei) veio procurar chifre em cavalo para mostrar que eu sou uma pessoa preconceituosa. E muita, mas muita gente age exatamente como essa comentarista. E eu tenho uma opinião sobre isso: as pessoas que agem assim o fazem para parecerem bacanas e desconstruídas, querem mostrar atributos positivos de si mesmas que talvez nem existam.

Quem de fato DENUNCIA o preconceito e a segregação em nossa sociedade age de outra maneira, sempre fazendo boa interpretação dos textos e das falas, se comunicando educadamente e buscando medidas legais para punir os criminosos. Já os social justice warriors agem dessa maneira desordenada e até danosa, expondo e prejudicando as pessoas através de um julgamento leviano e inconsequente.