É verdade que o inverno de 2018 será o mais frio dos últimos 100 anos?



Feito com o Canva

Eu não queria escrever a respeito desse assunto, queridos leitores. Desde que eu apaguei meu perfil no Facebook, tenho tido um enorme alívio e um crescente aumento na qualidade de vida, uma vez que meu contato com notícias falsas (fake news) reduziu-se drasticamente desde então. Além disso, tive um inconveniente familiar no WhatsApp (outro espalhador de fake news) e acabei saindo de vários grupos onde fake news eram amplamente compartilhadas. Eu achei que tinha conseguido criar minha bolha livre de boatos, mas não é tão simples assim.

Tudo começou com o tweet do Eduardo Gonçalves, colega de profissão que pediu para compartilhar o seguinte alerta:

Como não tenho conta no Facebook (que orgulho e que alívio poder falar isso), eu achei que não iria ter contato com essa informação falsa que o Eduardo se referia.

Ledo engano.

No fim de semana fui visitar meus pais e:

Horas depois, uma prima me fez a mesma pergunta pelo WhatsApp. E eu percebi que o negócio estava ficando sério e que o Eduardo tinha razões para se preocupar com essa informação falsa. Não parecia ser algo pontual.

Respondendo

A informação é falsa. Para começar, o INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) e o CPTEC/INPE, órgãos máximos de Meteorologia do Brasil, não soltou nenhuma informação a respeito disso. Se o inverno de 2018 realmente fosse ser o mais rigoroso dos últimos 100 anos, se os modelos meteorológicos estivessem de fato apontando isso, certamente meteorologistas do INMET e do CPTEC/INPE estariam se pronunciando através dos sites e através dos meios de comunicação tradicionais. Nenhum portal de notícia reconhecidamente sério e experiente (UOL, Estadão, Terra, dentre outros) noticiou a respeito desse suposto inverno recorde. Uma informação tão séria dessas seria transmitida repetidamente, até para que cidades da Região Sul do país pudessem traçar planos de contingência para cuidar da população de rua, por exemplo.

Ainda não foi divulgado o prognóstico para o inverno de 2018 no site do INMET (veja a lista de informes aqui). Alguns meteorologistas já sugerem que devido a influência do La Niña, o inverno 2018 seja mais frio que o inverno 2017 no Centro-Sul do Brasil. E nem é preciso falar nada com relação ao restante do território Brasileiro (norte da Região Centro-Oeste, Região Nordeste e Região Norte), já que essas áreas são muito próximas do Equador e não tem amplitude térmica anual significativa. Em outras palavras, essas regiões não tem um inverno marcado, com temperaturas baixas.

O Gilmar Lopes do e-farsas  fez um texto bem curto e direto, explicando que essa informação é falsa. Não há nenhum indício de que o inverno 2018 será o mais frio dos últimos 100 anos e com o atual estado da arte dos modelos meteorológicos, os meteorologistas já teriam conseguido prever um suposto inverno rigoroso.

Portais sérios de notícias também tem seções onde boatos são averiguados. O UOL, por exemplo, também informou a respeito disso. 

Segundo o levantamento feito pelo Gilmar, vários blogs e até portais regionais de notícias ajudaram a espalhar essa fake news. No entanto, como eu disse anteriormente, nem o órgão máximo brasileiro de Meteorologia (INMET ou CPTEC/INPE), nem portais grandes e nem grandes emissoras de TV falaram a respeito. Por que o Sr. Fulano do Portal Notícias da Vila Verde teria informações privilegiadas a respeito de algo tão sério?

Como percebi que boa parte dos que repassaram esse boato eram sites relacionados à agropecuária, observe que nem a EMBRAPA noticiou algo a respeito.

Ao citar o INMET e a EMBRAPA, eu quero dar uma importante dica: procurem o órgão de autoridade sobre o assunto. Se o boato for a respeito de vacinas, por exemplo, procure o site do Ministério da Saúde. Liguem para a Secretaria da Saúde do seu Estado e do seu Município. Busque informações em fontes confiáveis.

Em outras palavras, não é necessário ser especialista no assunto para ser cético com relação às informações que chegam até nós. Claro que eu respondi educadamente todas as pessoas que me procuraram para saber sobre a veracidade dessa notícia, porém eu tentei deixar claro para essas pessoas que todos nós devemos deixar nosso alarme cético ligado e então questionar as informações que chegam até nós. Inclusive pessoas especializadas em comunicação tem criado guias para evitar que a gente caia em fake news.

Não podemos usar o argumento “desempoderador” que diz que se você não é especialista, não tem como saber se uma notícia é falsa ou não. Eu não sou médica e não caio em boatos de vacinas, por exemplo. Simplesmente porque deixo o alarme cético ligado e procuro buscar informação nos órgãos de autoridade sobre o assunto da fake news em voga.

Muita gente ainda acredita em tudo o que é compartilhado nas redes sociais. Até porque muitas vezes quem repassa a fake news é um parente ou um amigo de muita credibilidade, pessoa reconhecidamente honesta. Só que talvez essa pessoa também não esteja se dando conta de que aquela informação é falsa. Por isso, sempre questione e pense muito bem antes de compartilhar qualquer notícia e informação duvidosa. Leia, releia e procure indícios que apontem para a credibilidade ou não daquela informação. O pessoal do Techtudo também escreveu dicas valiosas para identificar fake news:

  • Nunca compartilhe antes de ler (não leia apenas o título!);
  • Faça uma busca no Google sobre o conteúdo do texto;
  • Pesquise a reputação do veículo de notícias;
  • Veja a data da publicação;
  • Use o bom senso e procure fontes confiáveis.

Leia todos os detalhes aqui. Pesquise e questione sempre. Teremos eleições esse ano e certamente durante as campanhas políticas, várias fake news serão espalhadas com o objetivo de prejudicar e manchar a reputação de candidatos. Mantenha o alarme cético ligado. 

Quem cria essas notícias falsas?

Notícias falsas são criadas por zoeira, por pessoas desocupadas ou por pessoas que tem interesses bem declarados (como o caso de fake news políticas ou ligadas à algum tipo de extremismo religioso). O recente caso do assassinato da vereadora Marielle Franco foi um recente e triste exemplo: após sua morte, algumas fake news foram compartilhadas, que associavam Marielle à narcotraficantes, por exemplo. Há realmente gente suja!

Quando o assunto é ciência, percebo que fake news está diretamente relacionada com pseudociência e anti-ciência em geral. As informações falsas sempre tem relação com algum corpo celeste misterioso destrutivo, alienígenas, cura milagrosa para alguma doença, etc.

No caso da notícia falsa que discuti no post, eu sugeri, em tom de brincadeira, que possivelmente foi inventada por vendedores de edredons e cobertas.  Na verdade não sei quem inventou essa história de inverno mais rigoroso dos últimos 100 anos, mas uma coisa eu posso dizer. Com o aquecimento global, pode até ser que o inverno de 2018 seja o mais rigoroso dos próximos 100 anos e claro, falo isso em tom de brincadeira (mas com uma dose de ciência). Os invernos tem ficado menos rigorosos, em São Paulo-SP por exemplo as manhãs já não são tão frias como eram há 80 anos atrás. As chances de acontecerem invernos rigorosos está ficando cada vez menor.

Acompanhem a série sobre Aquecimento Global que estou escrevendo.