O famoso gráfico de temperaturas médias globais anuais que viralizou há algum tempo



Feito com o Canva

Introdução

Hoje será mais um post em que falaremos sobre Aquecimento Global. Não faz parte da série que estou escrevendo, mas vai ajudar a explicar algumas coisas sobre o aumento da temperatura média global.

Quando comecei a escrever o blog há 8 anos atrás eu não pensava em escrever sobre Aquecimento Global e Mudanças Climáticas. Não que eu fosse negacionista, pelo contrário. Quando eu cursei o Bacharelado em Meteorologia, entre 2002 e 2005, já era discutido que o aquecimento global que estamos experimentando atualmente é resultado de ações humanas. Toda a base que tive sobre radiação atmosférica e climatologia deixavam isso muito claro, já há quase 15 anos atrás.

Eu simplesmente não achava que falaria sobre aquecimento global porque eu queria falar de conceitos básicos de Meteorologia. Tanto que os primeiros posts são bem engessados, lembram uma linguagem de livro didático (veja esse por exemplo). Com o tempo eu fui me soltando mais e percebendo que dava para falar sobre ciência de uma maneira mais descontraída.

Além disso, até então eu não tinha tido contato com “negacionistas”, ou seja, pessoas que negam o aquecimento global ou apenas negam que esse fenômeno tenha uma raiz antropogênica. Conforme fui me envolvendo mais com o blog, fui percebendo com muita surpresa a quantidade de negacionistas.

Teve até negacionista famoso que foi dar entrevista em programa de TV muito conhecido, o que é um indício de como o negacionismo (como começou a ser chamada essa maneira de pensar) começou a se popularizar muito e a comunidade científica começou a ficar preocupada com essa “moda negacionista”.

A mídia começou a colocar os negacionistas como “um outro lado da história”, como se fosse necessário ouvir os dois lados de um assunto que apresenta um consenso de 97% na comunidade científica. Eu até falei sobre essa questão em em 2012, quando comentei um texto que falava a respeito dessa preocupação da comunidade científica.

Comecei a notar a quantidade de desinformação a respeito do aquecimento global. Colocaram até política na jogada, dizendo que aquecimento global era “coisa de esquerda”. Foi quando comecei a me posicionar a respeito do assunto e tentar apresentar aos meus leitores informações sobre o tema. Sei que muitos professores usam meu blog para organizarem e prepararem suas aulas, sei que muitos alunos usam os textos daqui como ponto de partida para suas pesquisas e eu acredito que essa linguagem de proximidade com o público que tenho me esforçado em utilizar nos meus textos ajuda na apresentação e na discussão dos temas que apresento em meu blog.

E essa linguagem de proximidade com o leitor também faz com que você, pessoinha que gosta de reproduzir textos de internet na íntegra em seus trabalhos escolares (isso é plágio e é crime) tenha pelo menos o trabalho de reescrever o texto de maneira impessoal para enviá-lo ao seu professor.

No post de hoje, vou falar sobre o famoso gráfico em espiral, que apresenta as variações da temperatura média global desde 1850.  O gráfico, que discutiremos a seguir, viralizou em 2016 pois foi transmitido durante a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Quem fez?

O climatologista britânico Ed Hawkins, professor na University of Reading e um dos autores do AR6 do IPCC, é o autor desse famoso gráfico em espiral.  Quando o gráfico apareceu na abertura dos Jogos Olímpicos, Hawkins se manifestou e demonstrou bastante surpresa e alegria:


Esse é provavelmente o “gráfico climático” mais compartilhado e mais conhecido no mundo todo. Eu fico pensando no impacto desse gráfico na vida das pessoas que já se interessavam sobre o assunto. Certamente essa imagem ajudou muito na conscientização a respeito do aquecimento global. Esse gráfico é assustador, vamos ser bem francos.

Bom, então vamos compartilhar por aqui também o famoso gráfico:

 

De acordo com Ed Hawkins, quem deu a ideia para a criação dessa espiral foi Jan Fuglestvedt, que também estuda o clima e também é autor do IPCC.

Os dados utilizados para a realização desse gráfico são do pacote HadCRUT4 O HadCRUT4 é um conjunto de dados em grade de anomalias históricas globais de temperatura da superfície relativas a um período de referência de 1961-1990. Os dados estão disponíveis para cada mês desde janeiro de 1850, em uma grade de 5°. O conjunto de dados é um produto colaborativo do Met Office Hadley Centre e da University of East Anglia {x}.

Esses dados podem ser facilmente baixados e utilizados. Basta clicar nesse link e ler todas as informações.

O que a imagem mostra?

A espiral animada apresenta a mudança global de temperatura de maneira visualmente atraente e direta. O ritmo da mudança é bastante evidente, especialmente nas últimas décadas. A relação entre as temperaturas globais atuais e os limites de metas discutidos internacionalmente também é clara, sem muita interpretação complexa necessária {x}.

As metas as quais me refiro estão relacionadas com o Acordo de Paris, o compromisso no sentido de manter o aumento da temperatura média global em bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais e de empregar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais {x}. É por isso que o gráfico mostra 1,5°C e 2,0°C em linhas vermelhas, bem demarcados, para que a gente possa ter uma ideia do quanto estamos nos aproximando perigosamente desses limites.

Além do evidente aumento de temperatura nos últimos anos, que vão gradualmente se afastando do centro (o que mostra aumento de temperatura média), conseguimos ver umas coisas bem interessantes que aconteceram durante a história do clima dos últimos 166 anos, como por exemplo:

  • 1877-1878: El Niño forte que elevou a temperatura média global;
  • 1880-1910: pequeno resfriamento, parcialmente devido erupções vulcânicas;
  • 1910-1940: aquecimento parcialmente devido à recuperação de erupções vulcânicas, pequeno aumento na produção solar e variabilidade natural;
  • 1980-agora: forte aquecimento, com temperaturas mais altas entre 1998 e 2016 devido a fortes eventos do El Niño.

É importante deixar claro que as temperaturas não estão aumentando “sem controle”. Os seres humanos são os principais responsáveis pelo aumento da temperatura no último século e há um consenso de 97% na comunidade científica sobre isso.

Para saber mais sobre o gráfico, veja esse texto explicativo do Ed Hawkins.

Concluindo

O gráfico em espiral do Ed Hawkins é uma imagem muito importante e que certamente ajudou a conscientizar muitas pessoas. O fato de ele ter sido transmitido ao vivo na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (com 3 bilhões de telespectadores) é certamente um marco na divulgação científica e na popularização das discussões sobre mudanças climáticas.

Parabéns ao Ed Hawkins e a todos os pesquisadores que de maneira direta ou indireta contribuíram com o pacote de dados que deu origem ao famoso gráfico. Que mais informação sobre o clima seja popularizada e que mais pessoas sejam alcançadas pelo conhecimento e pela consequente conscientização advinda da busca por conhecimento.

Curiosidade

Uma curiosidade sobre esse gráfico é que o @cedricgraebin a utilizou como capa do episódio do Teolabcast sobre aquecimento global que eu participei. Fiquei muito feliz com a escolha do Cedric, porque ele simplesmente escolheu o melhor gráfico sobre o tema. E acredito que ao longo desse texto eu deixei bem claro o porquê desse gráfico ser tão importante.

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