O que significa TORCON? – usando índices para dar informações meteorológicas



Feito com o CANVA

Sei que muitos brasileiros gostam de acompanhar notícias e outras informações sobre tornados, mesmo que não vivam em áreas sujeitas a esse fenômeno. Se eu bem me lembro, o filme Twister fez bastante sucesso por aqui e esse talvez seja um dos motivos desse amor por tornados. Sempre lembro do querido @mserrano, que adora o assunto.

TORCON é um termo técnico que vem sendo bastante empregado quando o assunto é tornado. O termo é bastante utilizado no The Weather Channel.  Mas afinal, o que é TORCON?

TORCON vem de Tornado Condition e trata-se de um índice calculado a partir de parâmetros da previsão do tempo e de observação meteorológica. Esse índice é utilizado para saber qual a possibilidade de um tornado se formar em um raio de 50 milhas (80km) da área de interesse. O índice é uma escala que vai de 1 a 10, sendo 1 para “pouco risco de formação de tornado” e 10 para “risco altíssimo de formação de tornado” e trata-se de uma porcentagem.  Por exemplo, se em uma determinada localização o TORCON é 3, isso significa que há 30% de chances de formação de tornados em um raio de 50 milhas (80km) ao seu redor.

Pelo o que concluí pesquisando sobre o índice TORCON, ele foi desenvolvido especialmente para o The Weather Channel. O desenvolvedor desse índice foi o meteorologista Dr. Greg Forbes {x}. O uso de índices ajuda na comunicação meteorológica e é uma maneira de estimar a magnitude de algum fenômeno e no caso do TORCON, ajudam a estimar e comunicar sobre as chances de desenvolvimento de tornados em certas áreas. Ao longo do texto, vou falar sobre outros índices meteorológicos.

A mídia já começou a falar bastante sobre tornados porque o período entre março e junho é considerado como a “temporada de tornados” nos Estados Unidos, já que esse fenômeno costuma acontecer com maior frequência nesse período, embora tornados já tenham sido registrados em todos os meses do ano naquele país.  Já em 2018, entre janeiro e março, foram registrados alguns tornados nos EUA, porém ainda nenhum de categoria 4 ou 5  na Escala Fujita (valores mais altos da escala, relacionados com tornados mais destrutivos).

Se eu não falar muito sobre tornados aqui no blog, certamente falarei alguma coisa a respeito no Twitter.

O gráfico abaixo foi feito com dados da NOAA  e apresenta o cálculo de médias diárias da contagem de tornados do período de 2005 a 2015 para todo território norte-americano (barras pretas) e podemos observar que há maior ocorrência de tornados entre os meses de março e junho (conforme discutimos anteriormente no texto), pois é o período em que há maior concentração dessas barras. A linha preta mostra a contagem anual média de tornados e a linha vermelha mostra a contagem preliminar para 2018 (feita até meados de fevereiro/2018), indicando que até o momento esse ano não está muito ativo.

O gráfico foi feito com dados da NOAA. Foram calculadas médias diárias da contagem de tornados do período de 2005 a 2015 para todo território norte-americano (barras pretas) e podemos observar que há maior ocorrência de tornados entre os meses de março e junho (conforme discutimos anteriormente no texto), pois é o período em que há maior concentração dessas barras. A linha preta mostra a contagem anual média de tornados e a linha vermelha mostra a contagem preliminar para 2018 (feita até meados de fevereiro/2018), indicando que até agora esse ano não está muito ativo.  Fonte: NOAA/US Tornadoes

Resumo do TORCON

De acordo com o site Weather.com, o TORCON pode ser resumido em:

8 ou mais – Altíssima probabilidade de tornado
6 –  Alta probabilidade de tornado
4 –  Chances moderadas de tornado nas proximidades (lembre-se, raio de 50 milhas ou 80km), porém pode ocorrer granizo e rajadas de vento (tempestade severa).
2 –  Baixa probablidade de tornado, porém pode ocorrer granizo e rajadas de vento (tempestade severa).
0 –  Chances muito baixas da ocorrência de tornados ou tempestade severa.

Outros índices

O uso de índices é muito comum na comunicação meteorológica. Antes de mais nada, vamos esmiuçar o conceito de índice:

Índice (do latim índex, que significa “o que indica”) é um indício ou um sinal de algo. Pode tratar-se da expressão numérica da relação entre duas quantidades ou de diferentes tipos de indicadores. Exemplos: “O Governo não respeita os novos índices econômicos”, “O índice demográfico preocupa as autoridades, que receiam que a aldeia possa ficar vazia nos próximos cinco anos”, “Os lugares esgotados em todas as salas de teatro são o melhor índice da recuperação do consumo”. {x}

Muitos pensam em índice como apenas no índice de livro, onde encontramos as páginas para os assuntos que temos interesse. Mas aqui utilizamos o termo índice para se referir a uma relação entre quantidades para chegarmos a um indicador, um número que vai sintetizar a informação e ajudar na melhor comunicação de algum aspecto ou fenômeno.

No começo do post eu falei do TORCON, mas provavelmente muitos de vocês já devem ter ouvido falar do IUV (Índice Ultravioleta). Comentei aqui no blog a respeito do IUV em algumas ocasiões:

Não deixem de clicar nos links acima para aprender mais sobre radiação ultravioleta e sobre o IUV. Abaixo, uma tabela que resume o significado dos números e da escala de cores do IUV:

Provavelmente o IUV é o índice meteorológico mais conhecido. Além do IUV e do TORCON que são de conhecimento do público, os meteorologistas usam outros índices em conversas técnicas, em reuniões entre meteorologistas para analisarem a previsão do tempo, por exemplo.

Um desses índices mais “técnicos” mais famoso é o CAPE (Convective Avaiable Potential Energy – Energia Potencial Disponível para Convecção). O CAPE é a medida do total de energia disponível para convecção e está está diretamente relacionado à máxima velocidade vertical potencial dentro de uma corrente ascendente de ar. Assim, valores mais altos de CAPE indicam maior potencial para tempo severo (tempestades).

O CAPE é calculado a partir de informações de radiossondagem, que é basicamente um balão que sobe na atmosfera carregando sensores de temperatura, umidade, pressão e vento. Em outras palavras, uma radiossonda traça um perfil vertical de temperatura e umidade na atmosfera e essas informações possibilitam o cálculo do CAPE.

Em tempestades, o CAPE frequentemente excede 1000 J/kg (Joules por quilograma) e em tempestades severas podem exceder até 5000 J/kg {x}. Claro que os meteorologistas não utilizam apenas o CAPE para estimar a probabilidade de ocorrência de uma tempestade. Além do CAPE, temos também o Índice de Levantamento (Lifted Index – LI), que é uma maneira de verificar a estabilidade da atmosfera.

O LI é uma medida da estabilidade/instabilidade da atmosfera e os meteorologistas o usam para determinar o potencial de ocorrência de tempestade. Ele não prevê com exatidão a intensidade de cada tempestade, mas é uma ferramenta útil para estimar o potencial da atmosfera em produzir tempestades severas em um determinado instante.

“Parcelas” (ou bolhas) de ar começam a subir se forem mais quentes que o ar circundante. Esse processo é chamado de convecção. Considere uma parcela de ar quando ela começa a subir pela atmosfera depois de ser aquecida pela superfície da Terra (que evidentemente foi aquecida pelos raios solares, a medida que a superfície foi absorvendo a radiação solar). O LI é definido como a temperatura de uma parcela ascendente quando atinge o nível de 500 milibares ou 500 hPa (a cerca de 5.500m ou 18.000 pés de altitude) subtraído da temperatura real do ar ambiente a 500 milibares. Se o LI for um número negativo grande, então a parcela de ar será muito mais quente do que o seu entorno e continuará a subir. As tempestades são alimentadas por parcelas de ar que vão subindo constantemente, dessa maneira o LI é uma boa ferramenta para medir o potencial da atmosfera em produzir tempestades severas.

Claro que LI e CAPE não são as únicas ferramentas para se determinar se um local tem chances de desenvolvimento de tempestades. A previsão numérica do tempo (modelos meteorológicos) e a observação contínua das condições meteorológicas ao lado do cálculo do CAPE e do LI ajudam no processo de previsão do tempo a curtíssimo prazo (nowcasting). Os meteorologistas possuem essas e outras ferramentas e elas são verificadas diariamente, além de serem utilizadas em conjunto.

Outros índices

Vocês observaram que mencionei 2 categorias de índices:

  • O CAPE, LI e TORCON estão relacionados com tempo severo e estão relacionados com o nowcasting, que é a previsão do tempo a curtíssimo prazo. O TORCON por exemplo pode ajudar a evacuar uma área sujeita a tornados e assim evitar tragédias. Lembrando que tornados são fenômenos de pequena escala (são “pequenos” e duram pouco tempo) e isso quer dizer que agir rápido faz toda a diferença para salvar vidas.
  • O IUV é um índice relacionado com a radiação solar, mas especificamente com a parte ultravioleta do espectro eletromagnético. Esse índice tem mais relação com assuntos de saúde pública, uma vez que a exposição inadequada ao sol pode provocar câncer de pele, problemas oculares e envelhecimento precoce. Eu falei sobre essa questão de saúde pública nesse post.

E já que estamos falando de saúde pública, existem índices relacionados ao assunto conforto térmico e eu falei sobre esses índices nesse post.

Geralmente quando falamos de conforto térmico, estamos falando de frio, de desconforto relacionado ao frio. Pessoas morrem de frio não apenas nas áreas onde o inverno é mais rigoroso. Aqui mesmo no Brasil há casos de moradores de rua que morrem de frio. Passar uma madrugada fria ao relento, muitas vezes com a saúde já prejudicada, pode realmente causar morte por hipotermia.

Existe também o índice de calor, que ajuda a dar uma ideia sobre o desconforto diante de temperaturas elevadas. Ondas de calor intenso podem matar pessoas, principalmente idosos.  E dentro do contexto de mudanças climáticas que estamos vivendo, há grande probabilidade de termos ondas de calor cada vez mais intensas e mortais no futuro. Eu falei sobre índice de calor nesse post,  depois que a Catia Braga me deu umas dicas sobre o assunto.

Sobre índices relacionados ao conforto térmico ou ao calor, vários pesquisadores desenvolveram índices calculados de maneiras distintas. Cada índice é focado em alguma particularidade e visa ajudar a estudar e resolver algum problema. Por exemplo, pesquisadores da área de agrometeorologia podem criar índices de conforto térmico para animais de produção ou para cultivos e pesquisadores da área de biometeorologia podem focar na saúde de idosos (por exemplo).

E mesmo com relação aos índices relacionados com tempo severo, o CAPE, o LI e o TORCON não são os únicos. Pesquisadores podem criar outros índices levando em conta as características da região que estão estudando. Por exemplo, um pesquisador focado no desenvolvimento de tempestades em áreas costeiras tropicais pode criar um índice levando em conta as características desse ambiente. O desenvolvimento de um índice é algo que depende da existência de muitos dados meteorológicos (de superfície e de altitude) e é um trabalho essencialmente empírico.

Eu trabalhei em uma empresa privada de consultoria em Meteorologia que desenvolveu o Índice Chapinha. Infelizmente não encontrei mais nada sobre esse índice, mas na época que eu trabalhava nessa empresa (em 2008), o índice tinha acabado de ser criado e seu objetivo era relacionar a umidade atmosférica e a temperatura para ver se era viável fazer ou não uma escova/chapinha nos cabelos. Eu achei a ideia genial e muito curiosa, uma iniciativa para deixar a meteorologia divertida. Esse exemplo do Índice Chapinha é para mostrar que podemos criar índices variados e que apesar de curiosos, eles devem ter fundamento científico e devem auxiliar na comunicação meteorológica.

Dica de livro

O Meteorópole é afiliado da Oficina de Textos, uma editora séria que reconhecidamente conta com livros de qualidade e em português dentro de diversas áreas do conhecimento. Um livro super recomendado para quem está iniciando seus estudos em Meteorologia é Meteorologia: noções básicas, que conta com um time de autores excelentes (Rita Yuri Ynoue, Michelle S. Reboita, Tércio Ambrizzi, Gyrlene A. M. da Silva), todos professores de cursos de Meteorologia de diversas regiões do Brasil.

Hoje, o jornal em qualquer mídia apresenta e explica a dinâmica meteorológica. Embora façam parte de um sistema complexo, os fenômenos meteorológicos são apresentados nesta obra de forma simples e didática, desde os conceitos básicos de composição e estrutura da atmosfera até a previsão do tempo e do clima e as mudanças climáticas. {x}

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Bibliografia

Leia mais sobre tornados em: