Série sobre o Aquecimento Global – Episódio 3



Cortesia de Pixabay

Vamos dar continuidade a série sobre Aquecimento Global. O objetivo da série é falar sobre o assunto de maneira geral, para ser um ponto de partida para aqueles que estão pesquisando sobre o assunto. Não deixem de conferir os links e referências de cada um dos episódios.

Antes de ler o terceiro episódio da série (ou seja, o presente texto), vejam os dois primeiros episódios:

Essa série nasceu a partir de notas que escrevi para participar do episódio 5 do podcast Teolabcast. Percebi que eu tinha escrito muita coisa em meu commonplace book  e cheguei a conclusão que eu poderia escrever posts a partir dessas notas.

Ah sim, confiram todos os episódios do Teolabcast, são muito enriquecedores. No episódio mais recente que ouvi, foi discutido o tabu que é falar sobre  saúde mental no meio cristão. O Leo e o Cedric falam sobre ciência e espiritualidade, porém evidentemente dando a correta importância para cada um desses assuntos, sem fazer nenhum tipo de “mistura” nociva.

Sem mais delongas, vamos ao nosso terceiro episódio, em que vamos fazer um panorama das emissões de gases de efeito estufa, mostrando quais os setores econômicos são os mais responsáveis pelas emissões e quais países mais emitem. Os dados utilizados ao longo desse post foram os publicados pelo IPCC e pela EPA e os links serão apresentados ao longo do texto.

Feito com o Canva

 

Emissões de acordo com o tipo de gás

O CO2 não é o único gás de efeito estufa, mas como veremos adiante, é o emitido em maior quantidade, por isso é o mais mencionado nas discussões sobre aquecimento global. Conforme discutimos no episódio 1 da série, um gás de efeito estufa é aquele que tem capacidade de absorver e re-emitir radiação infravermelha (calor). Essa capacidade permite com que o calor fique aprisionado na atmosfera terrestre.

A Figura 1 aponta os totais (em porcentagem) dos gases estufa emitidos, através de um levantamento feito em 2010 pelo IPCC (contribuição do Grupo de Trabalho III do Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change). Podemos observar que o CO2 é o gás de efeito estufa mais emitido (76% das emissões). E reparem que no gráfico da Figura 1 a emissão de COainda está “separada” em duas situações:

  • as emissões de CO2 através da queima de de combustíveis fósseis e processos industriais: 65% do total, na cor azul;
  • as emissões  de CO2 relacionadas com a mudança de uso de solo (queimadas, desmatamento, mudança de uso do solo): 11% do total, na cor verde.

A Figura 1 ainda destaca os outros gases de efeito estufa. Vamos falar um pouco sobre cada um desses gases:

  • Dióxido de Carbono (CO2):  a principal fonte de CO2 antropogênico é a queima de combustíveis fósseis. Porém através do desmatamento e da mudança do uso do solo para transformá-lo em pastagem, por exemplo, também temos emissão indireta de CO2. O processo de reflorestamento também é uma forma de “sequestrar” o CO2, ou seja, removê-lo da atmosfera.
  • Metano (CH4): agropecuária, aterros sanitários e queima de biomassa são bons exemplos de fontes de metano.
  • Óxido Nitroso (N2O): atividades agrícolas (uso de fertilizantes) e queima de combustíveis fósseis são as principais fontes de óxido nitroso.
  • Gases fluorados (F-gases): processos industriais e refrigeração são as principais fontes desse grupo de gases, que incluem os hidrofluorocarbonos (HFCs), perfluorocarbonos (PFCs) e hexafluoreto de enxofre (SF6).

 

Figura 1: Gases de efeito estufa e suas porcentagens de emissão. Fonte: EPA/IPCC

 

Emissões por setor econômico

A Figura 2 mostra as emissões por setor econômico e os dados utilizados foram publicados nesse relatório de 2014 do IPCC. Observe que a produção de eletricidade e aquecimento e a mudança do uso do solo juntas correspondem a 49% das emissões (Figura 2). Esse dado é importante para compreendermos que precisamos diversificar nossa forma de produzir energia elétrica, usando fontes alternativas e renováveis como por exemplo energia eólica e energia solar. Além disso, é preciso também pensar em construções mais eficazes do ponto de vista de conforto térmico e em equipamentos elétricos mais econômicos.

 

 

Figura 2: Emissão de gases de efeito estufa por setor econômico. Fonte: EPA/IPCC

 

Os países mais emissores de gases de efeito estufa

A China é o país responsável por 30% das emissões globais (Figura 3). É o país mais populoso do planeta e além disso, é um país que exporta muitos produtos industrializados. Ou seja, a indústria é uma importante fonte de emissões naquele país. A maior parte das emissões chinesas é devido a queima de combustíveis fósseis para gerar energia elétrica.

Além da China, outro país que se destaca na lista de emissões  é os EUA, que são responsáveis por 16% das emissões globais. No entanto, os EUA possuem apenas 4% do total da população mundial, o que sempre faz suscitar a seguinte pergunta em discussões sobre mudanças climáticas: o que seria do planeta se todos decidissem consumir como os norte-americanos? Sem dúvida, seria uma catástrofe. E se formos pensar na influência cultural que os EUA exercem em vários países em desenvolvimento, certamente muitas pessoas em outros países almejam consumir da mesma maneira.

Figura 3: Emissões de CO2 por país através da queima de combustíveis fósseis e alguns processos industriais. Fonte: EPA/Boden, T.A., Marland, G., and Andres, R.J. (2017). National CO2 Emissions from Fossil-Fuel Burning, Cement Manufacture, and Gas Flaring: 1751-2014, Carbon Dioxide Information Analysis Center, Oak Ridge National Laboratory, U.S. Department of Energy, doi 10.3334/CDIAC/00001_V2017.

Se formos levar em conta as emissões per capita (por indivíduo), temos o mapa da Figura 4 e é evidente que os Estados Unidos estão em destaque. Outro destaque também são para os países exploradores de petróleo do Oriente Médio. A China tem tantos habitantes (1/6 da população mundial aproximadamente) que ao fazer essa divisão per capita, ela nem fica em destaque no mapa. Para ver os dados do mapa da Figura 4, veja este link.

Figura 4. Emissões de CO2 per capita (dados de 2000). Fonte: Wikimedia Commons / US Department of Energy’s Carbon Dioxide Information Analysis Center (CDIAC)

 

A responsabilidade de cada nação, a responsabilidade de cada um 

Esses dados permitem com que cada setor econômico e cada país reveja suas atividades e pensem em maneiras de reduzir as emissões. E é por isso que o Acordo de Paris é tão importante e já foi discutido aqui no blog algumas vezes:

Acredito que mesmo como indivíduos, esses dados nos permitem pensar em nossas atividades diárias e sobre como elas impactam no clima. Um exemplo cotidiano são os meios de transporte, que são grandes emissores de gases de efeito estufa. Preferir fazer trajetos usando transporte coletivo e cobrar por transporte público de qualidade em sua cidade é uma maneira de contribuir com o ambiente. Empresas (independentemente de seu porte) podem por exemplo utilizar preferencialmente videoconferências no lugar de reuniões presenciais, que exigem que os funcionários façam longos deslocamentos.

O metano (CH4) é um importante gás de efeito estufa e embora seja emitido em menos quantidade que o CO2 (Figura 1), ele tem um potencial de aquecimento global (global warming potential – GWP) maior, indicando  que ele tem mais poder de aprisionamento de calor na atmosfera que o CO2. O metano é emitido em grande quantidade através da agropecuária, atividade econômica muito importante no Brasil. Muitas pessoas decidem ser vegetarianas ou ao menos decidem reduzir o consumo de carne como uma maneira de tentar reduzir sua pegada de carbono. São muitas as razões que fazem alguém tornar-se vegetariano, claro, mas eu tenho percebido (evidência anedótica aqui!) que mais e mais pessoas estão se preocupando com o consumo exagerado de carne e no impacto da agropecuária no clima.

Claro que são questões que envolvem decisões individuais e nada deve ser imposto a ninguém, porém compartilhar dados e informações sobre nossa interferência no ambiente é muito importante para que cada um tome suas próprias decisões.

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