Baixa auto-estima intelectual e minhas reflexões sobre isso



Meu objetivo nesse post é estimular a reflexão. Sei que muitos educadores leem meu conteúdo e talvez estejam observando o problema de baixa auto-estima intelectual em seus alunos. Vamos refletir e vamos tentar ajudar!

Cortesia de Pixabay

Eu estava assistindo esse vídeo da Alexandrismos com a participação da Luci Gonçalves e aprendi um termo interessante: a baixa auto-estima intelectual. Foi a primeira vez que tive contato com esse termo que designa algo que vi e vivenciei muitas vezes ao longo de minha vida.

A propósito, acompanhem o canal da Alexandra (Alexandrismos) e o da Luci Gonçalves. São canais excelentes!

Há algum tempo escrevi esse texto sobre Síndrome de Impostor e eu diria que até certo ponto ela é um sintoma de uma baixa auto-estima intelectual. Mas a baixa auto-estima intelectual me pareceu ser algo ainda mais profundo que a Síndrome do impostor. Mencionando um trecho de uma definição da Fernanda Coelho:

(…) É achar que nunca vai conseguir manter uma conversa mais complexa com alguém instruído. É ser explosiva toda vez que pensa que uma pessoa está tentando te humilhar. É suar frio quando alguém vai ler um texto seu. (…)

Quando você sofre da síndrome do impostor, você acha que não é merecedora de todas as suas conquistas (convites para entrevistas, obtenção de títulos, reconhecimento acadêmico e social em geral, etc). Você realmente se considera um embuste, mesmo que todas as evidências mostrem exatamente o contrário. Isso pode ser um sintoma de baixa auto-estima intelectual, mas eu acredito que mesmo quem viveu em ambientes favoráveis pode desenvolver a Síndrome de Impostor. Já a baixa auto-estima intelectual parece ter uma relação com preconceito.

Quem sofre de baixa auto-estima intelectual muitas vezes é aquela pessoa que ouviu a infância inteira que não era muito brilhante. Foi aquela criança que logo cedo foi rotulada como burra ou incapaz. Além disso, eu observo que a baixa auto-estima intelectual também parece ter uma raiz socioeconômica bem definida. Por você ser pobre e ter nascido e crescido em um determinado local, as pessoas te julgam como incapaz porque já há um preconceito com relação ao seu perfil. E em um caso desses, não é somente sua capacidade intelectual que é julgada. Quem nunca ouviu comentários horríveis que se referem à pessoas de um determinado bairro, cidade ou país como “pessoas feias” ou “pessoas sujas”? Muitas vezes quem faz esse tipo de comentário horrível não tem nem vergonha de esconder sua opinião e a declara em redes sociais ou em alto e bom som em ambientes públicos. E claro, ouvir isso faz mal e vai gradualmente minando a auto-estima de quem nasceu e cresceu nesses lugares não-privilegiados.

Fico sempre pensando em uma criança que vive em um local que possui esse estigma (uma cidade afastada, um bairro periférico ou uma favela). Passa a vida inteira ouvindo que daquele lugar não sai “nada de bom”. Naturalmente a auto-estima dessa criança vai sendo destruída ao longo de toda infância e até chegar na vida adulta.

Em um de meus filmes favoritos,  Million Dollar Baby (2004), há uma cena em que o narrador apresenta a personagem principal, Maggie Fitzgerald (interpretada pela maravilhosa Hillary Swank, que inclusive ganhou seu segundo Oscar de melhor atriz por essa personagem). Ao apresentar Maggie Fitzgerald, é mencionado o que era falado sobre quem vinha da região de onde ela veio:

She came from southwestern Missouri…
… the hills outside the scratch-ass
Ozark town of Theodosia…
… set in the cedars and oak trees
somewhere between nowhere and goodbye.
She grew up knowing one thing:
She was trash.

[a parte em negrito: “… em algum lugar entre lugar nenhum e adeus. Ela cresceu sabendo de uma coisa: ela era lixo”]

Ou seja, não esperavam que nada de bom viesse do lugar de onde ela veio e consequentemente ninguém acreditava que ela poderia se destacar em algo positivo. E claro, no filme ela vence todos os obstáculos. Mas a gente sabe, na vida real não é tão simples assim. Para cada jovem que consegue sair da favela para estudar em uma Universidade, há muitos outros que são engolidos pela marginalização. O jovem da favela que consegue uma formação universitária é minoria. Claro que ele é exemplo e certamente motivará outros jovens, mas é preciso deixar claro que infelizmente ele é exceção. Vender seu caso de sucesso como “olha, se você se esforçar bastante você também consegue” é muito cruel. Claro que o esforço individual faz muita diferença, mas se esforçar em meio a um ambiente de miséria, criminalidade, pobreza e famílias destruídas é como nadar contra a corrente. É extremamente difícil e a Luci dá bons exemplos disso (ao falar de sua vivência) no vídeo que mencionei no início.

Ter autoestima significa pensar em si mesmo como uma pessoa igual às outras, com virtudes e defeitos, sem pensar que é melhor nem pior, mas sim única e diferente {x}.

Parece simples vender esse discurso da auto-estima, mas fica muito difícil convencer um jovem periférico a ter auto-estima quando a própria sociedade o empurra de volta para a periferia, evitando que ele participe da vida na sociedade. Em outras palavras, fica difícil ter a auto-estima elevada quando você não se sente bem-vindo nos lugares e não é tratado como um igual. Já ouvi muitas vezes histórias de pessoas arrogantes em aeroportos mencionando que “agora o aeroporto é mal frequentado” ou “agora o aeroporto parece uma rodoviária”, numa tentativa de querer dizer que certo perfil de pessoas não é bem-vindo em um aeroporto. Essas histórias de aeroporto são apenas um exemplo dessa crueldade e há histórias semelhantes em várias situações: a história de que o “metrô no bairro atrairia gente diferenciada” é outro clássico exemplo do que quero dizer.

Claro que devemos sempre nos esforçar e muitas vezes o diferencial para conquistar um objetivo é o esforço pessoal. Não quero aqui eliminar isso da equação e eu sempre gosto de incentivar as pessoas a fazerem o melhor que elas podem. Mas a gente tem que entender que esse discurso do esforço pessoal tem um limite muito claro, já que se esforçar diante de tantos obstáculos contrários ao seus objetivos é muito difícil e até frustrante.

Vamos considerar duas pessoas jovens muito esforçadas, que realmente se dedicam aos estudos. As duas tem capacidade intelectual semelhante, os dois tem famílias bem estruturadas. Só que uma dessas pessoas viveu a vida toda em um bairro de classe média alta e estudou no melhor colégio de São Paulo. A outra pessoa morou na periferia a vida toda e estudou na escola pública do bairro, onde faltavam professores de diversas matérias e ela precisou estudar muito conteúdo por conta própria. Quem terá mais chances de ser aprovado em um vestibular de medicina? A resposta é bem óbvia. Não estou desencorajando a pessoa da periferia, acho mesmo que ela tem que tentar com todas as forças porque estudar é a melhor maneira de mudar sua vida. Porém para ela o caminho será muito mais difícil.

Observem que eu não estou usando nenhuma definição da Psicologia ao longo do texto. Estou falando de vivência nesse post e se você for psicólogo e quiser  acrescentar algo nos comentários, mencionando por exemplo alguma pesquisa que tem relação com essas questões de auto-estima, fique a vontade e ajude nessa rede de conhecimento.