Teoria da Catástrofe de Toba



Detalhe da região do Lago Toba, na Indonésia. Hoje, um destino turístico. Há uns 80 mil anos atrás, palco de uma catástrofe. Cortesia de Pixabay

A supererupção vulcânica Toba não é um assunto novo aqui no blog. Em 2013, escrevi um post sobre o assunto. Só que eu percebi que eu precisava reescrever esse post e falar novamente sobre esse assunto, destacando mais material bibliográfico sobre o tema com os quais tive contato nos últimos anos. Entretanto, não deixem de ler o post de 2013! 

Meu primeiro contato com o assunto foi há uns 12 anos aproximadamente, quando o  Prof. Dr. Fábio L.T. Gonçalves, especialista na área de biometeorologia e professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do IAG-USP falou sobre o assunto em uma palestra. Ele mencionava o a Teoria da Catástrofe de Toba que teria sido responsável por um efeito gargalo populacional na espécie humana. A supererupção vulcânica Toba (que ocorreu de  70 mil a 80 mil anos) teria provocado um inverno vulcânico, o que levou a uma escassez de comida e que teria consequentemente matado muitos seres humanos. De acordo com a Teoria da Catástrofe Toba, teriam sobrado apenas de 1000 a 10000 pares de seres humanos e toda a população humana existente hoje seria descendente desses poucos casais. Em outras palavras, a humanidade quase viu a sua extinção há cerca de 70 mil – 80 mil anos atrás.

Em 1993, a jornalista científica Ann Gibbons postulou que um gargalo populacional ocorreu na evolução humana há cerca de 70.000 anos, e ela sugeriu que isso foi causado pelo evento Toba. O biólogo Michael R. Rampino da New York University e o vulcanologista Stephen Self da University of Hawaii apoiam sua sugestão. {x} O efeito gargalo pode acontecer em qualquer espécie, e é quando uma quantidade significativa de indivíduos de uma mesma espécie morre ou é impedido de se reproduzir {x}.

Vejam a imagem que abre a postagem. Esse lugar lindo é o Lago Toba, na Ilha de Sumatra, na Indonésia. Hoje atrai muitos turistas, mas há cerca de 70 mil – 80 mil anos foi o palco de um grande evento: foi a maior erupção vulcânica dos últimos 25 milhões de anos.

Veja abaixo a localização do Lago Toba:

Bill Rose e Craig Chesner, da Michigan Technological University, estimaram que a quantidade total de material liberado na erupção foi de cerca de 2800 km³ – cerca de 2000 km³ de ignimbrito (rocha piroclástica) que fluíam sobre o solo e aproximadamente 800 km³ que caíram como cinzas principalmente a oeste do vulcão. Outras estimativas chegam a 3200 km³ de material liberado.

O material piroclástico destruiu uma área de cerca de 20000 km² e os depósitos de cinzas vulcânicas ficaram tão espessos quanto 600m de espessura algumas áreas. Em um local na Índia central, a camada de cinzas do Toba hoje é de até 6m de espessura.

A erupção gerou um colapso na região e formou-se uma caldeira que se encheu de água, criando o que podemos ver nos dias de hoje – o Lago Toba.

Se algum geólogo chegar até esse post e ver alguma inconsistência nas definições ou nas informações, não deixe de me informar nos comentários! O objetivo principal aqui é falar do inverno vulcânico que sucedeu-se após a supererupção e para isso tive que fazer essa introdução. Pesquisei bastante, mas como não é minha área, algum erro de definição pode ter passado.

O inverno vulcânico

Nessa parte do texto, vou mencionar algumas coisas que escrevi em meu texto de 2013 sobre o assunto.

Em nosso planeta, ciclos naturais de resfriamento (temperaturas médias mais baixas) e de aquecimento (temperaturas médias mais altas) são normais. Esses ciclos podem ser causados por diferenças na atividade das manchas solares e principalmente pelos ciclos de Milankovitch. Os ciclos de Milankovitch compõe a teoria mais aceita hoje em dia para explicar as eras glaciais, já que eles são responsáveis por um aumento ou diminuição significativos na quantidade de radiação solar que chega na Terra. Para vocês terem uma ideia, a inclinação do eixo Terrestre com relação a eclíptica pode variar de 22,1°C até 24,5°C, dependendo da fase do ciclo. Atualmente, o eixo está com uma inclinação de aproximadamente 23,5°C. Quanto menor a inclinação, menor a faixa tropical do planeta.

O que estamos vivendo nos dias de hoje, é algo sem precedentes: a temperatura média da superfície da Terra está em elevação devido a atividades antropogênicas (emissões de gases de efeito estufa) e eu falo sobre tudo isso nesse post recente e em minha série sobre o Aquecimento Global. É preciso deixar isso muito claro porque não quero que esse post seja mencionado por negacionistas do Aquecimento Global.

Os especialistas acreditam que há 70 mil anos, o planeta Terra estava vivendo uma fase de resfriamento e então a explosão do vulcão Toba (e chamam de explosão e não e erupção porque o vulcão já era, ele não existe mais, realmente explodiu) deu uma grande ajuda para a redução da temperatura média global.

Devido a supererupção do Toba, a temperatura média do planeta pode ter caído 3°C a 5°C, mas essa faixa de valores não é um consenso científico.  Oppenheimer (2002), por exemplo, fez algumas análises de dados e acredita que a redução de temperatura deve ter sido apenas 1°C. O que é consenso na comunidade científica é que erupções vulcânicas em geral emitem muitas cinzas vulcânicas que obscurecem o céu e fazem com que parte da radiação solar não chegue na superfície da Terra. Dessa maneira, o balanço de radiação é prejudicado uma vez que a superfície da Terra não consegue absorver radiação solar e então aquecer a atmosfera. O grande desafio é quantificar a redução de temperatura e esse desafio é ainda maior porque estamos falando de um evento que aconteceu há mais de 70mil anos.

Para saber mais sobre vulcanismo e redução da temperatura planetária, leia o post “O ano sem verão”.

De acordo com a hipótese do efeito gargalo populacional, o frio intenso provocado pela explosão do vulcão Toba pode ter sido responsável pela redução do número de habitantes de nosso planeta. A maioria das estimativas diz que restaram menos de 10.000 indivíduos. Algumas estimativas mais dramáticas falam que restaram menos de 3000 seres humanos. Se essas estimativas estiverem corretas, significa que os mais de 7 bilhões de habitantes do planeta são descendentes destes 10.000 indivíduos, que sobreviveram condições extremamente adversas.

Saber esse fato (de que todos nós podemos ser descendentes de apenas 10000 indivíduos) deveria servir para unir a humanidade. Todos nós somos primos, somos feitos dos mesmos blocos de construção.

Se essas teorias sobre o efeito gargalo provocado pelo Toba estiverem corretas, tivemos um desastre ecológico de grandes proporções, pois grande parte da vegetação do planeta teria perecido em decorrência do frio intenso. Sem vegetação em abundância, diversas espécies de outros mamíferos também teriam morrido.

Segundo os especialistas, a maioria dos sobreviventes humanos do Toba teriam vivido no continente africano, e depois migraram para outras partes do mundo. Análises do DNA mitocondrial mostram que uma grande migração partindo da África ocorreu entre 60.000 e 70.000 anos atrás, consistente com a época em que pode ter ocorrido a explosão do vulcão Toba.

Dicas de vídeos

Assistam o documentário Super Vulcões, do Discovery Channel, que fala sobre o vulcão Toba. O documentário fala também de de Yellowstone, do Monte Santa Helena e de outros vulcões que se entrassem em erupção, trariam impactos globais. Assista aqui.

Outra dica é um vídeo bem legal do Mateus, do blog Assombrado. No vídeo, o Mateus conta tudo o que descobriu em sua pesquisa sobre o tema, falando o que poderia acontecer se Yellowstone entrasse em erupção.

Bibliografia

Dicas de livros

Agora vou falar de um livro em português que é super recomendado para quem está iniciando seus estudos em Meteorologia. Meteorologia: noções básicas conta com um time de autores excelentes (Rita Yuri Ynoue, Michelle S. Reboita, Tércio Ambrizzi, Gyrlene A. M. da Silva), todos professores de cursos de Meteorologia de diversas regiões do Brasil.

Hoje, o jornal em qualquer mídia apresenta e explica a dinâmica meteorológica. Embora façam parte de um sistema complexo, os fenômenos meteorológicos são apresentados nesta obra de forma simples e didática, desde os conceitos básicos de composição e estrutura da atmosfera até a previsão do tempo e do clima e as mudanças climáticas. {x}

Vale muito a pena comprá-lo!

Outro livro muito interessante e dessa vez dentro do assunto vulcões é o Turismo de Aventura em Vulcões, da Rosaly Lopes.

Poucas viagens oferecem tão bem a oportunidade de unir em um só roteiro lazer e aventura, como a viagem a um vulcão. Turismo de Aventura em Vulcões demonstra que não apenas é possível, mas também muito empolgante visitar alguns vulcões ativos, e com segurança. {x}

É totalmente possível visitar alguns vulcões e eu felizmente tive essa oportunidade em 2013, quando pude conhecer o Vesúvio. Para se encantar mais sobre o assunto e planejar suas próximas férias, compre o livro e informe-se.