| | |

As sutilezas e contradições no trabalho

Dois casos recentes chamaram minha atenção e eu decidi escrever sobre eles. O primeiro trata de uma professora brasileira que atua em Portugal e viralizou por mostrar uma dinâmica com seus alunos em que os pequenos diziam o que acreditavam existir no Brasil. O segundo caso fala da funcionária de um banco que recebeu um presente inusitado de um cliente idoso, fato que aconteceu em uma cidade do interior de Minas Gerais. Nos dois casos, as mulheres foram demitidas.

Esses casos tem muito em comum. Temos duas mulheres que quiseram divulgar situações inusitadas em seus ambientes de trabalho que realçavam suas competências profissionais. A professora que tem um bom relacionamento com seus alunos e a funcionária do banco que tem um bom relacionamento com seus clientes. Quero usar os casos delas como exemplos porque suas histórias viralizaram. Muita gente faz postagens sobre suas relações dentro das empresas onde trabalham, com situações ainda mais polêmicas. Só que os casos das moças caíram nas graças da internet e viralizaram.

O Brasil é o terceiro país do mundo em uso de redes sociais. Uma rede social como o Linkedin, que é direcionada para o mercado de trabalho, atua como um gatilho para as pressões internas que já sentimos no contexto do capitalismo tardio. Queremos nos destacar no mercado de trabalho, mostrar que não somos somente mais uma engrenagem comum. O relógio de ponto torna-se desnecessário quando nós mesmas nos pressionamos a mostrar resultados o tempo todo.

Queremos mostrar resultados para nossos pares, para nossos familiares e para a sociedade como um todo. Vá lá e venda o seu peixe, é o que nos disseram. Eu escrevo nesse blog porque quero que as pessoas me leiam e eu quero visibilidade. Eu já fui hipócrita ao dizer que eu escrevia simplesmente porque gosto de escrever e desenvolver minhas ideias. Claro que há essa vontade intrínseca, mas é muito bom ser lida!

A funcionária do banco quis mostrar uma situação em seu trabalho que é relativamente comum no interior do Brasil, onde as pessoas dão presentes da roça em agradecimento. Só que ela é funcionária de um banco de médio porte, cuja sede fica em uma cidade grande e que responde aos interesses de seus investidores. Como toda empresa bem estruturada, possui políticas de compliance. Geralmente essas políticas apresentam padrões bem traçados de comportamento e ética de modo que aceitar presentes de clientes geralmente não é permitido, assim como postar imagens do ambiente de trabalho e de clientes sem as devidas autorizações.

Agora temos algumas sutilezas que tornam a questão mais complexa. O caso do banco aconteceu em uma cidade pequena onde muitos se conhecem e são aparentados. Esse senhor talvez conhecesse a família da moça. Esse senhor provavelmente não tem ideia do que é compliance. Ele quis ser gentil e recusar o seu presente poderia causar um mal estar.

O que fazer nesse caso? Ela poderia conversar com calma e explicar ao senhor que não poderia receber o presente? Ela poderia conversar com seus superiores? Realmente não sei. Eu não estava na situação da moça e é até covarde opinar de fora.

Porém eu tenho certeza de uma coisa: essa pressão que sentimos em querer postar tudo está nos prejudicando. Esquecemos que a informação postada pode facilmente sair de nosso controle, sair de nossa bolha e ser mal interpretada. Também foi o que certamente aconteceu com a professora brasileira.

Conversando com amigas e conhecidas que moram em Portugal, sei que ser mulher brasileira nesse país não é fácil. Somos alvo de preconceito duplo pela nossa nacionalidade e nosso gênero. Eu tenho certeza que a professora brasileira desse caso tem uma formação superior à média das professoras portuguesas, caso contrário não conseguiria esse emprego. Tenho certeza também que ela precisa cortar um dobrado todos os dias, sendo mais cobrada e mais vigiada que suas colegas portuguesas.

Ao postar o vídeo, a professora se esqueceu que os portugueses não são tão afeitos as redes sociais como os brasileiros. Certamente o fato incomodou os pais dos alunos, mesmo que as crianças estivessem com o rosto desfocado.

Nas escolas brasileiras, os pais preenchem um termo de consentimento que permite ou não que seus filhos tenham suas imagens vinculadas ao colégio. Não sei como funciona em Portugal e é provável que exista medida semelhante, mas quero dizer que mesmo no Brasil nós professores precisamos ter muito cuidado e deixar essa tarefa de postar informações da escola nas redes sociais para o profissional responsável por isso, que cuida das redes da escola. Esse profissional tem a responsabilidade de fazer a curadoria do que irá ser divulgado.

Mais uma vez: é fácil ser arquiteta de obra pronta. Eu poderia cometer qualquer um desses erros que essas mulheres cometeram. Dentro dessa obrigação tácita de postar tudo o tempo todo, mostrar resultado e buscar destaque, nos esquecemos desses detalhes mais básicos. Esquecemos de quem somos, do local onde estamos e das pressões externas.

Nem tudo o que viraliza nos beneficia. Na série de podcasts Além do Meme, Chico Felitti mostra casos de pessoas que viralizaram e não receberam nada em troca e algumas foram muito prejudicadas. Aquele rapaz do vídeo do bar-mitzvá, por exemplo, foi perseguido dentro de um shopping e recebeu ameaças. E no caso dessas duas moças que citei, elas perderam o emprego.

Para finalizar, desejo que essas duas moças se recuperem dos baques sofridos e que possam seguir com suas carreiras profissionais ainda mais fortes e corajosas. Espero que elas se recoloquem no mercado de trabalho e que no futuro tratem esses casos com a leveza de algo distante.

***

P.S.: Eu não consegui confirmação oficial, através de uma notícia, de que a funcionária do banco foi demitida. Eu soube por uma prima que também é bancária e sabia do caso e também vi a história da demissão sendo comentada em uma rede social da moça.

Posts Similares

Comente