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Tráfico humano: perigo quase silencioso

Tráfico humano é um assunto sério e com muitas camadas. Eu não tenho competência para falar sobre esse assunto, por isso convido meus leitores a conhecer o canal da Danny Boggione, brasileira que vive na Turquia e que por força dos relatos que ela recebe, acabou se especializando em diversas nuances desse assunto.

Quero apenas aproveitar esse assunto para fazer algumas considerações a respeito de acontecimentos recentes. Como eu disse, não tenho conhecimento suficiente para tratar desse assunto de maneira aprofundada, mas penso que algumas palavras que vou deixar aqui podem ser relevantes.

O primeiro acontecimento que quero destacar é a respeito dos jovens brasileiros que estão traficados em Myanmar desde outubro. Eles foram enganados com promessas de emprego no país vizinho, a Tailândia, que é um lugar belíssimo, destino turístico de pessoas do mundo todo. Já o Myanmar é uma ditadura, um país que não mantém boas relações diplomáticas com outros Estados e que nada faz para combater o tráfico humano (o governo parece ser até conivente). Esses rapazes foram enganados e agora estão encarcerados e sendo forçados a aplicar golpes online.

Só para vocês entenderem o que é Myanmar nesse cenário do tráfico humano. O mapa acima é elaborado com dados de 2006 do United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC). Os países nas cores em tons de azul são os países de destino de pessoas traficadas. Os países nas cores em tons de vermelho são os países de origem das pessoas traficadas. Na cor rosa, temos os países que são tanto origem quanto destino de tráfico humano. Para entender melhor a legenda e tirar dúvidas, consulte a fonte. O que quero destacar é que o Brasil é um país de origem de muitas vítimas (cor vermelha). Myanmar, no sul da China, aparece principalmente como país de origem de pessoas traficadas, como o Brasil. Só que os dados desse mapa são de 2006. Myanmar passou por um golpe militar durante a pandemia, as coisas mudaram muito e parece que o país se tornou um local de destino das pessoas traficadas.

Esses golpes de emprego falso existem desde antes da internet. Certa vez, um amigo meu saiu do interior e estava procurando emprego em São Paulo. Era recém-formado em um curso superior e queria se mudar para São Paulo para ficar com a namorada. Chegou em uma suposta agência de empregos, que lhe pediu 1000 reais (essa história tem uns 20 anos, só para vocês entenderem) para o cadastro. Esse amigo, que não é bobo, desconfiou quando a pessoa que o atendeu mal sabia o nome do curso que ele havia se formado. Ele conseguiu cair fora e não pagou nada.

No caso do que aconteceu com esse amigo, o prejuízo seria financeiro. Talvez também pudessem usar os dados de meu amigo para aplicar golpes, porque pediram cópias de vários documentos. Atualmente, os golpes de falso emprego são muito diversos e não obedecem fronteiras. Há desde influencers prometendo ganhos astronômicos se comprarem os cursos que eles vendem (que são cursos que ensinam a vender cursos) até empresas falsas que recrutam as pessoas pelas redes sociais. Em alguns desses recrutamentos, a perda é somente financeira. Em outros casos ocorrem crimes gravíssimos, como o tráfico humano.

As empresas não saem pescando pessoas através de mensagens aleatórias nas redes sociais. Geralmente, você se candidata para uma vaga de emprego em um serviço sério ou através da indicação de outro profissional e durante esse processo, deve procurar saber tudo sobre a idoneidade da empresa. O Serasa elaborou um guia para evitar cair no golpe do falso emprego, material que está escrito de forma muito simples e direta. Além dessas dicas, quando se trata de vagas internacionais, desconfie em dobro. Você tem uma formação que realmente se destaca? É fluente em inglês e/ou na língua nativa daquele país? Conhece a empresa ou pessoas idôneas que trabalham nela? Creio que nenhuma empresa internacional sai recrutando estrangeiros que tem apenas o ensino médio e falam um pouco de inglês, porque esse não é um perfil de destaque, quero dizer, eles acabam contratando uma pessoa nativa daquele país para aquela mesma função.

Por muitos anos, meu pai trabalhou em uma determinada empresa e uma de suas funções era ajeitar a documentação de estrangeiros que viriam fazer um trabalho temporário no Brasil. Esses estrangeiros eram engenheiros com uma formação extraordinária e com muita experiência e expertise em uma determinada área muito específica relacionada à componentes elétricos e eletrônicos. A função de meu pai era organizar muitos documentos e comprovantes sobre o gringo, provando que o cara era de fato muito bom para justificar a necessidade de sua presença no Brasil. Eu deduzo que seja assim também em outros países, pelo o que já conversei com amigos que moram no Canadá e na Europa.

Desconfie, sempre desconfie. Seja realista com sua formação e não acredite em ofertas perfeitas! Bom, espero que esses rapazes voltem para o Brasil em segurança, para junto de suas famílias e amigos, que é onde eles merecem estar.

A segunda história é de uma pastora que provavelmente foi vítima de tráfico humano, que felizmente está em segurança no momento. Ela foi recrutada pela internet, porque fazia lives orando para as pessoas. Em sua entrevista, ela menciona que no meio evangélico é comum que missionários e pastores recebam pedidos de visitas à igrejas, casas, instituições, etc. Eu sei bem do que ela está falando, já fui evangélica e conheço muitas pessoas que ainda são. Ocorre que muitos evangélicos, com a vontade de espalhar a palavra, acabam aceitando algumas coisas sem fazerem as devidas verificações.

Um parente meu uma vez me disse que gostaria de ser missionário na Turquia, fazendo o mesmo caminho do Apóstolo Paulo. Eu fiquei calada, mas fiquei pensando se essa pessoa sabe o que é a Turquia. Um país onde a maioria das pessoas é muçulmana, praticamente não há cristãos. Um país muito bonito e com cidades ótimas e organizadas, mas que possui uns lugares bem perigosos nas fronteiras. Não sei como esse parente imaginava que poderia ser recebido lá.

Também me lembrei de uma história de quase tráfico. Um conhecido uma vez recebeu um convite de um “colega de um colega” para participar de um suposto evento evangelístico em um país vizinho aqui da América do Sul com tudo pago. Imagine, ele um crente de periferia que viajaria de avião pela primeira vez! Quando ele chegou lá, percebeu que se tratava de uma seita. Conseguiu fugir de ônibus, deixando tudo para trás, pois os responsáveis pela seita não queriam que ninguém fosse embora.

Eu tenho a impressão que quando envolve religião, as possíveis vítimas já são pessoas mais crédulas que tendem a acreditar mais facilmente quando a historinha inventada envolve suas crenças e a possibilidade de ajudar ao próximo de alguma maneira. Quando parece bom demais, a gente precisa desconfiar. Só que se você é um religioso e desconfia, dizem que você não tem fé. Em outras palavras, me parece o cenário ideal para alguém ser vítima de um golpe.

Espero que a senhora entrevistada pela Danny Boggione fique bem e que sua história possa ser um alerta para outros. Para finalizar minhas pontuações e os “causos” que contei, acompanhe o conteúdo canal da Danny Boggione e compartilhe com pessoas que você acha que podem estar caindo em golpes.

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Atualização em 16/01/2025

São muitos os golpes pela internet e a maioria resulta em danos financeiros. Tenho certeza que é ponto pacífico dizer que os piores golpes são aqueles que resultam em danos emocionais e físicos.

Para complementar esse post, gostaria de deixar dois conteúdos recentes sobre o assunto:

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Atualização em 12/02/2025

Os rapazes (Luckas e Phelipe) que estavam sendo mantidos em cárcere no Myanmar, vítimas de tráfico humano, conseguiram fugir. Uma notícia maravilhosa, sem dúvidas. Esse vídeo do UOL explica tudo e o pai de um dos garotos foi ouvido pela reportagem, clamando para que o mundo olhe para a situação do Myanmar, um país tomado por milícias. Ele também alerta para ofertas fraudulentas de emprego, divulgadas em redes sociais, especialmente no Telegram. Eu diria para tomar cuidado com TODAS as ofertas de emprego (sejam oferecidas pelo Telegram, Linkedin, Facebook, Instagram, etc). São as tais vagas que aparecem “do nada”, com salários muito superiores ao que é normalmente ofertado para aquela vaga e nível de qualificação profissional.

Cuidado também com ofertas de “amigos” e até mesmo de familiares, faça uma boa pesquisa com bastante senso crítico antes de aceitar se deslocar para assumir vaga!

Como professora de Geografia, acredito que o tema tráfico humano pode ser tratado não apenas nessa disciplina (ao considerar as condições geopolítica dos lugares), mas principalmente de maneira interdisciplinar. Ensinar é a forma de armar as pessoas para que elas tomem boas decisões.

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