| |

Comentando a reportagem: 90% das estações do INMET têm mais de 10 anos e 5 capitais enfrentam problemas de medição

Eu há uns 8 anos, apresentando o abrigo meteorológico da EM-IAG-USP.

Recentemente, eu li uma reportagem e eu posso dar minha contribuição profissional sobre ela. O título da reportagem é: 90% das estações do INMET têm mais de 10 anos e 5 capitais enfrentam problemas de medição. Para entender o que pretendo discutir nesse post, aconselho a leitura da reportagem antes de ler meu texto. Sendo assim, abra uma aba, leia a reportagem e depois volte aqui no meu querido bloguinho.

A propósito, se você gosta desse conteúdo, se você visita meu blog regularmente, considere fazer uma contribuição via Paypal ou via pix, em samanthansm@gmail.com. Doe qualquer valor, já ajuda muito!

A reportagem está bem feita, percebo que houve um levantamento muito caprichoso e ao menos um especialista foi ouvido. O assunto é muito importante, pois mostra em números a dificuldade que temos no Brasil em termos de monitoramento da atmosfera. Eu falei um pouco disso para a UOL há mais de 10 anos, quando expliquei que poucos dados meteorológicos levam à uma previsão do tempo de menor qualidade.

Além de faltar estações, principalmente em locais distantes de grandes centros, muitas estações operantes apresentam falhas de funcionamento. Isso reflete em “buracos” na série de dados, que são quebras na sequência temporal. Recentemente venho trabalhando com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e a presença desses buracos tem me atrapalhado muito. Além disso, a presença desses buracos atrapalha no calculo das médias/normais climatológicas pois deixa os valores pouco confiáveis. Ora, se preciso de 30 anos de dados para realizar o cálculo e eu tenho ausência de dados de precipitação em meses chuvosos críticos, posso perder essa informação e minha média vai ficar mais baixa ou mais elevada do que foi a realidade. Embora seja uma boa aproximação da realidade (afinal de contas, são dados, mesmo que deficientes), eu vou me distanciar um pouco (ou muito) da realidade se eu tiver problemas na sequência temporal e na distribuição espacial desses dados.

Eu trabalhei 10 anos na Estação Meteorológica do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (EM-IAG-USP), uma estação que é diferente da maioria das estações meteorológicas do Brasil. Ela não faz parte da rede do INMET, embora forneça dados ao INMET regularmente e trata-se de uma estação convencional, que possui instrumentos registradores e medidores que dependem da ação humana para fazer a leitura desses instrumentos e troca de diagramas (papel onde o registro é feito). Essas estações convencionais são importantes, uma vez que esses instrumentos tradicionais são usados como referência para verificar o funcionamento de instrumentos eletrônicos (que fazem parte da estação automática).

Seja numa estação automática ou numa estação convencional, os instrumentos/sensores que vão fazer parte dela precisam seguir especificações mínimas de qualidade, expostas claramente no CIMO Guide, documento da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Todas as estações do mundo que são ligadas à um serviço meteorológico nacional precisam seguir essas especificações de qualidade. Em outras palavras, o INMET não pode comprar um termômetro digital em uma lojinha do bairro e instalá-lo. Eles precisam comprar sensores caros e mais duráveis, de empresas especializadas como Davis ou Vaisala, quando falamos de sensores eletrônicos de estações automáticas, que são a atual e irreversível tendência.

Ora, é muito mais barato manter uma estação automática, já que não precisa de funcionários trabalhando em escala de 12-18h por dia de maneira ininterrupta, como é na EM-IAG-USP. Isso não significa que a estação automática deve ficar ali abandonada apenas coletando dados. Esses dados precisam ser verificados para detectar problemas de funcionamento, inspeções regulares nos equipamentos devem ser realizadas e é importante termos redundância nas informações, isto é, ter em funcionamento pelo menos dois sensores que medem a mesma variável. Sensores esses que foram calibrados e consistidos, claro. Além disso, há um esforço necessário de processamento de dados e organização do banco de dados, sempre fazendo backups necessários, para que não se perca todo o histórico.

Uma coisa que a reportagem destaca e eu achei importante esclarecer que a estação em si (o lugar, o ponto onde ela está instalada) não se torna obsoleta. É importante manter aquele ponto de medição PRA SEMPRE (se possível), pois dessa forma conseguimos explicar melhor e quantitativamente o clima daquela região onde está instalada, registrando as mudanças ao longo das décadas. O que pode se tornar obsoleto são os equipamentos e isso não significa necessariamente IDADE dos instrumentos. Quando eu trabalhava lá na EM-IAG-USP (que tem quase 100 anos de operação), havia registradores convencionais com mais de 30 anos de funcionamento. Eles funcionavam muito bem e quando apresentavam alguma discrepância, isso era rapidamente verificado (porque há redundância nas medidas e temos como comparar) e as manutenções necessárias eram feitas. Tornar-se obsoleto, nesse caso, significa não fazer mais os registros adequadamente, porque o sensor parou de funcionar e ninguém percebeu.

O Brasil é um pais enorme e historicamente temos pouco investimento em ciência e tecnologia, de modo que falta dinheiro para comprar equipamentos e manter profissionais dedicados às estações. Além disso, há as dificuldades que as características do nosso território impõe. Temos uma diversidade de biomas e a temperatura e a umidade elevada em algumas de nossas paisagens pode atrapalhar o funcionamento de alguns sensores, que foram desenvolvidos para áreas com condições diferentes das nossas. Temos também muitos lugares de difícil acesso, com estradas ruins e sem a infraestrutura de uma cidade por perto. São coisas assim que também limitam a instalação e manutenção de estações meteorológicas e são nossos maiores desafios.

De um modo geral achei que a reportagem tratou de um assunto de extrema importância e espero que as pessoas compreendam o que estão lendo, que se trata de um assunto muito sério, que está diretamente relacionado com a prevenção de mortes por enchentes e deslizamentos, com um mundo em constante mudança onde ações de mitigação e prevenção precisam ser realizadas. No entanto, essas ações só serão possíveis com uma rede robusta de observações meteorológicas.

Posts Similares

Comente