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O que você ouviu na primeira infância que te fez despertar o interesse por ciência?

Sentada na grama, lendo O Mundo Assombrado Pelos Demônios. No meio das minhas pernas, um copinho de caldo de feijão.

O prefácio de O Mundo Assombrado Pelos Demônios, de Carl Sagan, é muito tocante. O livro inteiro é muito importante, penso que deve ser lido e relido em diferentes momentos de nossa vida. Cada vez que releio, tenho um insight diferente. Sagan termina o prefácio com:

“Mas quando recordo o passado, parece-me claro que não aprendi as coisas mais essenciais com os meus professores de escola, nem mesmo com os meus mestres universitários, mas com meus pais, que nada sabiam sobre ciência, naquele remoto ano de 1939.”

Carl Sagan em O Mundo Assombrado pelos Demônios

Sempre que releio esse prefácio, fico encantada com a gratidão que Sagan demonstra pelas lições que seus pais lhe ensinaram. Ele veio de uma família que morava em um bairro pobre de Nova York, filho de pais que não tinham educação universitária.

Meu pai cursou a universidade quando eu já tinha 9 anos. Fez um curso numa universidade particular bem simples, parcialmente pago pela empresa que ele trabalhava. Meu pai sempre foi muito bom de raciocínio lógico e matemática, ele queria ser engenheiro quando era jovem, mas na época não era possível. Ele me ensinava matemática através de jogos e brincadeiras, truques bem legais daqueles que você conseguia “advinhar” o número que o outro está pensando. Sem dúvida ele me ensinou a não ter medo de matemática!

Minha mãe, por outro lado, sempre foi uma pessoa muito criativa, que sabe se virar com recursos limitados. Aquela coisa bem “McGyver” de ser, típica de muitos brasileiros, que na dificuldade acabam criando as tais soluções criativas, as gambiarras. Acredito que a criatividade é uma ferramenta muito importante para quem deseja seguir na área científica.

Não estou me comparando com Sagan, creio que está claro que não é essa a intenção. Ele é sem dúvidas uma fonte de inspiração para mim. Quando a gente fica sabendo de algum fato sobre quem você admira que te aproxima dessa pessoa, acredito que isso pode ajudar a fornecer algum tipo de motivação. Há alguns meses, por exemplo, escrevi as dificuldades que eu enfrentei pra cursar a USP. Ele também teve suas dificuldades, também veio de um lar pobre e também era filho de pais que o incentivavam.

Ao fazer essas observações e anotar essas minhas memórias, quero celebrar a vida de Sagan. Um cientista e divulgador científico cujas palavras são muito atuais até hoje. Há trechos de O Mundo Assombrado pelos Demônios que são assustadoramente atuais, embora o livro tenha sido publicado há quase 30 anos. Além de celebrar a vida dele, gostaria de deixar registrada a gratidão que tenho pelos meus pais. Isso que escrevi aqui é apenas a pontinha do iceberg dessa gratidão. Acho que eles nem sempre me entendem, sou muito esquisita, acho que não saí como eles imaginavam, mas eles procuram me respeitar mesmo sem entender. Sem dúvidas, eles me inspiraram e ainda me inspiram das mais diversas formas.

Outro livro escrito por uma cientista que fala muito sobre gratidão é o livro da Dra. Gladys West, responsável por cálculos que foram importantes para o desenvolvimento do Global Positioning System (GPS). Falei sobre a biografia da Dra. West nesse post. Eu seu livro, essa mulher inspiradora fala a todo momento sobre a gratidão que sente pelos seus pais, agricultores com pouca escolaridade que muito a incentivaram. Ela também agradece aos professores que a acolheram e que foram seus tutores e fonte de inspiração, além de seu marido, amigos e outras pessoas que passaram pelo seu caminho e fizeram a diferença. Ser grata é muito bom!

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Imagem de abertura do post: uma foto casual e até meio desleixada (o chinelão do filho aparecendo). Eu estava lendo na praça quando vi uma barraquinha de caldo. Sem dúvidas, o aroma foi a maior propaganda. A vida presta, alguma coisa nesse pálido ponto azul tem que ser boa.

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