Resenha de O Senhor das Moscas, de Sir William Golding
O Rodrigo, que criou comigo o Discurso Retórico, sempre mencionava O Senhor das Moscas. Fui ficando cada vez mais curiosa e decidi ler o livro.
Em uma dessas “conversas de buteco” que temos com amigos, falávamos sobre a maldade humana. O Rodrigo mencionou que ele acredita que somos inerentemente maus. Acredito parcialmente nisso, mas como pessoa muito otimista que sou (hellow Pollyana), acredito um pouco na história da tabula rasa. O mal e o bem são aprendidos, dependendo do ambiente que a criança vive. Acredito parcialmente que o “mal” faz parte da gente porque acho que ainda temos aquela necessidade tribal de sobrevivência, talvez escondida dentro da gente. Quando precisamos sobreviver, somos capazes de qualquer coisa.
No livro bíblico de Romanos, carta que Paulo escreveu ao povo de Roma, é dito que “Todos pecaram e estão destituídos da Glória de Deus”. Interpreto isso como “todos nós somos maus e temos que lutar contra essa maldade”. Mas é Bíblia, vocês sabem, cada um interpreta de uma maneira.
Uma série de muito sucesso, The Walking Dead (inspirada na série de quadrinhos de mesmo nome – vale a pena ler os quadrinhos também), mostra isso: o mal que aflora nas pessoas quando submetidas a situações de vida ou morte. Quando a sobrevivência está em jogo, as pessoas matam, manipulam e destroem. Psicopatas ganham o poder em situações assim, só ver como o Governador consegue manipular a vida das pessoas na série.
O livro O Senhor das Moscas foi escrito em 1954 por Sir William Golding (que ainda não era sir). O autor ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1983. É uma obra de ficção distópica (ou literatura apocalíptica). Simplesmente adoro livros/filmes/séries/etc com essa abordagem.
Um grupo de crianças, estudantes ingleses de uma escola (um internato super rígido? gosto de pensar que sim) está em um avião. O único adulto com elas é o piloto e aparentemente a mais velha das crianças tem uns 12-13 anos. A idade delas varia entre 5-13 anos mais ou menos. Ao que parece, está ocorrendo uma guerra bastante séria e de grandes proporções, então o piloto está resgatando as crianças.
O avião acaba caindo no mar, próximo a uma ilha. O piloto morre e as crianças sobrevivem sem nenhum arranhão. Elas acabam se abrigando na ilha, que é o cenário central de toda a história. É uma ilha linda, paradisíaca, localizada em latitudes tropicais (pela descrição das frutas e da vegetação). Tudo dá a entender (ou eu quis entender assim rs) que trata-se de uma ilha na região do Pacífico. É um lugar de sonhos! O autor descreve a ilha com muita riqueza, explicando o cenário com detalhes minuciosos. Parte da água do mar é represada em um coral, então forma-se uma piscina natural onde as crianças se divertem. Há abundância de frutas e há fontes de água doce. Ou seja, tudo nos leva a concluir que as crianças tiveram muita sorte. O Oceano Pacífico é enorme, o avião poderia ter caído distante de qualquer porção de terra. No entanto o avião cai próximo a um lugar que oferece condições ideais para sobrevivência. Bom, pelo menos é o que superficialmente pensamos.
O livro é cheio de simbologias. À cada personagem e até à itens do livro podem ser atribuídas características ou paralelos podem ser estabelecidos. Fiz um resumo abaixo e cada termo ou nome em negrito podem ter um significado dentro do enredo:
Um dos meninos destaca-se por ser gordinho e usar óculos. Nós não o conhecemos pelo nome: os meninos o chamam de Porquinho. É um garoto inseguro e muito sábio. Ele acaba encontrando uma concha muito bonita, em forma de caracol. Essa concha vira o símbolo de uma espécie de democracia, implantada por Ralph, um dos meninos mais velhos do grupo. Ralph acredita que eles podem ser salvos e para isso terão que manter uma fogueira acesa e construir abrigos. Os meninos do coral da escola, liderados por Jack, ainda uniformizados com a roupa do coral, decidem caçar porcos selvagens que habitam a ilha. Há um garoto, Simon, que tem uma espécie experiência religiosa com uma cabeça de porco, cheia de moscas, espetada em uma estaca pelos meninos caçadores. As crianças tem muito medo de um bicho, que segundo elas, esconde-se na mata.
Óculos: ciência/conhecimento
Porquinho: portador da ciência/conhecimento/razão
Concha: símbolo da democracia
Ralph: símbolo da sociedade, eleito do povo.
Fogueira: conhecimento, que se não for usado com sabedoria, foge do controle e pode levar a situações desastrosas.
Meninos do coral: exército
Jack: símbolo da selvageria
Simon: símbolo da religião ou do bem.
Bicho: natureza humana ou medo do desconhecido.
Lembrando que as interpretações acima são minhas. Talvez outras pessoas que leram o livro tenham interpretações completamente diferentes. Ao longo do livro, fica claro que a crueldade existe dentro da gente e ela pode aparecer quando somos pressionados. Também fica claro que tendemos a selvageria, mas as estruturas sociais impedem os garotos de serem selvagens em situações normais.
Li o livro no meu Kindle. Baixei gratuitamente aqui (tem nos formatos .mobi, .epub e .pdf).
Depois que terminei de ler o livro, acabei encontrando a adaptação no Netflix e decidi assistir. A adaptação é de 1990, dirigida por Harry Hook. Na adaptação, as coisas se desenrolam de maneira um pouco diferente. Os meninos são americanos, de uma escola militar e o piloto não morre no acidente, mas fica gravemente ferido. O aspecto de bondade se Simon é mais marcado no filme. A propósito, no filme os personagens tem um papel mais bem definido (bom/mau e civilizado/não-civilizado). No livro, mesmo Ralph (que é considerado civilizado) não é civilizado o tempo todo.
Apesar das alterações mencionadas acima, a adaptação acompanha a história do livro com alguma fidelidade. O final do filme é igual ao final do livro, não há mudanças ou redenções. H sim, há outra adaptação para os cinemas, dirigida por Peter Brook em 1963, que é mais fiel ao livro (não vi essa adaptação, mas é o que dizem por aí).
Minha vontade é contar a história toda, mas eu estragaria a surpresa. É um livro cruel e que mostra que as crianças podem ser más, que a maldade não necessariamente é aprendida, mas pode surgir de dentro da gente. Crianças que talvez fossem boas alunas na escola, antes do mundo seguir adiante, antes do acidente. Recomendo também o filme, mas claro que o livro é infinitamente mais profundo.
Além disso, o livro é um clássico do pós-guerra, leitura obrigatória para todo mundo que quer conhecer mais sobre o século XX através da arte.
Curiosidade: O Senhor das Moscas é a tradução literal de Belzebu (ou Baal-zebu ou ainda outras grafias), que originalmente era um deus filisteu. O termo hoje é usado como sinônimo para demônio, na tradição cristã.


gostaria de saber de onde que a bíblia pode ser interpretada de maneiras diferentes, tendo cada um a sua interpretação que ela não estará errdada…
Não entendi o que você quis dizer. Você disse “gostaria de saber de onde a bíblia pode ser interpretada de maneiras diferentes”.
E em seguida você disse ” tendo cada um a sua interpretação que ela não estará errdada”
Bom, aparentemente você respondeu a própria indagação, já que a biblia pode ser interpretada de maneiras diferentes uma vez que cada um tem a sua própria interpretação.
Qualquer livro pode ter interpretações diferentes e a bíblia é apenas mais um livro. Um livro complexo, escrito por pessoas de origens diferentes em diferentes épocas da história, vivendo realidades diferentes. E um livro complexo como a Bíblia (que bna verdade é um conjunto de livros), tem maiores chances de ter diversas interpretações, principalmente quando a fé e o delírio aparecem no meio da equação.
Mas bom, o post é sobre O Senhor das Moscas, recomendo esse livro =)
É, um livro que hoje retrata nossa politica, politicos agindo como crianças mas , fazendo horrores pelo poder , sem usar a democracia e o ESTADO DE DIREITO
Nossa, concordo totalmente com seu paralelo, Maria!
Abraços e obrigada pela visita.
O livro me surpreendeu muito! Há tempos não me sinto tão envolvida por uma história, que na verdade diz muito mais do que está escrito.
Parabéns pelos comentários. Muito bons.
É cômico como o maior mistério para nós, seres humanos, somos nós mesmos.
A nossa incerteza do que realmente somos e a reação pasma de quando nos deparamos e refletimos sobre nossas ações.
No livro, porquinho escolhe não falar sobre a morte de Simon, não pensar sobre o que ocorreu. Porque se assim fizesse, teria que admitir que também era culpado de um assassinato. Logo ele, o tão inteligente e certo de suas ações. Para mim, significa que nem mesmo ele poderia de livrar do que é o ser humano, da sua essência.
E claro, toda ação traz consequências.
Enfim, o livro é incrível e nos faz refletir sobre o que é ser um ser humano. Alguns podem seguir a corrente de Rosseau ou Hobbies. Mas nada nos dará a certeza do que realmente somos.
Este é um livro atemporal e que deve sim, ser lido por todos.
Adorei seus comentários. Gosto de saber o que as outras pessoas viram nos livros que leio para aprender sob a perspectiva de outra pessoa. Não tinha pensado nessa escolha de Porquinho não querer falar sobre a morte do garoto. Tem realmente esse significado, de não admitir que fez parte daquilo.
Incrível como uma história de crianças tem tantos significados e tantas interpretações. O autor foi um gênio, sem dúvidas.
Obrigada pela visita e pelos seus ótimos comentários.
A mensagem do livro é bem clara: o ser humano é mau. Até porque, como você observou muito bem, até mesmo os meninos que simbolizam civilização se renderam em algum momento à barbárie, simplesmente porque não resistiram. Todos eles experimentavam uma adrenalina irresistível e viciante quando se entregavam à selvageria. É como se aquilo fizesse parte da natureza deles. E eu acho muito interessante com o autor mostrou isso com um grupo de crianças, que são justamente os maiores símbolos de inocência e pureza dentro da nossa sociedade. Ou seja, o livro basicamente estraçalhou essa imagem. Genial.
Só queria entender aquele trecho do Simon com o Senhor das Moscas… Quer dizer, pelo menos até agora ele não faz nenhum sentido pra mim, e deve ser importante, visto que ele deu nome ao livro… Talvez o destaque desse trecho seja justamente a perda da sanidade e do controle sobre a civilidade dos garotos. E também porque, pelo menos na minha opinião, é uma das cenas mais perturbadoras do livro.
Enfim, gostei muito, é um livro com altos momentos de tensão, cenas um tanto quanto chocantes, além do clímax emocionante nos últimos capítulos
Olá Isabela, obrigada pela visita ao meu blog e pelo comentário.
Com relação ao trecho do Simon, eu penso que talvez seja uma crítica a religião? Quando tudo foge do controle, as pessoas tendem mais a esse lado fanático. Não sei, hahaha. Foi algo que veio a minha cabeça. Olha, não sei, estou aqui apenas “viajando”. O legal desse tipo de livro é que dependendo do leitor, várias interpretações podem ser feitas.
Gosto muito desse livro também, é um de meus favoritos. O tema é o mau, sem sobra de dúvidas. E outra, há aquela ideia da “tabula rasa”, de que as crianças nao tem maldade. Bom, o livro mostra exatamente o contrário.
Obrigada pela visita.
******POSSUI SPOILER *******
Ola, gostei demais da leitura , sem duvida se tornou um dos meus livros favoritos.
uma das questões que me fez refletir ainda mais sobre o livro foi o fato dos meninos terem sofrido uma queda do avião onde o piloto morreu e todos eles saíram vivos sem nenhum arranhão.
Parei para observar e percebi que a figura da caveira com paraquedas seria a representação desse piloto, porem cade os destroços do avião?
O mais comum e que quando acontece uma queda e existe sobreviventes seria o fato deles irem ate o que sobrou do avião e tentar resgatar o que havia nele, sendo ( comida, roupas ou ate mesmo tentar uma comunicação por um radio ), mas em momento algum vemos esse movimentos dos meninos no livro, ou seja me lembrei de Lost.
e temos também a morte do primeiro personagem que seria aquele menino com uma mancha vermelha no rosto, no final do livro o Ralph menciona apenas 2 mortes mas e do primeiro garoto?
Tatiane, que bom receber seu comentário! É o comentário de alguém que divide comigo a empolgação com o livro.
Então, suas colocações são muito boas. Sobre o primeiro menino que morreu, ninguém tem certeza que morreu (provavelmente sim, tacaram fogo geral na ilha). Mas ninguém viu a morte acontecer, como foi depois.
E sua colocação sobre os destroços do avião são excelentes. Será que estamos pensando com o ponto de vista de um adulto? Será que as crianças iriam atrás dos destroços?
Fora que se não me falhe a memória, não há feridos dentre as crianças. Como seria possível?
Obrigada pelo comentário!
Olá!
O comentário da Tatiane sobre a morte do primeiro menino, o com a mancha no rosto, e a postura do Porquinho em relaçãp à morte do Simon me parecem bem interessantes. Vê-se que é um assunto que traz bastante desconforto para todos e que os buscam evitar, enquanto que o Porquinho bota o dedo na ferida. Sendo portanto uma resistência da razão perante a barbárie que se seguiria.
Já a postura dele após a morte do Simon, e sua participação, indicaria que ele foi “corrompido” que até mesmo a razão/ciência pode ser utilizada para fins trágicos e a vergonha/arrependimento que vem disso.
Samanta, terminei o livro agorinha, e gostei bastante da associação dos personagens e objetos que você fez. Minha única ressalva seria em relação ao Simon. Será que ele não poderia ser uma metáfora para a racionalidade e a força de vontade de resistir à barbárie? Afinal, quando todos acreditavam que havia um mostro no topo do morro, ele foi lá e investigou melhor o que era aquilo e descobriu a verdade, que não era monstro e sim o cadáver de um piloto. E ao voltar para trazer a revelação para os outros, ele foi morto. Como a barbárie matou a civilidade, os acordos sociais, a razão. E nesse sentido, a conversa do Simon com o Senhor das Moscas poderia ser inclusive uma alusão à loucura, à autosabotagem e a uma dúvida interna que pode surgir quando se busca se apoiar na razão para combater algo mais primitivo e irracional. Uma dúvida do tipo, “será que faz sentido? Será que estou certo?” E esse embate interno pode ser bem duro o que se traduz no episódio que o Simon tem enquanto conversa com o Senhor das Moscas e antes de subir o morro.
Inclusive, escrevi um poema baseado no livro. Se tiverem instagram, me mande uma dm (não precisa seguir hehehe) que eu mando lá.
@xamatt
Um abraço.