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Life changes fast. Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.

Estava conversando com meu pai e nos lembrávamos sobre o dia em que o Ayrton Senna morreu. Nós tínhamos um ritual lá em casa de assistir os Grande Prêmios (GP) nos fins de semana em que eles ocorriam. Eu só não conseguia assistir o GP do Japão, porque passava de madrugada. Esse era um ritual de muitos lares brasileiros no começo dos anos 90, quando as pessoas assistiam aos treinos nos sábados e ao GP no domingo. Não tinha internet, as pessoas eram muito vidradas na TV, a Globo era campeã de audiência e o Ayrton Senna ganhava muitas! Apesar do automobilismo ser um esporte para quem tem dinheiro, o povão de algum modo se sentia representado no bom moço que tinha um namorico com a apresentadora mais famosa da época.

Senna era um herói, um gentleman. Mesmo antes de ele morrer, lembro que as pessoas comparavam sua atitude geralmente muito paciente e educada dedicada aos repórteres e fãs com as atitudes mais grosseiras e esnobes do Piquet. Ele era envolvido em obras de caridade, ele era galã. Era o brasileiro que ganhava prêmios e que representava o país super bem. Posso dizer que era uma certeza que nós tínhamos: Senna pelo menos iria para o pódio e tinha grandes chances de ganhar, sempre.

A formula 1 para mim também era uma oportunidade de aprender sobre outros países. Naquela época eu já tinha muito interesse em Geografia e procurava os nomes dos países que sediavam os eventos nos mapas e em enciclopédias. Queria saber mais sobre aquele mundo muito eurocêntrico, sobre aqueles países tão desenvolvidos e chiques. Claro que na época eu não tinha esse discernimento a respeito do eurocentrismo, não problematizava as emissões de gases de efeito estufa dos carros, eu não entendia nada. Geralmente quando a gente não entende as coisas se deslumbra mais facilmente e eu diria que a gente é até um pouco mais feliz quando não sabe das coisas.

Eu tinha até uma pasta com recortes de notícias e fotos do Ayrton Senna. Eu não era sua fã número 1, não é isso. O cara impressionava mesmo, acho que nunca vi uma pessoa tão amada por todos. Quando a cantora sertaneja Marília Mendonça morreu, ocorreu uma grande comoção também. Mas eu não acho que essa comoção tenha sido igual a que observei com Ayrton Senna.

No dia em que ele morreu, eu estava em casa com meu pai. Meu irmão e minha mãe tinham ido pra igreja. Estávamos vendo o GP e foi um fim de semana muito tenso, porque um piloto austríaco tinha morrido nos treinos. Quando o acidente aconteceu, meu pai na hora disse que provavelmente tinha sido fatal. Eu via no Senna um herói, ele sairia dessa. Meu pai logo percebeu a gravidade talvez porque naquela época, acidentes fatais no automobilismo fossem mais comuns.

Acho que no domingo mesmo já confirmaram sua morte. O que aconteceu na segunda-feira lá na escola, foi uma coisa que ninguém nunca tinha visto antes. As aulas precisaram ser interrompidas porque todo mundo chorava muito. Fomos para o pátio, mas não tinha correria. Logo começou uma homenagem improvisada, arrumaram umas cartolinas não sei da onde e escreveram algumas coisas em verde e amarelo. Arrumaram também papel crepom verde e amarelo, colocaram ao redor dos cartazes. Cantamos o hino nacional. Esses cartazes ficaram mais de uma semana colados no pátio.

Havia uma inspetora de alunos chamada Vera, era uma mulher embrutecida. Ela saia resmungando no meio dos alunos, dizendo que éramos chorões e que a vida tinha que continuar, qualquer coisa assim.

O corpo de Senna chegou ao Brasil naquela semana, lembro que não demoraram tantos dias assim. Colocaram o caixão em um carro de bombeiros e saíram pela cidade. No local do velório, havia uma gigantesca fila de pessoas querendo dizer adeus.

O ano de 1994 foi então salvo pela vitória do Brasil na Copa do Mundo, depois de um jejum de 24 anos. Os jogadores de futebol prestaram homenagens ao Senna no campo. Lembro que todos estavam eufóricos no dia da vitória, lembro que meu irmão foi atropelado por uma bicicleta (queria ver os fogos do outro lado da rua, não foi grave) e meu pai bateu o carro (nada grave também).

Parece que um dia você acorda e o mundo mudou. Digo isso porque eu fiquei muito tempo presa nessas coisas que aconteceram mais ou menos entre 1992 e 2002. Acredito que levei um tempo, alguns anos, para digerir minha adolescência e melhor compreender o mundo em que vivia aquela menina. Um dia, ainda não entendi muito bem quando, percebi que aquele mundo tinha ficado pra trás e que as coisas estavam completamente diferentes. Mudou o dinheiro, mudou o presidente, morreram ídolos e também morreu um mundo mais mágico e com possibilidades. O Brasil era o país do futuro.

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A frase que abre o post é de um livro da Joan Didion.

Em 2019 participei de um Contrafactual onde imaginávamos o Senna vivo ainda hoje. Preciso destacar que em 2019 eu não estava bem, tive depressão pós-parto o ano todo. Essa depressão (que não foi diagnosticada na época, só depois) me fez tomar algumas decisões não muito boas e eu não consegui nem curtir direito o primeiro ano do meu mais novo. Participar desse podcast foi bem legal, porque além de ter aprendido e me divertido, refleti sobre uma época que ficou para trás. De alguma maneira, foi importante para acolher a Samantha adolescente.

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