Reflexões sobre arrogância

A semana está bastante chuvosa. Fomos para a praia, mas infelizmente aproveitamos poucos dias. Passar muitos dias dentro de casa geralmente me leva a reflexões e como minha saúde mental está boa, as reflexões geralmente me transportam para bons caminhos de autoacolhimento e resiliência.
Alguns amigos estavam lembrando de coisas da época da graduação (a USP completou 90 anos e eu me formei em Meteorologia há mais de 20 anos) e estávamos recordando que costumávamos acreditar, aos 20 e poucos, que pessoas de 40 anos eram velhas. Eu até me lembrei de um caso em que umas moças fizeram comentários infelizes e etaristas ao se referirem a uma colega de sala mais velha. Talvez esse tipo de opinião seja comum entre adolescentes e jovens adultos e muitos só enxergarão a bobeira que elas representam após muitos anos.
Então, como esses amigos e eu estamos na casa dos 40 (ou encostando nisso), ficamos rindo de nossas opiniões tolas da época em que éramos jovens adultos. Após essas conversas, eu fiquei pensando nessa época de maneira mais aprofundada e concluí com muito pesar que a arrogância prejudicou minha trajetória.
Foi a arrogância me me fez pensar que eu já sabia muito sobre um determinado assunto, quando eu nada sabia.
Foi a arrogância que me fez achar que eu não precisava perguntar nada ao professor ou ao monitor, porque eu iria acabar descobrindo sozinha quando estivesse estudando ou coisa assim.
Foi a arrogância que me fez deixar de reclamar (porque eu considerava que reclamar demais era frescura) e com isso eu não caminhei na direção da solução de vários problemas que eu enfrentava.
Foi a arrogância que me fez fechar os olhos para problemas evidentes e outras questões que me atrapalhavam.
Eu escrevi sobre essas coisas em meu diário. Claro que não vou detalhá-las, são tópicos muito particulares e estou compartilhando apenas o que não vai me expor demais ou expor outras pessoas. O ponto é que não senti raiva de minha versão de vinte e poucos anos. Eu já não sinto raiva de mim como sentia antes. Eu lamentei por mim e queria me aconselhar, me abraçar e me ajudar. Tem sido assim.
Lamentei por todas as coisas que eu não conhecia e que me fizeram arrogante ao longo da vida toda. Lamentei pela baixa autoestima, muito comum de quem sofre de TDAH (coisa que eu não sabia sobre mim). Lamentei pelo patriarcado que coloca mulheres pra baixo, tenham elas TDAH ou não. Lamentei por muitas coisas e tenho concluído que não é tarde para mudanças.
Não se trata de não reconhecer meus erros. Eu sei onde errei e por isso preciso me acolher, transformar e evoluir. Trata-se de reconhecer as limitações que na época eu não via ou fingia não ver. Porque também era, para mim, uma questão de orgulho e de um ponto de vista neoliberal de ser uma pessoa self-made e totalmente responsável pelo seu sucesso.
Dias chuvosos não são tão ruins assim.
