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O que significa a palavra clima?

Nesse post, vou discutir brevemente a definição de clima considerando dois autores. Vou falar um pouco do que os Geógrafos falam e vou traçar um paralelo com o que os Meteorologistas falam, já que faço parte desses dois mundos.

Esse post vai ser breve e nele não pretendo destrinchar a palavra clima ou dar exemplos. Eu já fiz isso em vários outros posts daqui do blog e aconselho a leitura de:

A definição de clima para os geógrafos

A definição aceita pelos Geógrafos é a de Maximilien Sorre (1880-1962). Para Sorre, conforme descrito na década de 1930, o clima é

“série de estados atmosféricos sobre um determinado lugar em
sua sucessão habitual. Cada um desses estados caracteriza-se pelas
suas propriedades dinâmicas e estáticas da coluna atmosférica,
composição química, pressão, tensão dos gases, temperatura,
grau de saturação, comportamento quanto aos raios solares,
poeiras ou matérias orgânicas em suspensão, estado do campo
elétrico, velocidade de deslocamento das moléculas, etc. É o que a
linguagem comum designa sob o nome de tempo”

A definição de Sorre considera o clima como resultado de estados atmosféricos que se repetem. Ele propôs essa definição para que ela não ficasse tão presa ao conceito de média, rebatendo a definição anterior de Julius Hann (1908). A definição de Hann é aquela que os Meteorologistas aprendem na graduação.

A definição de clima para os Meteorologistas

De acordo com Julius Hann, que definiu em 1908), clima seria:

(…) “o conjunto dos fenômenos meteorológicos que caracterizam a condição média da atmosfera em cada lugar da terra”.

A definição de Hann foi a apropriada pelos Meteorologistas, que é uma definição bem precisa e que evoca o conceito de média. O clima pode ser descrito através da linguagem escrita, mas também pode ser descrito usando a matemática, com valores médios, tabelas, gráficos, etc. Cada uma dessas linguagens tem sua importância na descrição do clima, com gráficos bem feitos podendo ter um importante apelo visual (como por exemplo o trabalho de Ed Hawkins)

Críticas de Sorre à definição de Hann

Sorre escreveu que a descrição de Julius Hann era muito “simples e cômoda”, pois ao considerar o clima como uma simples média ele se tornaria “uma abstração inteiramente destituída da realidade e conduz a um abuso das médias aritméticas para caracterizar os elementos do clima”. A crítica de Sorre é muito relevante, porque apenas apresentar um valor, um gráfico ou mapa sem nenhuma contextualização não descreve o clima.

Extremos climáticos

Dentro da perspectiva neopositivista dominante no meio cientifico em sua época, Sorre considerava os extremos climáticos como pseudoproblemas uma vez que não eram situações que aconteciam com frequência e portanto a climatologia não deveria se preocupar com eles. Por exemplo, um extremo de precipitação, uma onda de calor ou uma seca prolongada eram fenômenos que não aconteciam repetidamente, portanto não alteravam a média e não explicavam o que Sorre considerava como definição de clima.

Ocorre que essa opinião de Sorre envelheceu muito mal dentro do contexto do aquecimento global, quando fenômenos extremos estão se repetindo com maior frequência.

E mesmo antes de constatarmos o aquecimento global, já havia a discussão de que são os eventos extremos que necessitam ser pensados e analisados dentro de uma pespectiva de planejamento. Engenheiros civis, por exemplo, calculam o tempo de retorno de grandes chuvas para projetar construções seguras.

Portanto, uma grande crítica ao trabalho de Sorre é essa questão de excluir os extremos do campo de estudos da Climatologia. O que não significa que sua definição de clima (que comentamos no comecinho do clima) esteja equivocada. Pelo contrário, em sua definição Sorre procura considerar a diversidade de estados da atmosfera e por isso é empregada até hoje na Geografia.

Além disso, Sorre também considerava que era necessário considerar como o clima impacta na vida e na saúde das pessoas. Na época de Sorre, era comum as pessoas procurarem estâncias climáticas para tratarem de doenças como tuberculose ou pneumonia. Áreas montanhosas e com pouca ocupação urbana tinham hoteis e clínicas, pois o ar desses lugares era considerado curativo. Hoje sabemos que condições de saúde são agravadas dependendo das condições meteorológicas e as frequentes ondas de calor tem sido responsáveis pela morte de muitas pessoas.

Quem tá certo?

Eu tenho lugar de fala porque sou Meteorologista e professora de Geografia, então vou dar minha opinião como se estivéssemos num boteco. A definição de Sorre amplia o que Hann definiu, mas os dois estão corretos. Não dá para descrever o clima de um lugar apenas com valores médios, é necessário contextualizar esses valores.

Eu diria que Sorre inseriu a definição de tempo dentro da definição de clima. Isso é bom, porque nos lembra da variabilidade atmosférica. Mas isso pode ser ruim e confuso, porque em alguns textos de Geografia outros autores parecem misturar demais as duas definições, o que pode levar o aluno a confundi-los.

Referências

Imagem que abre o post: Pixabay

Manda um pix: samanthansm@gmail.com

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4 Comentários

  1. Boa madrugada.

    Uma dúvida que sempre tive:
    Na definição de clima fala-se em um média de 30 anos, acho, essa média é fixa ou uma média atualizada em períodos fixos?

  2. Podemos ter várias médias de 30 anos, que são as normais climatológicas. Os períodos que a gente chama de normal climatológica vai depender dos bancos de dados do país. Aqui no Brasil acabamos seguindo o padrão do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), então temos normais de 31-60, 61-90 e 91-2020. Claro, nada me impede de usar outros intervalos de 30 anos. O interessante ao acompanharmos as normais é que podemos ver como seus valores se modificaram, principalmente para temperatura (a média 31-60 é mais baixa que as posteriores).

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