Amanhecer na Roça – Ronaldo Simões Coelho

Há alguns anos compramos esse livro infantil numa feira do livro da USP: Amanhecer na Roça, de Ronaldo Simões Coelho com ilustrações de Nydia Negromonte. É um livro infantil com um ritmo de leitura muito agradável, encadeado pelas rimas e pelas cores das ilustrações. Meus filhos adoram esse livro e de tanto lermos, decoraram o texto inteiro.
Livros eram raridade na minha infância modesta. Não havia uma biblioteca próxima de casa e meus pais não tem o hábito de ler. Quando aparecia alguma revista ou gibi lá em casa, eu ficava super feliz. Hoje faço questão de comprar livros para meus pequenos e fazer carteirinhas em bibliotecas públicas.
Eu decidi destacar esse gracioso livro infantil por uma feliz coincidência que vivenciei. Eu estou lendo o livro Holocausto Brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil, de autoria de Daniela Arbex. O aclamado trabalho conta a história do Hospital Colônia de Barbacena, hospital psiquiátrico onde muitas pessoas foram encarceradas, tendo sua dignidade e liberdade arrancados. Havia maus tratos de todos os tipos. Esse é um livro muito difícil de ler e tenho certeza que a autora enfrentou muita dificuldade para escrevê-lo. O prefácio é da também renomada jornalista Eliane Brum. Um livro difícil, que conta uma história que não pode ser esquecida.
Logo no primeiro capítulo do livro da Daniela Arbex, o nome Ronaldo Simões Coelho foi mencionado. Médico psiquiatra, foi um dos que denunciou os maus tratos aos pacientes. Ele questionou os protocolos de tratamento, defendendo tratamento humanizado e a desospitalização. Na segunda metade do livro, Arbex volta a falar do pioneirismo de Simões Coelho, que já se destacava durante a sua formação por não concordar com o tratamento desumanizado dado às pessoas com transtornos mentais.
Uma curiosidade mencionada no livro de Arbex é que Simões Coelho ciceroneou Michel Foucault em uma viagem pelas cidades históricas mineiras. O filósofo francês tinha um estreito contato com a academia brasileira, tendo palestrado em diversas instituições e protestando contra a ditadura. Foucault chegou a interromper um ciclo de palestras que ele dava na USP em protesto ao assassinato de Wladimir Herzog. Segundo Simões Coelho, Foucault gostou do passeio, adorou cachaça e comida mineira e é mágico pensar que esse grande pensador caminhou por cidades do Estado onde moro atualmente.
Simões Coelho chegou a perder seu emprego, um cargo alto na Fhemig, por protestar contra as condições degradantes do Colônia em um congresso da área de psiquiatria. Graças a nomes como ele e tantos outros, como também o da renomada Nise da Silveira, a reforma psiquiátrica se tornou possível no Brasil e as pessoas com doenças mentais passaram a ter um tratamento mais digno. É por isso que lemos Holocausto Brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil e nos sentimos enojados: pessoas comprometidas nos mostraram, através do conhecimento científico e do humanismo, que os ‘loucos’ merecem ser tratados com respeito e dignidade.
Simões Coelho também é autor de literatura infantil, com cerca de 50 livros publicados. Um deles é Amanhecer na Roça, que mencionei no comecinho do texto. Eu só o conhecia pelo livro infantil e fiquei admirada ao conhecer mais sobre esse grande brasileiro através do livro da Daniela Arbex. Infelizmente Simões Coelho faleceu em 2020, aos 88 anos.
Eu vou confessar pra vocês que tenho certo orgulho dessa minha memória para nomes de autores e seus livros. Às vezes a memória também funciona para nomes de figuras políticas, atores, artistas em geral, etc. Que Deus conserve essa memória!
E assim deixo com vocês duas dicas muito boas de literatura. Um livro infantil muito agradável e um livro que conta uma história pesada mas que não pode ser esquecida.
