Série Upload: consumidor até depois da morte

Assisti alguns episódios da série Upload, no Amazon Prime. Na série, Nathan sofre um acidente com um carro autônomo. Na sequência, sua namorada o convence a fazer seu upload para um serviço de pós-vida.
Quem assistiu o episódio San Junipero da série Black Mirror vai observar que a ideia do pós-vida guarda algumas semelhanças entre as duas séries. A consciência do indivíduo passa a viver em um servidor, onde ela pode participar de festas, passeios, ter relacionamentos com outras consciências, etc. Só que o aspecto explorado em Upload não é tanto essa ideia dos relacionamentos entre as pessoas (como em Black Mirror), até porque se trata de uma série de comédia.
Nathan está como dependente de sua namorada controladora no plano de serviço pós-vida. As pessoas mortas podem fazer chamadas de vídeo com seus entes queridos vivos, mostrando esse novo mundo e o cotidiano. No entanto, os falecidos dependem das pessoas vivas para que o serviço pós-vida receba upgrades. Ou seja, se no pós-vida o indivíduo quer consumir um refrigerante ou caviar, o seu familiar vivo vai ter que autorizar isso, mandando créditos ou fazendo upgrade do plano, algo assim. Em outras palavras: o sujeito é consumidor até depois que morre.
Acabei não me atraindo muito pela série e só assisti dois ou três episódios. Mas fiquei pensando que a ideia da série é muito realismo capitalista: faz uma crítica ao consumo mas está dentro do Amazon Prime, um serviço que investe pesado para que a gente compre cada vez mais.
Dei algumas risadas, principalmente quando Nathan se frustra por não conseguir fazer absolutamente o que ele quer nesse além. Por exemplo, tem horário até pro café da manhã, como num hotel.
Agora, vamos pensar no que podemos ver no horizonte. Vamos supor que um serviço assim torne-se realidade no futuro. Além de consumir até depois de morto, é provável que você também trabalhe mesmo depois de morto. Se você já trabalha em home office, se é consultor, programador ou seja, se faz parte do cognitariat, você vai ter que trabalhar se quiser comprar salgadinho, visitar a Paris do pós-vida ou se quiser comprar roupas digitais novas. Pensando em tudo isso, achei essa possibilidade é um pouco assustadora.
Por outro lado, você vai poder continuar aconselhando seus filhos e conversando com amigos. Mas será que sua presença vai ser sempre bem-vinda? E no caso de seu cônjuge começar a se relacionar com outra pessoa? E se seus entes queridos não quiserem fazer seus próprios uploads quando morrerem?
Esse tipo de produção que trabalha com as fronteiras do conhecimento estão se tornando muito comuns. Recentemente assisti Fuga de Nova York e acho que sinto um pouco de falta de filmes e séries de ficção científica com futuros exageradamente distópicos ou utópicos.
Se você viu Upload, conta nos comentários o que achou.
