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A teoria da Internet morta: não são somente os comentários dos bots

Image by StockSnap from Pixabay

No post anterior mencionei um artigo, no qual discutem a tal “teoria da internet morta“. De acordo com o texto, cerca de 42% do tráfico geral da web é composto por bots. Desses 42%, 65% são maliciosos, ou seja, são bots que postam comentários em blogs, redes sociais ou canais do Youtube com spam ou propagandas fraudulentas, espionagem, fraude, criação rápida de sites fraudulentos, etc.

Eu fiquei pensando sobre esse assunto e lembrei que não é um fenômeno novo, uma vez que já há algum tempo eu recebo alguns comentários falsos aqui no blog. São comentários vendendo criptomoedas, oferecendo serviços e postando links maliciosos, etc. Evidentemente, todos esses comentários caem no filtro de spam do WordPress. Algumas vezes passa um ou outro, mas como eu mesma realizo a moderação dos comentários, vocês acabam não vendo nada.

Pois então, comecei também a refletir o que significaria internet morta e fiz uma pequena viagem mental sobre esse assunto. Lembram quando eu disse que nos últimos anos eu quase não recebo comentários no blog? Pois então, no apogeu dos blogs, as pessoas se visitavam e deixavam comentários, isso era uma prática muito frequente. Era uma forma de debater o assunto tratado no texto e de se tornar conhecido, criar uma rede de blogueiros. A Izabel ainda faz isso, fico super feliz quando recebo comentários dessa querida por aqui e sempre retribuo a visita. Confesso que eu não tenho lido muitos blogs, porque muitas dos blogs que eu adoravam deixaram de existir ou migraram para redes sociais. Bom, se por acaso você é meu leitor e tem um blog ou conhece algum legal, deixe o comentário para eu visitá-lo.

O que quero dizer com isso? A ausência de comentários de pessoas reais é um sinal da internet morta. Mas eu vejo também outros sinais. Quando um texto, vídeo ou qualquer conteúdo é gerado inteiramente por IA e postado na rede, não temos pessoas criando. Quando os comentários que aparecem para esses posts gerados por IA também são gerados por IA, não temos pessoas interagindo. São só máquinas. Isso é muito estranho pra mim, porque eu bem lembro quando a internet começou a ficar acessível para as pessoas e o lado interessante era poder consumir conteúdo gerado por outras pessoas e até mesmo interagir com essas pessoas. Inclusive, parece que foi isso que o Orkut Büyükkökten imaginou quando criou a rede social que levou seu nome.

Vamos recortar a conversa aqui e falar especificamente do universo do texto, dos blogs. Eu estou escrevendo esse texto aqui e sei que pouquíssimas pessoas vão ler. Vamos supor que eu deseje criar um site muito maior que esse blog e que eu tenha inclusive grana pra pagar gente pra trabalhar comigo, que eu possa investir esse dinheiro em publicidade e visibilidade. Pois bem, ainda assim as pessoas lêem menos, mas mesmo assim eu quero encher meu site de textos em um período curto de tempo. Bom, eu poderia fazer isso usando IA generativa. Isso daria volume ao meu site, mesmo sendo um falso volume. Esse volume talvez dê uma sensação de importância e credibilidade ao site.

Uma coisa tragicômica que pensei aqui. Eu falei recentemente sobre a lista de mais lidos criada por IA com livros que não existiam. Pois bem, hoje mesmo li que alguns editores tem recebido livros para avaliar que possuíam partes dos prompts de IA generativa. Os prompts são os textos que você manda para o Chat GPT, por exemplo, pedindo para que um texto seja resumido ou pedindo uma explicação a respeito de um tema qualquer. Bom, esses são livros que não foram inteiramente escritos por uma pessoa (e tenho certeza que em alguns casos, foram inteiramente escritos por IA), que não serão lidos por quase ninguém e que não farão parte de listas falsas dos 10 mais lidos, cujos comentários dessas listas também não serão feitos por pessoas.

Percebem o buraco que estamos? Temos um monte de conteúdo inteiramente gerado por máquinas (ou quase que inteiramente, quero dizer, pouca ação humana). Volumes e volumes de textos criados por máquinas, com comentários feitos por máquinas, que pouca gente realmente lê.

Comentários das redes sociais e Youtube

Muitas vezes observo os comentários em publicações do Instagram, comentários feitos por pessoas reais. São comentários de conteúdo fraco, mal escritos, superficiais, que não observam nuances e frequentemente carregados de preconceito e intolerância. Isso não também não é uma espécie de morte? Um estado zumbi da humanidade? Porque quando percebo que mais de 50 milhões de pessoas seguem a moça famosa que se faz de burrinha e anuncia casas de aposta (e que de fato interagem com suas publicações), percebo que as pessoas estão em um estado zumbificado. Elogiam exageradamente, dizem que a moça é vítima de inveja, copiam tudo o que ela faz numa real idolatria. Ficamos rolando e rolando o feed, que apresenta muitos conteúdos vazios e que moldam nosso estilo de vida e aquilo que consumimos. Vez ou outra encontramos conteúdo interessante, mas já observaram o tanto que precisamos treinar o algorítmo para que ele comece a nos indicar coisas boas? Vez ou outra esse treino não é suficiente, porque continuamos recebendo porcaria. Aquela porcaria que viraliza porque é ruim, porque divide opiniões, porque as pessoas comentam raivosas. Eu não queria depender do algoritmo pra encontrar coisas relevantes pra mim. Eu queria receber indicações das pessoas, queria encontrar em algum blog ou nos links de algum vídeo legal. Sim, acho que eu queria do jeito que era antes.

Essa realidade atual pra mim é um sinal de quase morte. Quase não há conteúdo genuíno, há incontáveis estímulos ao consumo imediato e sem responsabilidade*. Portanto, creio que quando falamos em internet morta, estamos também falando desse fracasso social. A informação e a tecnologia, que deveriam libertar os seres humanos, estão nos aprisionando.

Observação importante

Eu não quero ser uma dessas pessoas nostálgicas que acham que a internet de antigamente era melhor. Sei que não é bem assim, hoje temos acesso a muito mais conteúdo e podemos ouvir as vozes de pessoas e grupos marginalizados. O que estou tentando fazer é oferecer uma visão crítica, uma visão de quem acompanhou a popularização da internet e também a visão de quem está cansada. Eu realmente acredito que precisamos repensar a forma que produzimos e consumimos conteúdo.

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* Achei importante fazer uma mea culpa aqui. Eu sei que meu blog tem um monte de propaganda de AdSense. Isso é necessário, porque com elas eu pago a hospedagem e o domínio, contas anuais do blog. Eu tenho recebido bem menos dinheiro com o blog ultimamente, até porque certamente as pessoas preferem pesquisar sobre Meteorologia lá no ChatGPT. Vocês sabiam que o ChatGPT já tem mais usuários que a Wikipedia? Ou que o ChatGPT está fazendo reduzir o tráfego do Stack Overflow? Pois é.

Bom, em meio a essas propagandas que aparecem no Meteorópole, há muitas propagandas de bets e outros sites e apps de apostas. Eu não me sinto confortável com isso, mas eu preciso desse dinheiro. Acreditem, são centavos diários, que ao longo do mês, se acumulam em poucos dólares (menos de 10 dólares por mês, atualmente). Não recebo valores absurdos como os influencers que ativamente mostram os apps de aposta em seus celulares e que ganham dinheiro conforme seus seguidores fazem as apostas e perdem dinheiro.

Eu realmente queria ter uma vida absurdamente confortável, financeiramente falando, na qual eu pudesse tirar esse dinheiro do bolso sem nenhum problema pra pagar essas despesas importantes do blog. Já pensei em profissionalizar isso, criar um programa de recompensas com base no apoio financeiro dos leitores, mas isso exigiria de mim uma responsabilidade e atenção à prazos e promessas. Eu teria que sair do blog também, ter um canal, podcast ou sei lá. Eu realmente não tenho tempo e nem energia para isso, já que possuo outras prioridades. Só quero continuar escrevendo aqui por amor e lazer, pra conhecer leitores, trocar ideias e organizar minhas próprias ideias.

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