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A Metamorfose – Franz Kafka: a gente só serve quando tem alguma utilidade

A história de A Metamorfose, por ser muito conhecida, está entranhada em nossa atualidade. Já vi inúmeros memes sobre o livro, referências em obras do audiovisual e tantas outras coisas que mostram como essa história continua sendo lembrada. A leitura foi bastante rápida, devo ter terminado em três dias. Uma história com mais de cem anos que ainda consegue nos prender só comprova, para mim, que Franz Kafka é um grande escritor.

A edição que li foi a da Montecristo Editora (a da capa que abre o post, da qual gostei bastante), conhecida por publicar clássicos populares.

Não tenho conhecimento técnico para escrever uma resenha , quero dizer, não tenho conhecimento suficiente para falar de literatura de maneira acadêmica, já que não estudei isso em nível superior. O que geralmente escrevo são minhas impressões sobre o que li. Falo da sensação que tive ao ler um livro e das reflexões que ele despertou em mim, como a simples leitora que sou.

Ao terminar a leitura, fiquei pensando em como algumas pessoas só conseguem dar valor a outro ser humano com base naquilo que ele consegue prover. Isso parece óbvio em uma sociedade tão consumista e marcada por relações de interesse. Na história, o personagem principal, Gregor Samsa, é o único de sua família que trabalha fora, sendo, portanto, o arrimo da casa. Quando ele se transforma no inseto, os familiares gradualmente se afastam dele. Sentem asco e passam a deixá-lo de lado, confinado em seu quarto. Eventualmente, a família vai encontrando maneiras de sobreviver, inclusive alugando quartos da casa para garantir uma renda. Chega a um ponto em que Gregor se torna um peso, uma complicação, porque existe o receio de que os inquilinos vejam aquela criatura horrível.

Não sei se vocês já conviveram com alguém deprimido, mas, em muitos casos, a depressão faz com que as pessoas sintam vontade de permanecer trancadas em seus quartos. Muitas vezes, a saúde se deteriora tanto que o indivíduo não consegue trabalhar nem cuidar da própria aparência. Certa vez, ouvi alguém dizer sobre uma pessoa deprimida: “Fulana virou um bichinho”. Ao ler A Metamorfose, pensei muito nessa situação que infelizmente é tão comum em muitas famílias. Também pensei em idosos e crianças, que muitas vezes são vistos como incômodo. Lembrei de situações do passado (talvez ainda aconteçam hoje) em que membros da família com deficiência intelectual eram escondidos em quartos da casa ou institucionalizados.

Por outro lado, também pensei em situações envolvendo familiares extremamente folgados e abusivos, situações que muitos viveram ou conhecem alguém que viveram. Quando você aprende a dizer não para pessoas assim, elas passam a ignorar sua existência, e você se torna o vilão egoísta da história. Uma vez, uma pessoa que me conhece desde a infância disse que “não me reconhecia mais”, porque me tornei alguém com opiniões próprias e capaz de dizer não a absurdos pregados por religiosos. Creio que situações assim também dialogam bastante com aquilo que a obra propõe.

Por fim, diria que A Metamorfose é um livro atemporal, inquietante e muito fácil de ler. Mesmo tendo sido publicado há mais de um século, continua despertando reflexões extremamente atuais sobre utilidade, afeto, exclusão e relações humanas. Foi uma leitura que me marcou bastante e recomendo muito.

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