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Reclamem o quanto puderem

Há algum tempo atrás, trabalhei em um lugar e gostei de trabalhar lá. Eu colaborei bastante individualmente e em equipe ao longo do período que permaneci naquele lugar. Nunca tive desentendimentos sérios com os colegas e os pequenos desentendimentos da convivência sempre foram resolvidos pacificamente.

Pois bem, dia desses uma pessoa me pediu uma informação e eu lhe disse que eu trabalhei nesse lugar no qual as pessoas que lá ainda trabalhavam poderiam ajudá-la. Qual não foi minha decepção ao perceber que eles um site (procurei o endereço pra passar pra pessoa) e nele havia uma menção a ex-colaboradores e meu nome não estava lá? Eu fiquei furiosa e muito, muito chateada.

Se não houvesse a tal menção a ex-colaboradores, eu não me importaria. Mas ter a tal menção e não ter meu nome lá me deixou muito chateada e me despertou certos gatilhos, que acredito que são comuns para muitas mulheres.

Quantas mulheres não receberam o devido crédito pelo trabalho que realizavam? Quantas mulheres que trabalharam como calculadoras ao longo do século XIX e XX e não tiveram seus nomes citados nos trabalhos? Eu falo um pouco disso quando falo das Calculadoras de Pickering, das cientistas retratadas em Estrelas Além do Tempo, quando falo de Klara Dan Von Neumann, etc. Eu estou me referindo especificamente ao trabalho das mulheres na área de cálculo e programação, mas já ouvi falar até de casos de mulheres que revisavam ou até escreviam um romance inteiro, para que ele fosse publicado somente com o nome de seu marido.

Muitas mulheres deixaram de ser creditadas por seus trabalhos. Muitas foram completamente apagadas, não tiveram nem seus nomes na seção de agradecimentos. Mesmo hoje em dia, muitas de nós abrimos mão de crescer profissionalmente para dar suporte aos nossos companheiros ou para cuidar dos nossos pais.

O fato de terem esquecido de colocar meu nome (e de terem lembrado de colocar os nomes dos homens) me machucou demais e despertou todos esses gatilhos que mencionei anteriormente através de exemplos. Eu lembro que fiquei muito mal no dia que descobri a ausência do meu nome, desabafei com amigas (e fui amparada <3), fiz exercícios na academia com a força do ódio e chorei muito. Eu avisei o responsável pelo lugar, informando que meu nome havia sido esquecido. Achei que ele nem iria se importar, mas, bom, já vou dar a boa notícia: a injustiça foi percebida e o crédito me foi dado. Felizmente. Parece que foi um caso de esquecimento, de material que foi pro site sem ser revisado. Eu nunca vou ter certeza que foi apenas isso, mas pelo menos meu nome está lá agora.

Eu sei que homens também ficam revoltados quando não tem seus nomes mencionados, quando sofrem injustiças assim. Mas a minha opinião (e tentei deixar isso claro no relato) é que para nós mulheres situações assim também tocam num lugar do erro sistemático. Quero dizer, algo como, de novo essa merda? Acho que dá ainda mais raiva. Em alguns casos, há tanta resignação que algumas mulheres já nem tem forças para reclamar. Porem eu aconselho: reclamem.

Reclamem. Se vocês tem razão, tem como justificar suas reclamações, se vocês tem provas, reclamem muito. Nunca deixem essas coisas de lado. Alguns poderiam dizer “ah, isso não é nada, deixe pra lá”. E me disseram exatamente isso. Expliquei que a ausência de meu nome naquela seção poderia depor contra mim, já que eu coloco minha participação naquele trabalho em meu currículo. No meu atual projeto de pesquisa, quando fui me candidatar para a vaga, mencionei que trabalhei naquele lugar. Quando é com uma mulher, escarafuncham a vida toda pra saber se a gente tá falando a verdade (e sim, infelizmente já pegaram mulheres mentindo sobre seus currículos algumas vezes). Eu gosto de ter tudo certinho e comprovado, para não gerar nenhum tipo de dúvida. E eu gosto de justiça. Quem não gosta?

Reclamem, queridas. Não deixem de reclamar. Meu coração está em paz agora, pelo menos no que diz respeito a essa questão.

Imagem que abre o post: Imagem de Hello Cdd20 por Pixabay

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