|

A IA roubou meu lanche!

Confesso que essas discussões sobre o uso da IA são pra mim, em sua grande maioria, muito irritantes. Não porque eu não veja problemas em usar IA generativa. Na verdade eu tenho muitos questionamentos éticos que vão desde de a falta de transparência de como esses modelos foram treinados até a maneira que as pessoas tem usado esses recursos, quero dizer, sem qualquer cuidado ético e muitas vezes comprometendo sua própria capacidade cognitiva.

O que me irrita é que as discussões, em geral, são muito binárias. De um lado, aqueles que usam IA para tudo e fazem aqueles anúncios pavorosos que temos visto em todas as barraquinhas de cachorro-quente do Brasil. Do outro lado, aqueles que encarnam um ludismo 4.0 e chamam os large language models de gerador de lero-lero e frequentemente colocam-se em um patamar de superioridade moral por supostamente não usarem IA pra nada.

Em algumas situações, acho o uso de IA generativa muito interessante. Uma vez escrevi um texto sobre como esses serviços podem ajudar no planejamento de aulas. Eu estava sendo muito otimista e estava até empolgada na ocasião, mas uma coisa é certa: eu sempre tive a certeza que o uso deve ser supervisionado. Se eu peço pro ChatGPT me ajudar a planejar uma aula, preciso revisar todos os tópicos e ver se está alinhado com o que pretendo apresentar.

Além disso, não recomendo que ninguém compartilhe informações sensíveis ou confidenciais com qualquer serviço de IA generativa. Falando especificamente do recorte na pesquisa científica, uma vez que o CNPq regulamentou o uso de Inteligência Artificial Generativa (IAG) na pesquisa científica por meio da Portaria nº 2.664/2026, que instituiu a nova Política de Integridade na Atividade Científica. Essa norma não proíbe o uso da IA, mas exige total transparência, responsabilização integral do pesquisador humano e veda o uso da tecnologia por pareceristas na avaliação de projetos.

Vou participar de um simpósio acadêmico em novembro e submeti dois resumos expandidos, além de participar como coautora de outros trabalhos. Uma das exigências, ao submeter o resumo, era preencher e assinar um formulário sobre o uso da IA no trabalho. Essa portaria do CNPq não impede que o pesquisador use a IA em etapas de seu trabalho, mas exige transparência e isso fica bem claro com esse exemplo que acabo de dar. No entanto, os revisores dos trabalhos desse simpósio não podem pegar meu resumo expandido e colocar na IA para que ela avalie. A avaliação tem que ser totalmente humana, pelo menos é dessa forma que interpreto a portaria.

Ano passado fui revisora e avaliadora de um evento científico e nem passou pela minha cabeça copiar e colar o trabalho num ChatGPT da vida. No entanto, apareceu em um dos trabalhos que avaliei o nome de um método estatístico que eu não conhecia. Coloquei o nome desse método no ChatGPT que me explicou, me forneceu algumas equações e eu pude entender, porque me foi apresentado de maneira muito sucinta e clara. Depois, desconfiada que sou, procurei em algumas fontes acadêmicas sobre o assunto e confirmei que o modelo nesse caso não estava alucinando.

Recentemente fiz um curso sobre IA e já no meio do curso, fiquei desapontada. Num certo momento, o professor ensinou a criar um gem/GPT pra fazer a avaliação de um texto científico e eu fiquei bem desapontada com a normalização de algo que não é ético. Outras coisas que foram ensinadas no curso eram interessantes e éticas, mas isso que pontuei me deixou preocupada, pelas razões que mencionei anteriormente.

Por ainda ser uma ferramenta nova, ainda há muitas discussões a respeito sobre o uso desses modelos. Ainda estamos na base do ‘use com bom senso’, mas será que vai ficar apenas nisso? Outro dia li um texto que sugere que a IA generativa vai aprofundar desigualdades no ensino. Infelizmente não consegui encontrar o texto novamente, mas o texto se baseava na hipótese de que um estudante que pode utilizar IA paga terá melhor rendimento do que aquele que está usando o modelo gratuito. Faz sentido, infelizmente. Como tudo no capitalismo tardio, as inovações obviamente surgem para aprofundar desigualdades pré-existentes.

***

Mas vamos voltar ao uso da IA generativa de imagens, aquela que fez com que todas (desculpe pela hipérbole) as barraquinhas de cachorro quente e sorveterias do Brasil apresentassem o mesmo tipo de arte estranha, sem alma, nos cartazes, folhetos e letreiros. Não sei vocês, mas eu já sinto falta de coisas assim:

Barraquinha de churrasco de rua com o nome "Harry Potter e a linguiça filosofal".
Um desenho bem simples mostra o personagem segurando um espetinho. No cardápio, espetinhos variando de 1 real a 1,5 tem nomes como "Linguiça Filosofal" ou "Carne de Askaban". Os outros nomes dos espetinhos também fazem referência a série, mas não consigo ler direito porque a imagem está em baixa qualidade.

Também sinto falta desses preços.

Dia desses, meu filho mais novo participou de uma atividade com sua turma. Eles precisavam fazer um cartaz, atentando para a disposição do título, informações e escolha das imagens. As crianças fizeram desenhos de animais sendo vacinados, porque o objetivo era criar um cartaz sobre a importância da vacinação de animais de estimação. Com as ferramentas que eles tinham (lápis de cor e canetinha) eles elaboraram os desenhos e junto com a professora, selecionaram também quais informações deveriam ser apresentadas nesse cartaz.

Essa atividade lúdica e muito bem conduzida pela professora me fez pensar na época em que pequenos comércios de rua que não podiam pagar pelos serviços de um designer ou de um especialista em criação de marca faziam isso. O cara fazia um desenho engraçado, chamava o sobrinho que tinha alguma noção sobre o assunto e se virava, fazendo algo simples. A gente sabia onde ficava a sorveteria, conseguia comprar açaí e cachorro quente do mesmo jeito e ainda se divertia com a arte curiosa (feia? bonita? engraçada? criativa?) do lugar.

Sempre tinha a história da sorveteria com pinturas meio tortas na parede e coisas assim. Tinha o restaurante com nome estranho ou cardápio cheio de fotos profissionais que não tinham nada a ver com o que era servido. Sim, até as fotos, mesmo que propaganda enganosa, eram melhores. Outro dia eu soube de imagens de pratos feitas por IA. Com tanto curso e com tanta dica gratuita sobre fotografar produtos com celular, tem gente que tem coragem e cara de pau de oferecer imagens geradas por IA.

Bom, deve ter sociólogos estudando essas coisas, eu só venho aqui para ser nostálgica, reclamar e me preocupar. Saudade dos lanches honestos.

Imagem de destaque: Imagem de eslfuntaiwan por Pixabay

Posts Similares

Comente