Do outro lado: avaliei pôsteres em um simpósio científico.

Contei para vocês que recentemente fiz uma apresentação totalmente em inglês pela primeira vez. Estou muito grata por ter conseguido apresentar, apesar das dificuldades. Estou com aquela sensação de que eu merecia um troféu, sabe? Não é sobre uma ‘competição com outras pessoas’, não é isso. Trata-se de vitória pessoal e superação. Ainda estou digerindo essa experiência, que para mim foi muito intensa e desafiadora.
Essa apresentação foi na terça feira da semana passada. Após a apresentação, tive algum feedback por parte da audiência, que me recomendou uma fonte de dados que pode me ajudar. No mesmo dia, no período da tarde, tive outra experiência do mundo científico: eu avaliei pôsteres no 12° SICAA (Simpósio de Ciências Agrárias e Ambientais), evento organizado pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia). Já apresentei muitos pôsteres na minha época de aluna de graduação, durante eventos de iniciação científica que a USP promovia. Também apresentei pôsteres divulgando meu trabalho na Estação Meteorológica do IAG-USP e já levei pôsteres até para eventos em outros estados. Ou seja, tenho alguma experiência nesse assunto e dessa vez eu estava do outro lado, na avaliação do pôster.
Eu já havia avaliado alguns resumos do evento, há alguns meses. Um dos pôsteres que avaliei correspondia a um dos resumos que eu havia recebido e avaliado. A avaliação dos pôsteres consistia em confirmar o título do trabalho, verificar se quem apresentava o pôster era realmente um dos autores (e qual deles) e ouvir uma explicação do trabalho, conversar com o participante e fazer perguntas. Eu fazia questão de parabenizá-los por estarem ali, porque sei que para muitos não é fácil.
Eu avaliei trabalhos muito bons, numa atmosfera muito agradável de bate-papo. Não senti os apresentadores nervosos ou coisa assim, eles simplesmente falaram sobre suas pesquisas como se estivessem conversando com um colega, como tem que ser. Gostei muito dessa maturidade das pessoas com quem conversei (eram cientistas bem jovens) e isso me ensinou, sem dúvidas. Eu sempre fui uma pessoa um tanto pilhada, estressada. Eu cobro muito de mim mesma e minha baixa autoestima (principalmente no passado) me fazia até passar mal em eventos assim.
Vou falar brevemente sobre os trabalhos que avaliei, apenas para contar para vocês, como curiosidade mesmo.
O primeiro trabalho era sobre o uso de um bioproduto agrícola a base de colostro de leite de vaca para ser usado como insumo no cultivo da soja e os resultados eram muito promissores. O segundo trabalho foi sobre o plantio de árvores em campi universitários, uma revisão bibliográfica mostrando iniciativas em cerca de 30 universidades, indicando se as espécies usadas eram nativas ou não. Finalmente, o terceiro trabalho era sobre apreensão de madeira ilegal, proveniente de desmatamento e sobre as épocas em que esse tipo de crime é mais registrado.
As temáticas desses trabalhos, como vocês podem ver, são muito pertinentes, atuais e relevantes. Ciência de qualidade é produzida nas universidades brasileiras e infelizmente isso é pouco divulgado e pouco valorizado.
Gostei demais de participar do processo de avaliação de trabalhos para esse evento e espero poder participar ano que vem também e em outros eventos do tipo. Aprendi muito e adorei conhecer os trabalhos que avaliei e outros que pude conferir enquanto andava pelos pôsteres.
Na área acadêmica, em um dia você é avaliado e no outro pode ser o avaliador. Não temos que tratar isso com “ser um carrasco, vou aproveitar pra descontar tudo que sofri”. Temos que pensar em quebrar ciclos, incentivar e trocar conhecimento e aproveitar para permitir que o ambiente acadêmico seja também um ambiente de gentileza, porque nenhuma pessoa nesse mundo merece trabalhar em um ambiente hostil. Para mim, isso significa fazer ciência.
