As mudanças climáticas vão intensificar ou enfraquecer o transporte de areia do Saara para fora do deserto?

A imagem acima foi obtida com o sensor VIIRS (Visible Infrared Imaging Radiometer) do satélite Suomi NPP, da NASA-NOAA. A imagem é de 4 de junho de 2021, registrando transporte de poeira do deserto do Saara para o Atlântico em direção às Américas. Ao fazer uma animação começando no dia 4 de junho e se estendendo até o dia 7 de junho usando imagens desse satélite, temos o transporte acontecendo da costa africana em direção ao meio do Atlântico, eventualmente chegando até às Américas.

A animação foi feita usando uma interessante ferramenta da NASA chamada WorldView.
O transporte de poeira do deserto do Saara para fora do deserto não é incomum. Frequentemente acompanhamos casos desse transporte ocorrendo para a direção norte (e com a areia chegando no Mediterrâneo) ou para a direção leste (com a areia chegando nas Américas). Inclusive quando a areia fininha chega na América do Sul ela fica suspensa no ar e age como material higroscópico que contribui na formação de nuvens na Floresta Amazônica. Esse assunto foi abordado na edição 161 da Revisda FAPESP, onde são apresentadas algumas informações publicadas em um artigo da Nature que mostra os resultados de medições de aerossóis na Região Norte do Brasil.
De acordo com pesquisadores ouvidos pelo Earth Observatory, da NASA, os dados dos satélites (Terra, Aqua, CALIPSO e Suomi NPP) e de estações meteorológicas de superfície podem mostrar como os padrões de circulação atmosférica podem carregar essa poeira ao longo de uma distância tão grande.
Um padrão atmosférico chamado jato oriental africano (African easterly jet – AEJ), que é um padrão associado às ondas tropicais (que ajudam na formação dos furacões), é um dos padrões atmosféricos semi-permanentes que ajuda a exportar a poeira do deserto em direção ao Atlântico. Uma vez no Atlântico, essa poeira sofre então a influência da Alta Subtropical do Atlântico Norte (AH, de Azores High, como também é conhecida), um padrão permanente da atmosfera. A AH pode então transportar a poeira para a região do Caribe. Uma vez próxima da América Central, essa poeira pode sofrer a influência de outros padrões de circulação (alíseos, por exemplo) e ser transportada para parte da América do Norte e para parte da América do Sul, dependendo do padrão dominante na época do ano em questão.
As mudanças climáticas podem modificar esse padrão de transporte?
Vários estudos recentes ofereceram ideias diferentes sobre o futuro das tempestades de poeira e do transporte na África. Alguns pesquisadores afirmam que as tempestades de poeira tendem a se tornar mais intensas e frequentes com as mudanças climáticas. Com a expansão do deserto em direção ao Sahel, haveria mais material para ser transportado. E se as tempestades ficarem mais fortes em um mundo em aquecimento, todo esse vento poderia transportar mais poeira para fora do deserto.
Por outro lado, uma equipe de pesquisa liderada pelo cientista atmosférico Tianle Yuan, do Goddard Space Flight Center da NASA, usou uma combinação de dados de satélite e modelos computacionais para prever que as plumas de poeira anuais da África podem realmente encolher no próximo século. Eles argumentam que as mudanças nas temperaturas do oceano podem reduzir a velocidade do vento predominante e, portanto, o transporte da África para as Américas. Esses pesquisadores também observaram que as mudanças do vento podem influenciar na quantidade de umidade que flui para a África, levando a mais chuvas e vegetação nas poeirentas regiões do Saara e Sahel. Eles afirmam que o aquecimento global pode trazer uma redução de 30% na atividade de poeira do Saara nos próximos 20 a 50 anos e um declínio contínuo além disso.
Essas informações foram publicadas no Earth Observatory.
Sendo assim, ainda não há um consenso na comunidade científica sobre o futuro do transporte de poeira do Saara para fora da área do deserto. Serão necessários mais estudos e novas abordagens para chegarem a uma conclusão definitiva sobre essa questão.
***
Manda um pix para ajudar a pagar a hospedagem e o domínimo e assim manter esse conteúdo no ar: samanthansm@gmail.com
