É preciso decolonizar o ensino das estações do ano

A figura acima é muito parecida com a que encontrei em um livro didático novo (de 2020) do primeiro ano do Ensino Fundamental, dentro do capítulo de Geografia. No livro, a figura aparecia dentro de um contexto no qual o aluno deveria escrever quais estações do ano eram essas. Ah sim, era um livro daqui do Brasil, para melhor contextualizar.
Ocorre que o Brasil é um país em que a maior parte do território encontra-se na Zona Tropical. Na Zona Tropical, o que caracteriza os climas é a estação seca e a estação chuvosa, já que a quantidade de radiação solar recebida pouco varia ao longo do ano (o famoso ‘Sol o ano inteiro’). Embora tenhamos um inverno com temperaturas mais amenas em locais como São Paulo ou Mato Grosso do Sul, muito raramente temos neve (só ocorre em poucos lugares na Região Sul). Entretanto, conseguimos identificar perfeitamente a existência de uma estação seca e de uma estação chuvosa.
Se você quiser saber um pouco mais sobre esse assunto e gosta de podcasts, recomendo o episódio 461 do SciCast, em que falei brevemente sobre os diferentes climas do Brasil. Também falamos sobre a seca e suas consequências na economia.
Diversos pesquisadores da área de Didática e de Psicologia da Educação reforçam que o conteúdo ensinado faz mais sentido quando é próximo da realidade do aluno. David Ausubel, um importante psicólogo cognitivista, diz que a aprendizagem significativa acontece quando o aluno relaciona o conteúdo novo com aquilo que ele já sabia. Quando isso ocorre, Ausubel fala em ancoragem do conhecimento: o conhecimento fixou-se no aluno porque fez sentido para ele. Quanto mais se sabe, mais se aprende, dizia Ausubel.
Um aluno que mora no Trângulo Mineiro e cuja família tem um pequeno sítio na zona rural de sua cidade entende que a estação chuvosa é aguardada por todos. Quando chove, o aluno sabe, a colheita de milho é mais farta e todos se unem para fazer pamonha. Se o professor chega na sala falando em quatro estações do ano no maior estilo “As Quatro Estações – Sandy & Jr.“, não tem como a ancoragem acontecer. Esse aluno só viu neve pela televisão, nunca viu o chão forrado de folhas avermelhadas e só usa gorro quando a avó preocupada fala que vai pegar sereno na festa de São João.
Os professores e os alunos precisam se apropriar do conhecimento sobre o clima do Brasil. Discutir situações reais usando climogramas locais, tabelas, fotografias que mostram as mudanças nas paisagens na estação seca e na chuvosa, etc.
Os primeiros livros didáticos brasileiros foram traduções de materiais franceses e naturalmente refletiam a realidade dos alunos franceses. Embora muito se tenha avançado em termos de materiais didáticos no Brasil nas últimas décadas, com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) sendo um norteador para a elaboração dos materiais, tenho a impressão que temos muito a superar. Para formarmos alunos dispostos a proteger o ambiente e compreender as mudanças climáticas, precisamos que os estudantes relacionem o que eles aprendem na escola com o que eles já conhecem. Isso só é possível com um ensino honesto que valorize o que está ao redor do aluno. Nós não temos as belas cores do outono, mas temos a beleza das chuvas e o verde das paisagens quando elas finalmente chegam.
No presente texto, falei do regime de chuvas no norte da Região Sul, Região Sudeste, sul da Região Nordeste e Região Centro-Oeste. O Brasil possui diversos climas (falei sobre o assunto nesse post).

Que texto cheio de realidade e atualidade. Que a nova BNCC e os materiais didáticos estejam abertos a essas reflexões.
Querida amiga, que bom ver você por aqui.
O bom das BNCC (e quem me falou primeiro sobre elas foi você 🙂 ) é que elas dão muita liberdade aos professores. Que as secretarias de Educação invistam em iniciativas de formação variadas e que melhorem as condições de trabalho dos professores.
Beijos :*
Importante reflexão sobre o tema, gostaria de ver um material didático com uma reflexão desse tipo. Imagina no Norte, onde o “verão amazônico” não bate com o astronômico.
Olá!
Vim parar aqui por causa do texto “Urubus no anemógrafo”, de 2013, e adorei tudo que li até agora.
Estou realizando uma formação com professores de Geografia do Piauí, para implementação da BNCC, e seu texto me pareceu bastante oportuno, já que um dos temas é a aprendizagem significativa.
Vou utilizá-lo devidamente referenciado. Muito obrigado!
Continue escrevendo…
Obrigada, Alex! Seja bem-vindo