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Celebrity: fetichismo da mercadoria e imperialismo europeu

Cena de Celebrity, dorama da Netflix

Sempre que um professor problematiza uma produção audiovisual, vem alguém falar “ah, mas é entretenimento, deixa as pessoas se divertirem”. Eu me divirto mas também problematizo, porque precisamos exercer uma visão crítica sobre o mundo.

Os professores desejam que os alunos abandonem a visão ingênua do mundo e passem ter uma visão mais crítica e observem de fato a realidade material e suas contradições, mesmo que nesse processo ocorram eventuais exageros de problematização. Todos estamos sujeitos a exagerar na problematização, recentemente vimos isso acontecer em textos sobre o filme Barbie.

Hoje vou falar do dorama Celebrity, produção que explora a vida de um grupo de influencers sul-coreanas. No dorama, as personagens são capazes de tudo para se manterem no topo. Alianças, falsidades, intrigas, boatos espalhados, bolsas falsificadas, crimes encobertos e a exposição de uma falsa vida perfeita no Instagram: esses elementos todos aparecem na produção.

O uso de tintas exageradas são características dos doramas. Quero dizer, são situações que exageram o que ocorre na realidade. Eu não conheço a cultura sul-coreana o suficiente, mas tenho quase certeza que a linguagem novelesca dá uma exagerada nas coisas do cotidiano (como nas novelas brasileiras).

Vou destacar duas coisas que observei em Celebrity e que são temas tratados nas aulas de Geografia, História e Sociologia. A primeira delas é o fetichismo da mercadoria.

O fetichismo da mercadoria refere-se à atribuição de características místicas ou sobrenaturais às mercadorias no contexto do capitalismo. Marx argumentava que dentro do capitalismo as pessoas tendem a ver as mercadorias como entidades autônomas com poderes quase mágicos, como se tivessem valor intrínseco ou independentes do trabalho humano que foi empregado para produzi-las. Assim, o valor real da mercadoria é obscurecido pelo preço de mercado e pelas relações de troca. As pessoas passam a acreditar que o valor das mercadorias é inerente a elas, quando, na verdade, esse valor é uma construção social e econômica.

Na série, roupas e bolsas de grife são amplamente ostentadas, como ocorre em outros doramas que já assisti. Os closets das personagens ricas são maiores que os apartamentos da classe trabalhadora e as bolsas são expostas em vitrines iluminadas como se fossem obras de arte ou artefatos arqueológicos de valor inestimável. Elas se assemelham a imagens ou divindades, como altares. O desejo por essas bolsas é tão grande que leva algumas personagens da trama a comprarem bolsas falsas, réplicas quase perfeitas. Uma delas mora em um apartamento modesto, mas ao fundo de seu pequeno estúdio de lives para Instagram exibe prateleiras impecáveis com réplicas perfeitas orgulhosamente dispostas e nos diálogos, frequentemente aparece o menosprezo à quem não usa roupas de grife.

Esses são claros exemplos do fetichismo de mercadoria, reforçado com uma tinta forte na série, mas que não é algo imaterial. Vemos isso com frequência no Instagram. Outro dia vi a foto de uma senhora jantando em um restaurante bacana e a bolsa estava em primeiro plano na foto, bem em cima da mesa. Se a bolsa tivesse sido comprada em uma loja popular, de certo ficaria penduradinha na cadeira.

Espero que fique claro que não estou fazendo um julgamento moral sobre os consumidores de artigos de luxo. Não é meu universo e talvez se eu tivesse grana sobrando, eu compraria. O que quero mostrar aqui é um fenômeno que ocorre na sociedade, que foi comentado por Marx e que parece ter se intensificado com as redes sociais. Acredito que muitas vezes quando dizem que os professores estão doutrinando os alunos, estamos na verdade lhes mostrando a realidade material (a vida como ela é) de maneira bastante sincera.

A segunda coisa que eu queria comentar no dorama tem relação com o imperialismo. Ele se manifesta na série através das próprias grifes das bolsas. Eu tenho certeza que há fabricantes de bolsas na Coreia do Sul, assim como há no Brasil, para todos os gostos e bolsos. Mas, no caso das bolsas, por que sempre o objeto de desejo é o item europeu? Desde a Guerra da Coreia e com a ocupação dos EUA, a Coreia do Sul se tornou um país com uma quantidade expressiva de cristãos: cerca de 40%, de acordo com esse texto (mas vi algumas fontes apontarem até 50% e outras apontarem menos de 40%). A religião é usada como forma de impor a hegemonia cultural e ela acaba se relacionando também com as relações de consumo.

O dorama não tem como objetivo ir tão a fundo nas críticas sociais. A crítica é muito superficial, ou seja, alerta sobre a falsidade no mundo das influencers, aquela coisa que muita gente percebe e comenta. São assuntos que precisamos discutir com os alunos, para que não caiam em armadilhas que consomem nosso tempo, dinheiro e distorcem a visão que temos de nós mesmas.

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Não tem nada a ver com o tema do post, mas o Spin de Notícias de hoje é obra minha. Nele, falo sobre o fenômeno El Niño. Confiram!

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