Conversando com outro ser humano

Em Minas Gerais, eu aprendi a bater papo. Estou longe de ser uma mestre nisso. Ainda sou meio enferrujada e, muitas vezes, não sei como continuar certas conversas. Mas, se me comparo com a Samantha de seis anos atrás, percebo que hoje sou uma pessoa muito mais agradável.
Ontem precisei ir ao pronto atendimento. Estou há alguns dias com alguns sintomas chatinhos e achei que valia a pena investigar. Fui atendida por uma médica jovem, devia ter uns trinta e poucos anos. Muito gentil e educada, me escutou com atenção, explicou detalhes do meu hemograma e, no final, ainda batemos papo.
Começamos a falar sobre São Paulo. Ela me contou que havia feito algumas provas de residência por lá. Depois falamos sobre arte: comentou da última vez em que foi à Pinacoteca e de como adorou a exposição da artista argentina Marta Minujín, que eu não conhecia e acabei descobrindo por causa dela. Nos despedimos e eu saí feliz por ter sido tão bem acolhida.
Sei que muita gente vai dizer que um bom atendimento médico é o mínimo. E é mesmo. Mas aqui em Minas Gerais eu sinto algo diferente , embora talvez eu simplesmente tenha tido azar em São Paulo e sorte aqui. O que escrevo é sempre baseado na minha experiência, então só posso falar a partir dela.
Em São Paulo, passei por médicos que mal olharam na minha cara, não fizeram exame físico e, em alguns casos, foram realmente mal educados, além de frios. Aqui em Minas, fui bem tratada em muitas ocasiões e percebi esse toque específico que valoriza o fato de que, numa consulta, existe também uma relação humana.
Aliás, isso vale para tudo: uma corrida de aplicativo, uma ida ao supermercado, um restaurante. São relações humanas. E, nesses contatos, acho importante tentar ser agradável. Para mim, isso não deveria ser opcional. Educação básica, gentileza recíproca, evitar assuntos explosivos e conversar sobre temas leves, atuais ou de interesse comum. Simples. Aqui em Minas, essas coisas me parecem muito naturais.
Outro dia vi um vídeo da Rosana Hermann no Instagram contando que teve uma conversa agradável com um motorista de aplicativo durante uma corrida relativamente longa. No fim, ele confidenciou um pouco triste que ela havia sido a primeira pessoa a conversar com ele naquele dia.
Isso me marcou.
Hoje em dia, parece até estranho puxar conversa. Existe até a opção, naquele aplicativo famoso de transporte, de avisar que você não quer conversar com o motorista. Claro, existem experiências ruins. Tem a lenda do motorista bolsonarista. Tem também a figura do médico “de elite” que menospreza pobre. Essas pessoas existem, sem dúvida, mas não representam categorias inteiras.
E, mesmo quando alguém entra num assunto que você não gosta, talvez a gente também precise reaprender a contornar a situação: mudar de tema, conduzir a conversa para outro lugar ou simplesmente sair de cena sem transformar tudo em conflito.
No fim das contas, acho que desaprendemos um pouco a conviver. E talvez uma das coisas mais bonitas de Minas seja justamente essa insistência tranquila em continuar tratando desconhecidos como gente.
Imagem que abre o post: Imagem de Mayra Swann por Pixabay
