Jogando xadrez com pombos

Recentemente, a realização de um debate entre o historiador Jones Manoel e o estudante de história e militante de direita Wilker Leão dividiu opiniões entre as pessoas que se identificam com a esquerda. Não há dúvidas que Manoel se destacou no debate, por ter um maior repertório e ter uma melhor retórica. Leão, por outro lado, ainda segue aquela fórmula do sujeito que tumultua aulas e constrange estudantes em universidades, fórmula essa que não é nova e foi sucesso com o Arthur do Val, por exemplo.
Mas será que debates assim são frutíferos? O que vou expor aqui é minha opinião com algum embasamento em notícias, mas também há um tanto de pessimismo de minha parte. Eu não acredito nesse tipo de debate, porque para mim cai na mesma caixa inútil de “ouvir o outro lado” quando o outro lado está completamente equivocado. Sabe, como aqueles debates criacionismo x evolucionismo (?), aquecimento global x negacionistas e outros exemplos. Trata-se de um tipo de debate no qual um lado é preparado e traz evidências científicas e o outro traz evidências anedóticas e falaciosas. Um debate entre Jones Manoel e Wilker Leão me parece muito similar a essa ideia. Leão é um sujeito que usa argumentos questionáveis e descabidos como “brancos também foram escravizados” em aulas sobre história do continente africano. Ele também grava pessoas sem consentimento e distorce suas falas. Debater com uma pessoa dessas, ao meu ver, é uma completa perda de tempo. Evidentemente Manoel traz em sua fala de maneira clara seu posicionamento político, porém ele embasa o que diz com leitura e dados. Portanto, penso que somente é frutífero ver Manoel debatendo com pessoas que elevam o debate dessa mesma maneira, que possuem lastro intelectual como ele, tanto que gosto de acompanhá-lo nos podcasts que ele participa.
Mas além dessa constatação, há uma outra questão: as redes sociais já são terreno da direita e até da extrema direita há algum tempo. Conteúdos de extrema direita são facilmente disseminados no Facebook, no Instagram, no X, no TikTok, etc. Há diversas evidências que essas plataformas privilegiam o espalhamento e o alcance conteúdos extremistas e que dividem opiniões. Um debate nas redes sociais, portanto, é como jogar no time adversário com um juiz ladrão. Não me parece justo. Cortes (vídeos curtos) desse debate foram feitos, que podem ser facilmente manipulados e que viram conteúdo rápido que se espalha no WhatsApp. As pessoas acreditam no que elas já estão inclinadas a acreditar e nem preciso falar como isso já se mostrou perigoso e tende a se tornar ainda mais, com bots e inteligência artificial generativa.
Sinceramente, eu não sei como consertar essa bagunça. Não sei como fazer um trabalhador perceber que o sistema é injusto pra ele, que ele é explorado, que um grupo muito pequeno detém os meios de produção e outras questões que o atingem diretamente, até porque os sindicatos estão cada vez mais desmantelados. A própria ideia de um indivíduo trabalhador tem sido atacada, já perceberam o tanto de piadas que fazem com CLT e carteira de trabalho?
Não faço ideia como colocar na cabeça das pessoas que as discussões sobre aborto e drogas são questões de saúde pública. As pessoas já estão tomadas pelo extremismo religioso, não compreendem que devem separar Estado e religião. Como vou explicar para elas que o casamento homoafetivo é apenas um casamento em um cartório para garantir direitos legais aos cônjuges, que nada tem a ver com igreja?
Não sei mais o que fazer. A coisa escalou de um jeito tão grande nos últimos anos que eu não acredito mais no trabalho de formiguinha, não sei se vamos dar conta de resolver alguma coisa dentro da sala de aula. Nas escolas públicas, o sucateamento. Nas escolas particulares, pais que querem terceirizar todos aspectos da educação.
Deixar completamente as redes sociais também não me parece a solução, já que a mobilização coletiva de fato faz alguma coisa. Como exemplo, há cerca de uma semana, o biólogo e youtuber Pirulla sofreu um AVC e está hospitalizado. Uma pessoa muito querida pelo seu trabalho dedicado e reconhecida por sua inteligência e educação, vai ficar um tempo sem produzir conteúdo até que se recupere. Tenho visto uma mobilização muito bonita para que seus vídeos fiquem em destaque, com pessoas que o admiram e acompanham seu trabalho revendo todos os vídeos. Eu estou revendo e convido você a rever também. Pois bem, já tenho observado que os números dele estão subindo e o Youtube está recomendando seu conteúdo. Claro que faz alguma diferença exaltar bons conteúdos, como o do Pirulla, o do Jones Manoel e tantos outros. Porém não me parece o suficiente.
O futuro me parece tão sombrio.
