Nós damos conselhos de maneira autoritária

Esse tipo de reflexão nem é tanto o ‘tema’ do blog, mas eu recebo muitos visitantes que são professores como eu e que talvez se identifiquem com essa reflexão.
Durante a prática docente – eu me refiro a todo o processo: estudos, estágio, prática, reflexão, etc -, é normal surgir uma reflexão distante sobre nosso passado como estudante da Educação Básica. Eu tenho pensado muito sobre as escolas que estudei, sobre as professoras e professores que tive, sobre todos os adultos que me cercavam, sobre o processo de ensino-aprendizagem ao qual fui submetida, etc. E eu encontrei algo muito presente em todos os momentos: autoritarismo.
Fui aluna da Educação Básica do final dos anos 80 e ao longo de todos os anos 90. Acho importante contextualizar os leitores sobre o momento histórico que vivíamos. Era fim da ditadura e todos os adultos ao meu redor vivenciaram a ditadura de alguma maneira, mesmo que não tenham sido ativamente perseguidos por participar de movimentos ou protestos. Eles vivenciaram a ditadura mesmo sem perceber a ditadura ativamente porque o conteúdo ensinado nas escolas que eles estudaram era cuidadosamente escolhido para servir ao regime.
Sempre gostei de estudar, sempre fui muito curiosa, mas em diversos momentos eu não gostava da escola ou não gostava do professor. E os motivos sempre tem a ver com o autoritarismo, com o “não poder fazer nada”, com o “levar bronca de graça”, etc. Também me lembro bem do ensino absolutamente centrado no professor, que depositava conhecimento na gente, que não estimulava um pensar fora da caixa (ou seja, o pensamento crítico), que falava sem parar e não trazia dinâmicas para a sala de aula, etc. Claro, haviam notáveis exceções, pois vivíamos um momento pós constituição de 1988 e alguns professores militavam pela liberdade e celebravam os novos tempos. Além disso, não se aprende apenas na escola: havia meus pais, tios, avós, pessoas da igreja, da vizinhança, etc. E todos esses adultos agiam de maneira autoritária (alguns mais e outros menos).
Eu só fui entender o desconforto do meu passado estudantil durante meus estudos de Licenciatura, quando também consegui compreender como viver por mais de uma década em um ambiente ainda muito autoritário me fez ter atitudes que me acompanham até a vida adulta. Uma dessas atitudes é com relação a ideia de receber e dar conselhos.
Ao longo de minha adolescência e início da vida adulta, várias pessoas tentaram me dar conselhos. A maioria dessas pessoas foi autoritária, elas queriam que eu eu seguisse o conselho a risca, elas não davam explicações, não me acolhiam, etc. Algumas eram inclusive estúpidas, pois me julgavam e depositavam em mim uma enorme culpa sobre uma escolha ruim ou uma culpa relacionada com questões religiosas (daí é outro caso, cabem inúmeros desdobramentos). Hoje eu entendo que muitos desses conselhos eram até que bons, mas as pessoas simplesmente não sabiam conversar. E o problema não estava só na minha suposta rebeldia: essas pessoas, mais velhas do que eu, tiveram uma história de vida com ainda mais autoritarismo (viveram na época da ditadura, com um ensino ainda mais estancado e sem espaço para o diálogo, com pais mais autoritários, etc). Essas pessoas estavam acostumadas a seguir ordens exatamente da maneira como foram colocadas e reproduziam esse procedimento.
Antes de aconselhar alguém, precisamos primeiro entender se temos condições de fazê-lo. Já vivemos aquela situação? Temos algo a acrescentar? Sou próxima o suficiente para aconselhar? Se sim, então primeiro acolha. Ouça. E explique com educação, com carinho, ouvindo e estabelecendo um canal onde ocorre troca. Fale de sua experiência de vida de maneira sincera. Eu posso contar nos dedos de uma mão as vezes em que as pessoas (pais, tios, professores, etc) realmente apresentaram uma conversa assim comigo. Era sempre: “faça assim”, “você está errada”, “você é burrinha”, “você não sabe de nada”, “você não vai pro céu”, “Deus não se agrada com isso”, etc. Quando você está aconselhando outro ser humano e esse outro ser humano talvez não fará exatamente o que você sugere. Talvez você nem devesse sugerir algo, há situações em que o outro só quer ouvir seu ponto de vista, sua vivência, para então tomar uma decisão sozinho – o que é bom, todo mundo precisa desenvolver a autonomia. Conselho não é lei da natureza.
Eu estou bem feliz de ter escrito essas palavras. São como uma libertação para mim, pois finalmente pude entender o que havia de “errado” comigo. Eu estou perdendo o medo de mergulhar dentro de mim. Estou me entendendo com aquela garota da escola com as carteiras quebradas.
My heart leaps up
My heart leaps up when I behold
William Wordsworth – Leia mais sobre esse poema nesse texto.
A rainbow in the sky:
So was it when my life began;
So is it now I am a man;
So be it when I shall grow old,
Or let me die!
The Child is father of the Man;
And I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.
Imagem que abre o post: uma marmota adulta parece aconselhar duas marmotinhas mais novas. StockUnlimited
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