Nuvem colorida na China: breve explicação e alguns comentários

Talvez alguns de meus leitores tenham acompanhado a nuvem colorida que apareceu em Pu‘er, Yunnan Province, China. A cidade de Pu’er inclusive é bastante famosa por um chá fermentado muito bom que só é feito lá, mas hoje vamos falar da incrível nuvem iridescente que apareceu nessa cidade em 21 de agosto passado. Na foto que abre o post podemos ver uma nuvem Cumulus com um ‘chapeuzinho colorido’. Esse chapéu (que raramente é colorido, já falaremos disso) é chamado de pileus e é uma nuvem acessória ou anexa, uma característica que pode aparecer junto de nuvens Cumulus ou Cumulonimbus.

Nesse post eu apresento uma tabela com os 10 gêneros principais de nuvens, suas espécies e variedades. É um excelente resumo para quem se interessa por Classificação de Nuvens.
No site da Organização Meteorológica Mundial (World Meteorological Organization) temos disponível o Atlas Internacional de Nuvens (International Cloud Atlas). Há uma breve descrição da nuvem acessória ou anexa pileus e uma foto apresentada como exemplo. Vou representar a foto abaixo e podemos notar que esse pileus aparece sem nenhuma cor.

Mas por que a nuvem chinesa tinha um pileus colorido?
O fenômeno de difração nas nuvens ocorre quando pequenas gotinhas d’água ou cristais de gelo que compõe as nuvens espalham a luz solar individualmente. Se a nuvem é composta majoritariamente por cristais de gelo grandes, temos a ocorrência de halos (que é o que ocorre em algumas nuvens Cirrostratus), que é um fenômeno diferente do que observamos nessa nuvem chinesa.
No entanto, quando temos gotinhas d’água ou cristais de gelo de tamanho uniforme realizando difração e quando temos o Sol localizado num ângulo de 10º a até 40 º da nuvem, podemos ter o fenômeno de nuvem iridescente.
O efeito cumulativo de difração de todos esses pequenos elementos de tamanho uniforme (gotinhas d’água ou cristais de gelo) é visto dessa forma colorida. Além dos elementos terem tamanho uniforme e da posição relativa entre o Sol e a nuvem ser favorável, a nuvem precisa ter pouca espessura óptica para que a maioria dos raios solares encontre apenas uma gotícula. A iridescência é então vista principalmente nas bordas das nuvens ou em nuvens muito tênues e semitransparentes. Nuvens recém-formadas produzem iridescência mais brilhante e colorida, como parece ser o caso da nuvem chinesa.
Nuvens iridescentes são fenômenos incomuns, não são vistas por aí todos os dias, mas não são exatamente raras. Mas eu já comentei alguns casos aqui no blog, como esse em Itanhaém. Acredito que o que chama a atenção nessa nuvem chinesa é que a iridescência está bem destacada por não haver outras nuvens ao redor do Cumulus e do pileus. No caso de Itanhaém que comentei, a iridescência parece acontecer no topo de nuvens Stratocumulus e há muita nuvem ao redor, só conseguimos ver o colorido por uma pequena abertura de céu claro. Também já vi iridescência em topos de nuvens Altocumulus. Em outras palavras, iridescência não é um fenômeno que ocorre apenas em nuvens pileus (além disso, nem todo pileus é iridescente).
Por que alguns Cumulus desenvolvem pileus e outros não?
Geralmente qualquer nuvem acessória acima de uma nuvem Cumulus indica que está rolando muito movimento vertical, muito ar quente subindo para alimentar a nuvem. Sendo assim, essa nuvem Cumulus pode se desenvolver verticalmente e se tornar uma nuvem Cumulonimbus. Muitas vezes a formação de pileus ocorre mas logo se dissipa com o desenvolvimento vertical da nuvem. Em outros casos, não conseguimos ver o pileus porque há outras nuvens ao redor.
Demais textos sobre o assunto
- Iridescent Clouds
- Texto do TILT-Uol
- Destaque no APOD-NASA
- Perfil de Jiaqi Sun (fotógrafo que registrou a nuvem) no Weibo
- Cloud Iridescence, Wikipedia
Posts anteriores
Eu já falei sobre nuvens iridescentes em outros dois posts. Vale a pena conferir:
