Reflexões sobre o estágio em docência no Ensino Fundamental

Quando eu decidi cursar Licenciatura em Geografia – e são tantos os motivos para essa decisão que um dia posso escrever a respeito – eu temia o estágio. Era na verdade um conjunto de temores, em vários níveis que se sobrepunham, muitos dos quais relacionados com a ansiedade. Outra parte desses temores tinha relação com as mudanças na minha rotinha e em como eu encontraria horário para realizar essa atividade.
Durante a pandemia, o estágio foi impossibilitado. Acabei realizando um estágio por um plano emergencial, que consistia na elaboração de dissertações sobre diversos temas sobre o ensino remoto. Após o aumento da cobertura vacinal e com a reabertura das escolas, o estágio presencial tradicional foi retomado. Um motivo de alegria e animação, porém eu estava tão acostumada com aquele ritmo de pandemia (crianças em casa, ensino remoto do mais velho, etc) que eu fiquei com medo de me expor em um grupo grande de pessoas e ficar doente. Esse, claro, foi também o temor de muitos professores quando as escolas reabriram.
Comecei meu estágio de maneira tímida, observando as aulas de dois professores de Geografia que possuem perfis bem diferentes. Pude observar as metodologias de cada um e compreender a relação de suas escolas metodológicas com suas histórias vida pessoal e profissional. Conversei com cada um deles e fui muito bem recebida em suas salas de aula. Depois pude conversar com esses professores e aprender mais com suas histórias de vida. Conversei com outros docentes, comecei a frequentar a sala dos professores e comecei a participar de outras atividades da escola. Isso me ajudou na integração com o ambiente escolar.
Antes de começarmos o estágio, a Universidade fornece um guia que nos dá algumas dicas de etiqueta sobre como se comportar na sala de aula. É preciso ser humilde e discreta, sentando-se em um cantinho e apenas observar. Eu procurei me espelhar no exemplo de Joan Didion, jornalista que observava calada e aproveitava-se do fato de ser uma mulher pequena para parecer invisível. Apenas observar significa que é de péssimo tom fazer qualquer tipo de comentário durante a aula do colega, pois isso pode prejudicar sua sequência didática ou tirar sua autoridade. Em algumas situações os professores que acompanhei me convidaram para fazer alguma intervenção ou comentar algum ponto. Nesse caso, eu fazia algum comentário breve que não tirasse o foco da aula. O intuito é enriquecer a aula do professor e não tirar o foco do relacionamento aluno-professor.
Como meu estágio foi observando o Ensino Fundamental II, convivi com muitos adolescentes e percebi que os problemas de indisciplina estão muito intensos. Muitos professores com quem conversei me disseram que isso foi piorado no pós-pandemia, aparentemente as crianças e adolescentes perderam a noção de convivência escolar após o período de confinamento. O professor usa muito tempo da aula para tratar das questões de indisciplina e nem preciso dizer o quanto isso é desgastante para todos.
Observei também que as aulas estão do mesmo jeito que eram quando eu era criança e adolescente. Apesar dos recursos tecnológicos que temos hoje, eles não estão amplamente acessíveis. Salas com computador e projetores ajudariam muito o trabalho docente e essa não é a realidade na maioria das escolas. Muitas vezes até tem o projetor, mas ele está numa caixa escondida lá no canto da Secretaria (porque é um bem caro e que pode ser roubado) e que precisa ser transportado pelo professor de sala em sala, usando minutos preciosos de cada aula para configurar o aparelho. A própria sala nem tem uma estrutura adequada ao uso do projetor (uma parede plana e clara, iluminação adequada, etc). Além disso, ainda persiste o problema da superlotação. É muito difícil dar aulas para turmas de quase 40 alunos, o professor sequer consegue gravar o nome de todos eles.
Por fim, vou confessar que fiquei bastante desanimada com o estágio. Não fiquei desanimada com a escola ou com os professores, porque foram muito gentis comigo e me receberam bem. Fiquei desanimada ao ver que os problemas na Educação continuam os mesmos e alguns até pioraram. As aulas continuam muito tradicionais (sala de aula, lousa e professor lá na frente) e muitos adolescentes continuam odiando a escola – só a frequentam porque são obrigados por lei. Acho que ser docente é um exercício diário de esperança e resiliência, um exercício tão difícil que faz com que muitos colegas sintam-se cansados e doentes. Eu quero muito fazer minha parte, porém tendo consciência que é muito difícil dentro do cenário que vivemos. Espero que essa consciência realista me faça compreender que minhas ações são limitadas, mas não são inócuas: sempre tem um aluno aplicado tentando entender a aula e que respeita seu trabalho.
E no fim das contas, meus temores iniciais não se concretizaram. Eu dei conta, pois consegui arrumar um horário em minha rotina para estagiar. Usei máscara ao longo do estágio, a cobertura vacinal aumentou e as salas eram arejadas, então meu temor com relação ao coronavírus minimizou. Surgiram novas questões ao longo da licenciatura, novos temores, na medida que fui compreendendo a realidade docente na prática. Onde há temor também há oportunidades, então procuro me apegar nessa ideia.
No próximo post vou escrever algumas dicas de como aproveitar o seu estágio em docência. Quem for começar a cursar o estágio no semestre seguinte pode aproveitar algumas das minhas dicas, que na verdade são pequenas informações que extraí de minha vivência e de minha formação.
