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Todos os meus conhecidos tem sido campeões em tudo

Poema em linha reta é um de meus poemas favoritos. Ele foi escrito na primeira metade do século XX, mas ainda é muito atual. As redes sociais frequentemente mostram tantas ‘vitórias’ que é impossível não pensar que minha vida ficou esquecida ou que estou perdendo alguma coisa. Como se todos fossem bem sucedidos e ricos e eu fiquei para trás, perdendo um monte de coisas, tomando decisões erradas e me lascando.

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 312.

Confesso para vocês que é um exercício diário ter gratidão pela minha vida. Frequentemente preciso parar e pensar para observar e valorizar tudo de bom que está ao meu redor. Quando eu erro, preciso me lembrar que em geral são erros pequenos e contornáveis. Não posso me definir somente pelos meus erros.

Comecei a escrever esse post antes de ter consertado um desses erros chatinhos. Resumindo esse caso em particular: eu paguei um tributo de maneira errada, dei dinheiro a mais pra prefeitura. Quando eu me dei conta, eu me senti a pessoa mais idiota do mundo. Acabei descobrindo que seria possível recuperar a grana, mas daria um pouco de trabalho.

Isso me deixou muito chateada.

Bom, fui levar meu filho mais novo na dentista no dia que descobri esse erro. Ela é uma pessoa muito querida e gentil e acabei conversando a respeito disso com ela ao final da consulta, daquelas conversas que se tratam de um simples desabafo. Ela acabou me confessando que já fez algo semelhante e que no final conseguiu reaver o dinheiro. Ela me contou também que até pix errado ela fez (e a pessoa não devolveu a grana). Fiquei triste por ela, especialmente nesse lance do pix, já que não houve devolução. Fiquei pensando no quanto essa conversa me fez bem e espero que tenha feito bem a ela também. Conversando honestamente sobre as coisas, percebemos que males que nos afligem não são experiências individuais.

Num mundo onde todo mundo é espetacular e se dá bem em tudo, de uma forma bem linkedinesca e instagramável, ter em volta pessoas de verdade que compartilham suas dores, erros e vulnerabilidades é algo que traz algum alento, pois eu percebo que todos nós no final somos humanos e sujeitos a enganos e portanto não há nada de errado comigo. Ao perceber a maneira com que outras pessoas lidam com essas questões chatinhas, também aprendo a lidar de maneira mais leve.

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Recuperei meu dinheiro. Foi um pouco trabalhoso, eu tive que entrar em uma espiral de burocracia até conseguir, mas deu tudo certo. Minha sorte é que a prefeitura estava vazia. Poucos dias depois, meu dinheiro estava devolvido na conta.

Alguns leitores devem ter observado que eu não escrevi a newsletter de junho de 2026 e também ando meio devagar aqui no blog. Tenham paciência, eu estou muito ocupada na vida offline e também desmotivada e sem inspiração para as coisas da internet. Mas eu sei que isso é fase.

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Imagem que abre o post: Imagem de Lucija Rasonja por Pixabay

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