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Um mundo cada vez menos artesanal

Outro dia eu conversava com meu marido, que também é professor, e nos lembrávamos daqueles trabalhos escolares de pesquisa, super extensos, que fazíamos em nossa época de escola. Eram trabalhos com temas vagos, como “Faça um trabalho sobre Machado de Assis”. Esse trabalho poderia ser uma cópia literal de um verbete de uma enciclopédia, não haveria problema algum, alguma nota se ganharia. Não havia um objetivo na proposição do trabalho, como uma pergunta a ser respondida. Era só copiar e talvez dizer onde copiou. Sim, nós estudamos em escolas horríveis com alguns professores há muito tinham perdido a alegria de viver.

É claro que nunca foi certo propor um trabalho assim. Um desperdício de tempo e de papel. Muitos professores sequer liam o trabalho. Propor um trabalho nesses moldes atualmente é ainda mais descabido, porque o aluno simplesmente vai copiar e colar um texto da Wikipedia. Muitos alunos saem do Ensino Médio sem terem ouvido uma conversa sobre plágio e sobre a importância de produzir seu próprio texto, interpretando e decodificando o mundo.

Pois bem, hoje existe uma ferramenta chamada ChatGPT. Não é algo novo, a ideia de inteligência artificial já tem algum tempo e vem sendo aplicada há alguns anos. A questão é que as ferramentas estão ficando cada vez mais sofisticadas.

Eu testei o ChatGPT com uma pergunta bem simples, mas que trata de um conceito difícil de explicar. É o vento geostrófico:

Eu não fiquei satisfeita e queria outro texto:

Os textos produzidos tem uma qualidade muito razoável. Sabe aquele seu trabalho de selecionar e ler várias fontes e elaborar a sua própria resposta em um texto de sua autoria? Então, o ChatGPT meio que faz todo esse trabalho. Eu poderia escrever um blog inteiro só na base do ChatGPT. Eu poderia escrever trechos de uma tese de doutorado, artigos científicos, textos jornalísticos, etc. E eu tenho certeza absoluta que tudo isso já está sendo feito. Há ferramentas para identificar que um texto foi produzido dessa forma? Não fui atrás dessa resposta, mas meu palpite é que elas já existem.

Eu continuei conversando com o ChatGPT e queria saber: como você sabe dessas coisas? Então recebi a seguinte resposta:

O modelo mandou o famoso “vozes da minha cabeça”. Ou seja, ele foi treinado a partir de informações que recebeu. Quem mandou essas informações para ele? Quais fontes essas pessoas consultaram? Como selecionaram essas fontes? O ponto de vista é o da classe dominante? Qual o objetivo de quem selecionou essas fontes? Essas perguntas são para mim o grande problema de se apoiar em um serviço como esse para produzir textos, principalmente sobre assuntos que exigem um grau maior de complexidade e quando possuem muitas nuances.

Produzir um texto é um trabalho artesanal. Por exemplo, vamos pensar em um crochê. Você seleciona o que vai fazer, compra as linhas, faz e refaz carreiras, muda de ideia no meio do caminho e às vezes até desmancha tudo. Uma ferramenta como o ChatGPT deixa o texto mais industrializado. E vai ter o industrializado de baixa qualidade, mas também vai ter o industrializado bonito e muito bem feito para quem pode pagar por isso.

Não estou preocupada com o futuro da produção de textos. Ainda existem blusas de crochê nesse mundo de brusinha de 30 reais. Às vezes, brusinhas de 30 reais são boas para o dia a dia. Eu estou realmente curiosa com ferramentas como o ChatGPT e sobre novos desafios que elas vão trazer para o cotidiano da produção de textos. E como qualquer ferramenta nova, fico pensando sobre os mau usos dela. É muita coisa pra pensar.

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