Qual o segredo para passar na USP?

Para começar esse texto, vou contar uma história muito curiosa. Um colega meu cursou Licenciatura em Física, na USP. Um rapaz brilhante: estudioso e muito esforçado. Para vocês terem ideia, ele era morador do bairro de São Mateus, um bairro pobre da periferia de São Paulo. Ele trabalhou e estudou durante toda graduação. Quem conhece alunos da USP ou tem familiaridade com a Universidade de alguma outra forma, sabe que é extremamente difícil conciliar os estudos na USP e um trabalho fora do campus.
Estudei com esse colega no Ensino Médio, em uma escola pública da Penha, outro bairro de São Paulo. Depois nos reencontramos na faculdade. O pai desse colega era militante do PT. Na época (estamos falando de 1999-2002), o PT era a grande esperança do país, mas o Lula já tinha seus desafetos. No entanto, emergia como um partido de poder e esperança.
Pois bem, esse colega me contou que alguns conhecidos concluíram que ele que ele só tinha passado na USP porque o pai dele tinha envolvimento com políticos. Claro que rimos desse absurdo, porque quem falou uma coisa dessas superestimou o poder do pai dele (que era apenas um militante do partido, nada mais), não entende como funciona a FUVEST e desmereceu todo o esforço e dedicação do meu colega.
FUVEST: minha experiência
Eu prestei o vestibular da FUVEST duas vezes: uma logo após ter saído do ensino médio e um ano depois. Também prestei outros vestibulares. Na época, o ENEM era apenas uma avaliação o Ensino Médio e não tinha esse peso de vestibular. No máximo, a nota do ENEM poderia auxiliar em outros vestibulares. Lembro que quando prestei FUVEST pela segunda vez, a nota do ENEM ajudava a compor a nota da primeira fase, mas numa pequena porcentagem. Claro que essa pequena porcentagem não era desprezada, uma vez que todo mundo queria ficar acima da nota de corte para ser aprovado para a segunda fase da FUVEST. E queridos leitores, nesse processo qualquer pontinho vale!
Minha experiência, enquanto vestibulanda, era de que a FUVEST era o vestibular mais difícil e mais organizado. Talvez minha conclusão sobre a dificuldade tenha um peso emocional, já que a FUVEST era o vestibular mais concorrido. Todos queriam entrar na USP e para mim, moradora de São Paulo-SP, entrar na USP significava não precisar pagar pelo Ensino Superior e não precisar pagar aluguel em república ou pensão.
Finalmente passei no vestibular e o mundo deu muitas voltas. Acabei trabalhando com a FUVEST em 3 vestibulares, muitos anos depois. Eu fui fiscal de sala e posso dizer o que vi: não é por acaso que é o vestibular mais sério do país. Tudo é muito pensado para garantir a lisura do processo seletivo. Tudo é cronometrado e os procedimentos são perfeitamente estabelecidos. O fiscal de sala não pode “inventar” nada ali na hora. O que eu fazia era exatamente o que os meus colegas, também fiscais, faziam nas outras salas onde as provas também eram aplicadas. Tínhamos que seguir tudo o que aprendemos no treinamento a risca, com muita precisão. Como fiscal, acabei observando os procedimentos de chegada das provas e retirada das provas do local de aplicação da prova. Tudo é escoltado, com testemunhas e muita segurança.
Os fiscais de sala e corredor são autorizados a chamar a coordenação em caso de QUALQUER atitude suspeita. Por exemplo, se um candidato vai várias vezes no banheiro, ele pode estar com diarreia, mas também pode estar tentando se comunicar com alguém do lado de fora. Somos orientados a não deduzir nada: apenas chamamos a coordenação e o aluno será gentilmente questionado. Gentilmente mesmo, porque em nenhuma hipótese a gente pressiona ou deixa o aluno nervoso.
Em uma das vezes que trabalhei com a FUVEST, na sala em que fui fiscal tinha um garoto com um RG com foto infantil e sem assinatura. A foto daquela criança era completamente diferente da pessoa que se apresentava ali diante de mim, em nada lembrava! Eu tive que chamar a coordenação, pois foi uma suspeita de identidade. Fiz a abordagem com cuidado e respeito, para não deixar o vestibulando nervoso.
E é até por isso que ressalto um importante que dou aos vestibulandos: atualizem seus documentos, tenham um RG novo. Na adolescência a gente muda muito. Tenham um RG com uma assinatura decente (que você saiba reproduzir) e uma foto recente e que retrate exatamente sua atual aparência.
Sendo bastante honesta e franca, acho muito DIFÍCIL que exista uma possibilidade de burlar a FUVEST. Eu falo isso porque sempre circulam lendas urbanas de que na verdade tudo são “cartas marcadas”, principalmente nos cursos muito concorridos (Direito e Medicina, por exemplo). Há histórias sem nenhum embasamento ou provas de pessoas que pagam valores na casa de algumas centenas de milhares de reais e conseguem ser aprovadas no vestibular ou sequer passam por ele.
A verdade é mais clara e está “diante de nossos olhos”: em cursos extremamente concorridos, a maior parcela dos aprovados são pessoas com bom poder aquisitivo e que puderam estudar em colégios de altíssimo nível acadêmico, os melhores do país. Ponto. É isso. É impossível para um aluno de uma escola pública da periferia conseguir concorrer em pé de igualdade com um estudante do Colégio Bandeirantes. Vejam, não estou dizendo que é impossível que esse aluno pobre seja aprovado na FUVEST. A questão é que é EVIDENTE que para o aluno pobre o caminho é muito mais difícil. Se o que estou tentando dizer não ficou claro, convido vocês para assistirem esse documentário.
E qual o segredo para passar na USP?
Sentar a bunda na cadeira e estudar muito, muito mesmo. Tem que ter foco e muita determinação. Se puder se matricular em um cursinho pré-vestibular, faça isso. Se não puder, procure apostilas pela internet ou em bibliotecas. Faça um cronograma de estudos, estudando um pouco de cada matéria por dia. Leia o Manual do Candidato com muito cuidado para saber quais conteúdos serão cobrados no vestibular e isso é especialmente útil se você estiver estudando por conta própria, já que no cursinho o material é feito já pensando nesse conteúdo.
Siga esse cronograma adequadamente e com muita disciplina. Em uma próxima postagem, vou dar um exemplo de cronograma. No entanto, não negligencie suas horas de sono e seu lazer. Com relação ao lazer, ele vai ter que ser mais moderado. Nada de noitadas, por exemplo. Dê valor para lazer ao ar livre, faça uma caminhada ao ar livre algumas vezes por semana. Estabeleça uma recompensa. Por exemplo, se você gosta de navegar na internet, jogar videogames ou assistir séries (e fica muito tempo nessas atividades), reserve apenas 1h do dia para fazer essas coisas, desde que aquele dia tenha sido produtivo nos estudos.
Quando estiver estudando, deixe o celular de lado. Ele pode atuar como uma distração e você vai deixar de se concentrar nos estudos. Se não gosta de silêncio absoluto, tente investir em uma trilha sonora instrumental suave. Música erudita pode ajudar bastante, por exemplo.
Se você tem uma vida espiritual, não deixe de exerce-la de maneira saudável. Se você participa de um grupo de jovens na sua igreja, converse com o líder do grupo e explique que você está prestando vestibular e não vai poder se engajar muito nas atividades do grupo. Se esse líder for uma pessoa realmente boa, vai te entender, vai te dizer palavras motivadoras e vai orar por você.
Cerque-se de pessoas que te apoiam e sabem que é importante estudar. Converse com seus pais, se eles não compreenderem a importância do vestibular. Talvez seus pais não tenham tido acesso aos estudos e não compreendam o quanto é importante adquirir conhecimento. Deixe eles participarem do processo com você (mas não deixe eles fazerem TUDO por você, você já é crescidinho).
Cada um tem um jeito de estudar. Nesse post, eu dividi com vocês como eu faço e nesse outro, contei como faço meus diagramas. São apenas sugestões, pois você vai ver com o tempo qual a maneira é mais adequada para o seu caso. Alguns aprendem apenas “lendo” o conteúdo e isso pode funcionar bem em matérias da área de Humanas e Biológicas. Mas escrever resumos ou diagramas pode ajudar a fixar o que foi lido.
Na área de exatas, não tem jeito: tem que fazer exercícios de repetição. Você não vai fixar o conteúdo de Física se apenas ler os textos e decorar as fórmulas. É necessário compreender como os exercícios são elaborados e qual a mecânica correta para resolvê-los e essas coisas a gente só consegue fazer fazendo muitos exercícios.
Talvez você precise de tutoria ou aulas particulares nas matérias que você tem mais dificuldade. Na área de Matemática, por exemplo, recomendo o Matemática Orientada. Você também pode procurar por professores particulares de outras matérias no portal Profes. Se você tiver um amigo ou parente que é bom em uma matéria, não custa tentar pedir ajuda também.
Um vestibulando precisa muitas vezes de apoio moral mais do que qualquer outra coisa. Alguém que verdadeiramente apoie e acredite no seu potencial. Muitas vezes um familiar, um amigo ou um professor terão esse papel de apoiadores e isso será mais importante do que qualquer outra coisa.
E se você não for aprovado no vestibular, não desista. Num primeiro momento vai ser difícil encarar a não-aprovação, mas é necessário levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Em outros posts, pretendo falar mais sobre essa relação com o fracasso e sobre como podemos canalizar essas derrotas (que fazem parte da vida) para o nosso favor.

Nossa, até se alguém entra na USP querem o Lula no meio rsrs quando eu ficar com uma espinha, daquelas vermelhas, tenho medo de sair na rua e me chamarem de petista =P
Vi uma matéria que os alunos de escolas públicas tendem a ir melhor na graduação da USP do que os alunos de escolas particulares. Uma coisa que estava pensando é que o aluno de escola pública muitas vezes dependem muito mais de si mesmos para avançar e a escola tem menos peso. Na graduação, não tem nada mastigado (por exemplo, o ensino apostilado de muitas escolas particulares), e o aluno que já vem estudando muito por conta já chega na frente.
Essa sua hipótese faz todo sentido, Vinícius. Porque o estudante precisa “aprender a estudar”. E quem estuda sozinho para passar no vestibular de fato acaba aprendendo a pesquisar e buscar informações no processo, habilidade que certamente vai ajudar na graduação.
Pois é, nunca esqueço dessa história do meu amigo rsrs. Houve uma época em que existia essa “febre” de hostilizarem pessoas com camiseta vermelha. Parte dos relatos era real, parte certamente era fanfic rs. De qualquer maneira, o mundo tá doido! E não é de agora, esse relato do meu amigo é do começo da década passada!
Abraços =)
Muito bom! Meu objetivo é fazer medicina na USP, apesar de sempre ter estudado em escola pública. Pra piorar, os cursinho mais focados na fuvest se encontram em SP e eu moro no Piauí 🙂
Eu sei que sua jornada vai ser difícil, mas não desista. Hoje em dia a Internet possibilita muita coisa, como estudar online através de provas antigas da FUVEST ou até mesmo através de materiais e apostilas que podem ser baixadas gratuitamente. Até vídeos do Youtube auxiliam bastante quem está interessado em aprender coisas novas ou revisar conteúdo da escola.
Desejo muito sucesso e obrigada pela visita 🙂