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Quem acredita em uma pseudociência, acredita em outra.

Sabe aquele seu conhecido que acredita em qualquer teoria da conspiração maluca que aparece por aí? Então, pode ser que ele acredite em qualquer coisa para nutrir uma aparente sensação de controle. É o que diz o psicólogo social Sander Von Linden, da Universidade de Cambridge, mencionado nesse texto da National Geographic. Ter resposta imediata para tudo – mesmo que a resposta não faça nenhum sentido – é uma maneira de ter controle diante de situações desafiadoras e complexas.

Na mesma reportagem, a psicóloga social e política Marta Marchlewska, da Academia Polonesa de Ciências, também explicou que as pessoas utilizam atalhos cognitivos , que são regras basicamente inconscientes para tomar decisões de forma mais rápida. Dentro de um cenário onde as pessoas estão mais estressadas, algumas tendem a buscar explicações simplificadas (os tais atalhos) que desprezem a complexidade da questão. E quem não está estressado com pandemia que estamos vivendo e todo o cenário sociopolítico-econômico desfavorável? Além disso, cada um de nós em nossas particularidades enfrenta situações de stress diferentes. Ocorre que situações de stress afetam as pessoas de maneiras diferentes: aquelas que já tendiam a acreditar em teorias da conspiração antes da pandemia, certamente o fizeram ao longo de todos esses meses difíceis, compartilhando fake news e outras desinformações que atrapalharam no controle da doença.

Os algorítimos das redes sociais também fomentam isso. Quem, por exemplo, participava de um grupo sobre “a farsa do pouso na Lua”, certamente recebeu indicações de grupos sobre outras teorias da conspiração. Ademais, as pessoas tendem a procurar viéses de confirmação para encaixar dentro da realidade de mundo que elas já tem, que foi moldada por valores familiares ou pela religião, por exemplo.

A psicóloga Marta Marchlewska acrescentou que estaríamos vivendo um momento de “narcisismo coletivo“, que basicamente é uma situação na qual todos querem ter razão. As redes ampliam isso, quando a importância do que a pessoa diz é medida em termos de likes e compartilhamentos. E claro, ter muitos likes e muitos compartilhamentos não significam que o indivíduo tem razão, significa apenas que ele teve visibilidade. Deve-se destacar que muitos de nós tendemos a nos isolar em bolhas dentro das redes, convivendo com pessoas que possuem maneiras de pensar muito parecidas com as nossas. E claro, essas pessoas vão concordar com aquilo que você diz, mesmo que esteja completamente equivocado.

Eu tenho me interessado bastante em entender os motivos que levam as pessoas a acreditarem em fake news e teorias da conspiração para poder dar aulas melhores. Claro, há aqueles que compartilham boatos por mera desinformação, descuido e falta de um entendimento crítico da realidade. Entretanto, há quem se dedique inteiramente a uma teoria da conspiração e se dedique a compartilhar material sobre ela. Usando um exemplo que me cerca: religiosos que acreditam em um possível golpe comunista. Pessoas assim compartilham qualquer coisa, mesmo que não tenha sentido algum, para corroborar a ideia de que há um golpe comunista iminente.

Nem preciso dizer que líderes com interesses excusos se aproveitam de um cenário de medo e incertezas para exercer controle sobre as pessoas. E isso não é novo, é muito anterior às redes sociais. Quem frequentou igrejas evangélicas nos anos 90, por exemplo, sabe do tipo de coisa que vez ou outra circulava pelos pulpitos. E não foi por acaso que o líder da seita Templo do Povo, Jim Jones, conseguiu arrebanhar tantas pessoas para depois matá-las. Evidentemente esse é um caso extremo de controle, mas canso de ouvir casos de abuso psicológico dentro de igrejas.

No meio acadêmico, por exemplo, há pesquisadores que se negam a admitir que o aquecimento global está sendo causado pela humanidade. O fato de ser cientista não faz alguém ser completamente justo e livre de falhas. As pessoas são movidas pela vaidade, por razões pessoais (ganho financeiro ou de status) ou por crenças pessoais muito fortes, e isso afeta qualquer processo racional. Por isso cientistas não trabalham sozinhos e há redes de colaboração nos projetos e há revisão por pares nos artigos científicos, antes e depois de serem publicados (um artigo inclusive pode ser despublicado quando a comunidade científica nota irregularidades).

Crer em algo com devoção ou com bastante intensidade pode ser bom, pois pode significar a presença de princípios norteadores e de consolo em momentos de dificuldade. Mas também pode ser um grande problema, quando nos atrapalha em ter uma visão crítica sobre o mundo. Compreender que o mundo não se molda ao que esperamos é o que se espera de alguém que deseja ter um raciocínio crítico e mais tolerante. É o que se espera de um cientista.

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Imagem de destaque: Stock Unlimited

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