“Good Thoughts, Good Words, Good Deeds”

Desde os burburinhos a respeito do lançamento de um filme sobre a história do Queen, mais ou menos por volta de 2011, eu fiquei empolgada. Sou grande fã da banda, de saber a maioria das músicas de cor.
Os rumores sobre o filme esfriaram por um tempo, até que a coisa toda reacendeu em 2016 com a divulgação de que Rami Malek interpretaria Freddie Mercury. O filme foi lançado em 2018 e dividiu opiniões. Já assisti o filme duas vezes e antes disso já havia lido duas biografias do Freddie e outros materiais disponíveis na internet. O filme realmente contém algumas imprecisões cronológicas, mas as sequências musicais são incríveis. Achei muito emocionante quando a gente compara, por exemplo, o concerto original do Live Aid com a interpretação no filme.
Algumas pessoas ainda criticaram que o filme detalha a vida sexual de Freddie, o consumo de drogas e sua luta contra a AIDS. Só que esses fatos fizeram parte da vida do artista e moldaram seus últimos anos de trabalho. Seria impossível não tocar nesses pontos.
O filme já é emocionante na introdução, quando faz uma excelente captação de som e de detalhes mostrando os preparativos para o concerto. O coração palpita de expectativa, ficamos esperando pelo show como se estivéssemos ali na coxia ao lado de Mary Austin, seu namorado e Jim Hutton (companheiro de Freddie nos últimos anos de sua vida).
Há inúmeros textos pela internet mostrando os erros cronológicos do filme e algumas curiosidades do longa. Eu tinha pensado em fazer algo assim, mas eu decidi destacar o lado família de Freddie. O filme retrata seus pais e sua irmã, deixando um pano de fundo para compreendermos também a realidade de Farrokh Bulsara (nome de nascimento de Freddie), um imigrante em Londres. Natural da Ilha de Zanzibar, parte da Tanzânia, é filho de pais pársis nascidos na Índia. Os pais de Freddie migraram para Zanzibar (que era colônia britânica) e depois migraram para a Inglaterra, onde o pai de Freddie, Bomi, trabalhava em um banco governamental relacionado com as colônias britânicas.
Como Freddie nasceu em uma colônia britânica, nossa ‘mente brasileira’ logo conclui que ele seria britânico. Não é assim. A Coroa sempre teve muita resistência em conceder os mesmos direitos aos nascidos nas colônias (exceto quando eram filhos de britânicos). Além disso, a identidade cultural pársi é muito forte. São um povo muito orgulhoso de sua história que envolve perseguição religiosa e migrações.
Os pársis são um grupo étnico-religioso do subcontinente indiano, que por sua vez fugiram do Irã devido a perseguição religiosa. Pársis são seguidores do Zoroastrismo, religião que tem como profeta Zaratustra e o Irã (Pérsia) tornou-se uma região de maioria muçulmana por volta do ano 650. Os pársis foram expulsos e seguiram em direção à Índia e Paquistão. Isso é mencionado muito rapidamente no filme, pelo personagem de Bomi. O que ocorre uma ou duas vezes no filme são pessoas que chamam Freddie de “paki”, como se ele fosse paquistanês. Essa é uma forma de preconceito, na qual preferem te chamar pelo seu local de origem do que pelo seu nome. É uma maneira de desumanizar, remover sua identidade. É como quando um paulista chama um migrante nordestino de ‘baiano’ (e tem vezes que nem nasceu na Bahia).
Freddie mantém suas raízes persas de maneira muito reservada. Seu estilo de vida não corresponde ao que se esperaria de um rapaz dessa comunidade étnico-religiosa, mas sua família o aceitava, apesar dos naturais conflitos subentendidos ao longo do filme e mencionado em diversas fontes biográficas. Numa passagem do filme, ele fica ofendido quando o diretor da EMI na ocasião debocha a palavra Bismillah (que significa ‘em nome de Deus’, e apesar de ser uma palavra muçulmana, faz alusão ao que Freddie vivenciou em Zanzibar – que possui maioria muçulmana). Quando morreu, foi cremado em uma cerimônia zoroastrista.
O personagem do pai de Freddie em duas ocasiões usa a expressão Good Thoughts, Good Words, Good Deeds (Bons pensamentos, boas palavras e boas ações). Esse é um dos ensinamentos essenciais da fé zoroastrista. E o legado de Freddie tem tudo a ver com essas palavras.
Biografias que li e recomendo:
