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Time seems to pass me by, but I stand

Os 10 primeiros dias de maio me atropelaram. Quando percebi, o dia das mães praticamente já chegou e na sequência chega o aniversário de alguns familiares que amo muito. Tenho muita coisa para fazer e para absorver e venho fazendo algumas pausas para me reestruturar. Para ‘ajudar’, eu e as crianças ficamos doentes com resfriado e intoxicação alimentar. Felizmente estamos melhores, mas foram alguns dias complicados.

Também estou organizando minha mudança para outro bairro, na mesma cidade. Além disso estou bem ocupada com as disciplinas da pós e me sinto chateada por não estar conseguindo ler os artigos que preciso, diante de tantas coisas acontecendo. Apesar dessa chateação, não me sinto culpada e nem me deprecio como eu fazia quando era mais nova. Hoje entendo que a vida passa por essas situações de atropelo, mesmo quando você procura ser uma pessoa organizada. Muitas vezes também enxergamos os problemas com uma lente de aumento e só compreendemos isso depois que o problema foi solucionado. Além disso, sempre dá para reacomodar e reorganizar.

Estou curtindo minhas aulas da pós e mais uma vez fui fazer trabalho de campo. Fomos procurar fitopatologias, doenças que ocorrem nas plantas. Nesse caso, plantas de interesse agrícola. A Universidade conta com diversas áreas de cultivos: pomares, hortas, soja, milho, cana, banana, etc. Na literatura científica estão documentadas pragas típicas de cada uma dessas culturas. Dessa maneira, os especialistas conseguem identificar e tratar essas doenças (até mesmo fazer tratamentos profiláticos).

Esse capim-colonião, planta muito usada como forrageira, está contaminado com um fungo e pudemos ver alguns sinais disso ao apertar essas bolsinhas escuras onde ficam as sementes. Além das sementes, havia esporos dos fungos

Tivemos aula com uma pós-doutoranda especializada em doenças causadas por fungos. Sempre que falo com colegas cientistas altamente especializados em uma determinada área, seja qual for, fico encantada pela paixão com que falam sobre o assunto de estudo.

O mundo dos fungos está presente nos detalhes. Talvez você já tenha visto uma folha assim meio esbranquiçada. Também é sinal de infestação por fungos e aqui temos uma folha de quiabo. Até produz quiabo, porém produz menos. Ocorre que a área da folha que pode realizar fotossíntese (ou seja, que tá verdinha) diminui muito quando as folhas manifestam esses sintomas.

Limão assim você talvez já viu e até já usou e não há nenhum problema. Essa doença chama verrugose (fungo também) e o limão pode ser consumido quando está assim. Só que quando a planta está com essa doença produz menos, os frutos não ficam bonitos e consequentemente perdem o valor comercial.

No Brasil investe-se muito na área de Ciências Agrárias, cada vez mais pensando em produtividade aliada com práticas sustentáveis. O futuro é promissor, pois muitas coisas desenvolvidas na academia são rapidamente implantadas em grande escala no campo. Há pessoas altamente capacitadas trabalhando nas mais diversas subáreas das Ciências Agrárias. Por outro lado vejo muita gente, por toda a internet, falando mal de quem trabalha com Agronomia e fazendo generalizações sem compreender exatamente essa área. Por isso penso que é importante se informar, conversar com pessoas da área e entender melhor antes de dar qualquer opinião.

Por falar em opinião, tenho acompanhado as notícias sobre as enchentes no Rio Grande do Sul. Costumo ver informações transmitidas por empresas de meteorologia, especialistas, pelo INMET, pela Defesa Civil, canais do governo e empresas tradicionais da área de comunicação. Não gosto dos ruídos e dos boatos espalhados pela internet, eles nos confundem, nos atrapalham e associam uma questão tão séria a figuras políticas, religiões ou coisas assim. Há muita gente querendo aparecer às custas dessa tragédia, o que é absolutamente nojento.

A realidade é que já se havia alertado para o aumento de eventos extremos de precipitação na Região Sul em decorrência das mudanças climáticas. Aqui no Cerrado, onde moro, o problema é a seca e infelizmente há grandes chances de no futuro encontramos dificuldades de abastecimento de água. Os cientistas vem alertando sobre essas coisas há muitos anos, mas não houve ações efetivas para colocar em prática medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e tornar as cidades mais resilientes. Essas questões passam também sobre mudarmos nossa maneira de produzir e de nos relacionarmos com a natureza. Falei um pouco sobre essas coisas lá no Intervalo de Confiança.

O que o Rio Grande do Sul enfrenta agora é uma amostra do que pode se tornar comum nos próximos anos e por isso é tão importante agir. Sempre acho muito difícil falar sobre essas grandes tragédias porque muitas pessoas morreram, se separaram de familiares e perderam seus bens. Por isso é necessário falar sobre essas coisas com respeito e empatia, além de ter embasamento científico. No momento também é importante ajudar. Doe, procure instituições sérias que estão recolhendo donativos e os direcionando para o povo gaúcho em necessidade. Até a prefeitura de minha pequena cidade no Triângulo Mineiro (pouco menos de 50 mil habitantes) organizou coleta de doações com o apoio de empresas daqui da região.

Para além de toda a tristeza associada à essa tragédia, também observo pessoas compartilhando vídeos de religiosos falando um monte de lixo preconceituoso sobre o assunto. Essas pessoas muitas vezes compartilham no intuito de rebater o conteúdo ou denunciá-lo, mas isso também faz com que o religioso em questão consiga mais visualizações, mais alcance e consequentemente mais seguidores. Exatamente: aquele seu tio que nunca ouviu falar da pastora imbecil pode concordar com tudo o que ela diz quando você compartilha o vídeo dela apenas para criticar e passa a segui-la. Dessa forma, as pessoas vão ficando cada vez mais extremistas e gente lixo se sente a vontade para vomitar o pior que existe dentro de si porque sabe que encontrarão iguais.

As foto acima é de uma das floreiras da Universidade. Os responsáveis pela jardinagem e a comunidade estão de parabéns, pois mantém tudo muito verdinho e bem cuidado mesmo na estação seca. A vida tem esses pequenos momentos de beleza e inspiração, mesmo diante de catástrofes e dificuldades.

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