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Qual foi seu primeiro ‘pilar da fé’ a ceder?

Outro dia eu estava assistindo o programa Panelaço, do João Gordo. No episódio, um dos convidados era o Tiago Santineli e ele comparou a fé evangélica com uma casa estilo palafita, sustentada por vários pilares de madeira. Esses pilares vão se rompendo um a um. Chega um momento em que a casa simplesmente cede. Ou seja, você não deixa de ser crente da noite para o dia.

Fiquei tentando lembrar qual foi meu primeiro pilar a ceder. Eu me lembrei, foi o da ciência.

Lembro uma vez e que meu irmão e eu estávamos empolgados com dinossauros. Uma parente disse que aquilo não é coisa da Bíblia. Eu era uma criança, isso faz uns 30 anos e eu ainda me lembro. Acho que foi o primeiro golpe nesse pilar. Conforme fui me interessando mais pelas diversas áreas do conhecimento, o pilar foi sendo golpeado até que simplesmente caiu. Lá pelos meus 20 anos esse pilar estava quase caindo, eu tentei ler sobre o Criacionismo e acreditar nisso. Não consegui, pois são muitas incongruências e o pilar quebrou de vez.

Enquanto o pilar da ciência estava ruindo ao longo desses anos (mesmo antes de cair), outros pilares foram igualmente abalados, outros caíram de uma vez. Lembro do pilar da amizade. Percebi que tinha gente desgraçadamente ruim dentro das igrejas, ruins daquele tipo que se fazem de boazinhas e usam a religião como escudo. Também percebi que tinha gente boa fora da igreja e parei de associar virtudes com a religião evangélica.

Caiu também o pilar da orientação sexual. Qual o problema em ser gay? Qual o problema em ser LGBTQIAP+? Ao mesmo tempo caia o pilar da sexualidade em geral: qual o problema em ter relações antes do casamento, se todos os envolvidos são adultos, conscientes e responsáveis?

Também foi embora o pilar do moralismo. Beber ou usar drogas não tem relação com moralidade. Quem faz o uso descontrolado de substâncias não precisa de julgamentos, precisa de ajuda médica e psicológica.

Caiu também o pilar da falta de etiqueta. Afinal, é mal educado gritar nos cultos, perturbar pessoas com folhetos e pregações, ser chato com o colega de trabalho que não é crente, ofender pessoas por terem religiões diferentes, etc. Quando percebi que tudo isso era inconveniente, entendi que não queria mais me associar a essas pessoas.

Teve também o pilar da Bíblia como resposta pra tudo. Apesar da importância da Bíblia em vários sentidos, não é plausível que um livro que começou a ser escrito na Idade do Bronze em um determinado lugar do Oriente Médio tenha resposta para todas as questões da atualidade.

A teve também o pilar do culto à personalidade. Esses pastores que se acham divas pop me incomodam muito, sempre tentando dizer que não nada disso, que eles são vasos intocáveis e ungidos humildemente usados por Deus. Sempre hipócritas.

Alguns evangélicos vão chegar até aqui (sei que vão) e talvez argumentem que eu estou deixando o pecado passar ou coisa assim. Alguns dirão que na igreja deles é diferente ou sei lá. Que bom pra você.

Na igreja, eu não me sentia plena como me sinto hoje. A atmosfera de medo e delírio era constante. Atualmente eu me sinto muito mais conectada com a minha humanidade e com as dores dos meus semelhantes.

Esses evangélicos que talvez cheguem até aqui vão escrever textões (os comentários são enormes e cansativos), vão me ameaçar com o inferno, vão citar versículos bíblicos, vão supor coisas sobre mim e vão dizer que ir para o céu exige sacrifícios e tantas outras coisas.

Não tenho medo.

Eu poderia fazer a manutenção desses pilares. Eu até tentei e vi que não adiantava. Depois eu não quis mais, percebi que eu só ia pra igreja para que alguns familiares gostassem de mim e hoje percebo que não tem como eles gostarem de mim plenamente, eles nunca se interessaram por quem eu sou e isso não faz mais diferença. Fazer a manutenção desses pilares era cansativo, eu morria um pouco a cada vez. Eu quase desapareci.

Os pilares foram gradualmente sendo golpeados. Eu nem sei dar nomes a todos eles, mas de vez em quando ainda sinto golpes nas ruínas. A cada golpe, me sinto mais forte. A cada golpe, me sinto mais humana.

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