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O Som do Trovão (2005): uma coisa meio Ocean Gate das ideias

Na década de 50, Ray Bradbury escreveu um conto chamado O Som do Trovão. Uma excelente história, como sempre podemos esperar desse icônico autor de ficção científica. Você pode ler o conto na íntegra nesse link, mas não é do conto que falarei nesse post. Vamos falar da adaptação de 2005.

O Som do Trovão (2005) é um filme com muitos defeitos, principalmente no que se refere aos (d)efeitos especiais. Eu falo sério, não estou exagerando: os efeitos são tão ruins que fica muito difícil se submeter à um grau necessário de suspensão da descrença. Sim, o filme foi muito criticado por essa falta de qualidade visual. Também fiquei preocupada com a peruca do Ben Kingsley, uma lace horrorosa e mal colocada. Há também furos no roteiro, enfim, um filme complicado. De qualquer maneira, resolvi falar sobre o filme aqui no blog porque ele me fez pensar em algumas coisas.

Contém spoilers.

Viagens no tempo

Não sou especialista no assunto, mas já li consumi alguns livros, filmes e séries sobre viagens no tempo. Basicamente, noto que geralmente a mecânica da coisa toda é que caso você altere algum fato do passado durante a viagem, você vai parar em uma linha do tempo alternativa quando voltar para o presente. Esse fato alterado precisa ser algo importante, determinante. Matar uma mosca, por exemplo, não é um fato importante. Você pode então voltar ao passado novamente para evitar essa alteração nesse evento-chave. A franquia De Volta Para o Futuro, por exemplo, faz isso.

Ocorre que O Som do Trovão não é dessa forma. Você pode voltar ao passado com muitas restrições. Não pode trazer nenhum tipo de souvenir do passado para o presente, por exemplo. Também não pode deixar nada do presente no passado (nada de almanaques!). Há fiscalização quanto a isso, simplesmente não pode fazer, o departamento de vai dar merda já avisou. A única coisa que você pode trazer do passado é uma filmagem do que fez por lá.

Mas claro, alguém trouxe algo do passado e não foi de propósito. Foi algo mínimo, mas já foi o suficiente para dar ruim na linha evolutiva das espécies. A história se passa em 2055 e a viagem no tempo é usada para que milionários voltem 65 milhões de anos para atirar em um dinossauro. Detalhe: trata-se de um alossauro, que não viveu no Cretáceo (65 milhões de anos atrás), mas sim no Jurássico (146 milhões de anos atrás).

[Observação: no conto original de Bradbury é um tiranossauro, mas acho que mudaram o dinossauro no filme porque desde os anos 90, tiranossauros ficaram muito popular por conta de Jurassic Park.]

Quando o acidente acontece, os milionários e a equipe da empresa responsável pela viagem no tempo consegue retornar para o ano de 2055. Notam que as coisas estão um pouco diferentes, com plantas crescendo implacavelmente em meio ao concreto e novos animais ferozes. As mudanças não acontecem de uma vez, mas em ondas. A cientista responsável pela criação do equipamento que permite as viagens (interpretada por Catherine McCormack, conhecida por Coração Valente) observa essas ondas e consegue determinar a periodicidade. Ela diz que é como uma pedra jogada em um lago, que forma ondas concêntricas por algum tempo até que o lago fique calmo novamente. Essa ideia é diferente da premissa de filmes como os da franquia De Volta Para o Futuro, nos quais as mudanças já estão todas concluídas quando se retorna ao presente.

Ocean Gate das ideias

A ideia de que ricaços decidem gastar seu dinheiro abundante em uma viagem no tempo só para matar um dinossauro é muito Ocean Gate das ideias. Para quem não se lembra, a empresa Ocean Gate foi aquela que criou um submarino de qualidade bem suspeita para que ricaços pudessem ver o RMS Titanic naufragado. Na última viagem, o submarino implodiu no fundo do mar e as pessoas dentro dele morreram.

Em O Som do Trovão, a viagem no tempo para atirar em um alossauro oferece o mesmo conceito do submarino. Inclusive é sempre o mesmo dinossauro em todas as viagens (os produtores realmente economizaram nos efeitos especiais). Ou seja, todos os ricaços de todas as viagens sempre voltam no tempo exatamente no mesmo instante para matar o mesmo animal usando projéteis de gelo, para não deixarem nenhum vestígio no passado. De acordo com a história, o bicho morreria mesmo de qualquer maneira porque uma erupção vulcânica está prestes a acontecer.

Ao final de cada viagem, os endinheirados são recebidos com champagne servido pelo personagem interpretado por Ben Kingsley usando peruca da 25 de março. A peruquinha é uma falha técnica, uma economia na produção do filme? Provavelmente. Mas eu prefiro acreditar que ela serve para mostrar que a empresa de viagens Time Safari não é lá essas coisas, talvez como o controle Logitech da Ocean Gate.

Outra coisa no filme que prendeu minha atenção foi a existência de fiscalização das viagens no tempo para garantir que as pessoas não façam nada errado. Essa fiscalização é ineficiente e a Time Safari opera sem atender todas as normas. Ora, o CEO da Ocean Gate admitiu que quebrou regras para conseguir construir o submarino.

Mais uma vez, a realidade imita a arte. Visitar o naufrágio do RMS Titanic também não é uma forma de viajar no tempo? Time Safari não é uma daquelas experiências que só os ricos podem fazer e que muitas vezes parte da classe média tenta adaptar a sua realidade?

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