Qual o mês mais quente em Uberlândia-MG?
Acredito que quem não conhece a cidade ou quem não costuma praticar muitas atividades ao ar livre, talvez responda a pergunta do título dizendo que é a resposta óbvia é um mês do verão (dezembro, janeiro ou fevereiro). Ocorre que a resposta não é tão simples assim. Eu já vou postar o climograma da cidade de Uberlândia-MG pra gente responder essa pergunta e discuti-lo:

Acima temos o climograma de Uberlândia-MG, obtido a partir do trabalho de curadoria do Climate Date. Em uma análise muito imediata da linha vermelha do gráfico (temperatura média mensal num longo período – uns 30 anos preferencialmente), já observa-se que o mês mais quente é outubro. Mas, como assim? Por que um mês no período de outono é mais quente do que os meses de verão?
Em primeiro lugar, Uberlândia-MG possui um clima com estação seca e chuvosa bem definidas. Isso é muito comum na maior parte da Zona Tropical do planeta. Nessa região, o que define as estações do ano é a quantidade mensal de chuva. A chuva é mal distribuída ao longo do ano. Observe como os meses de novembro a março são os mais chuvosos (barras azuis) e os meses de maio a agosto são os mais secos.
“Mas, Samantha… não existem estações do ano na Zona Tropical?” Existem, do ponto de vista astronômico. As estações são definidas pelos solstícios e equinócios e, portanto, ocorrem em todo o planeta. No entanto, o que muda é a forma como essas estações se manifestam.
Na Zona Tropical, a incidência de radiação solar é elevada ao longo de todo o ano, com variações relativamente pequenas entre os meses. Isso acontece porque o Sol permanece alto no céu durante grande parte do ano. Já nas Zonas Temperadas e Polares, a inclinação do eixo da Terra provoca variações muito mais acentuadas na quantidade de radiação solar recebida ao longo do ano, o que resulta em estações bem mais contrastadas, com diferenças marcantes de temperatura e duração do dia.
Em Uberlândia (ou Udi, para os íntimos), por volta de setembro, as temperaturas já começam a subir em relação aos meses anteriores. No entanto, as chuvas ainda não chegaram com força total. O resultado disso são muitos dias ensolarados e extremamente secos.
Quando há poucas nuvens no céu, a maior parte da radiação solar consegue atingir diretamente a superfície, que se aquece intensamente e transfere esse calor para o ar logo acima dela. É por isso que outubro costuma ser um dos meses mais quentes do ano.
Já a presença de nuvens atua como um freio nesse aquecimento: parte da radiação solar é refletida ou absorvida pelas nuvens antes de alcançar a superfície, reduzindo o aquecimento do solo e, consequentemente, do ar. Por isso, agora, no começo de fevereiro, enquanto escrevo para vocês, as tardes têm sido mais agradáveis, mesmo estando em pleno verão.
Quando calculamos a temperatura média considerando todos os dias de outubro, esse mês acaba se destacando em relação aos demais justamente pela combinação de forte radiação solar, poucas nuvens e ausência de chuvas significativas.
Observem que essa descrição se aplica a grande parte da região central do Brasil, onde predomina o bioma Cerrado. Nessa área, a paisagem se transforma de forma bastante evidente ao longo do ano em função da alternância entre períodos de escassez e de abundância hídrica.
O Cerrado abriga as nascentes de diversos rios importantes do país, e o regime de vazão desses cursos d’água responde diretamente à chegada das chuvas. Por essa razão, muitos autores se referem a essa dinâmica sazonal como um “clima monçônico da América do Sul”, marcado por um verão chuvoso e um inverno seco.
Segundo a classificação climática de Köppen-Geiger, os climas predominantes nessa região são Aw, Cwa e Cwb, que refletem justamente essa forte sazonalidade das chuvas e suas variações térmicas associadas.
Como exemplo adicional, vou mostrar o climograma de Goiânia-GO para vocês observarem que temos o mesmo padrão:

Os dados também são provenientes do Climate Data. Observem que a escassez de chuvas entre junho e agosto em Goiânia é ainda mais acentuada do que em Uberlândia. Evidentemente, esse padrão pode variar de um ano para outro, mas os gráficos apresentados representam valores médios de longo prazo (com séries de, pelo menos, 30 anos), já que estamos tratando de Climatologia.
Notem também que, em Goiânia, o mês mais quente é setembro, ocorrendo um pouco antes do que em Uberlândia.
Um aspecto importante que merece destaque em ambas as cidades, e que é uma característica marcante dos climas tropicais, é a pequena amplitude térmica anual. Isso significa que a temperatura varia relativamente pouco ao longo do ano, especialmente quando comparamos com cidades localizadas em latitudes mais elevadas, mais distantes da linha do Equador.
Como vocês podem ver, a resposta nem sempre é tão simples quanto parece à primeira vista. Muitas pessoas tendem a considerar apenas a forçante solar, associada às estações do ano, ou o fator climático latitude. No entanto, nos trópicos, onde a radiação solar é abundante ao longo de todo o ano, essa abordagem é insuficiente. Nesses casos é fundamental observar o clima com mais atenção, levando em conta outras caracterísitcas, como a circulação atmosférica, a nebulosidade, o regime de chuvas e as características da superfície.
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Esse texto é um complemento a esse outro, que escrevi em 2021.
