ZCAS: Zona de convergência do Atlântico Sul
Estamos na Estação Chuvosa em boa parte do Centro-Sul do Brasil e vocês certamente já ouviram nos noticiários a respeito da famosa Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que os meteorologistas carinhosamente chamam de “zácas”.
Em 12 de fevereiro de 2022 (quando escrevi esse post), o Brasil enfrentou esse fenômeno meteorológico por 4 ocasiões:
- Entre 31/12/2021 e 03/01/2022
- Entre 06/01/2022 e 11/01/2022
- Entre 29/01/2022 e 31/01/2022
- Entre 07/02/2022 e agora (12/02/2022)
A ZCAS é o principal sistema meteorológico do verão brasileiro. Ela é responsável por um período prolongado de alguns dias de chuva e atua em partes da Região Norte, Centro-Oeste e Sudeste. O fenômeno pode durar de cerca de 4 até 10 dias e consiste em uma faixa extensa de nebulosidade que cruza o país ao longo desses dias, como uma faixa diagonal. O total de precipitação associado à esse fenômeno pode representar até mais de 30% do total de precipitação do mês.
A imagem a seguir, incorporada a partir de uma publicação da NOAA (National Oceanic and Atmospheric and Administration), mostra a situação de ZCAS que estamos vivendo no momento. Trata-se de uma imagem de satélite e essas linhas vermelhas foram desenhadas para indicar a área de atuação do fenômeno, evidenciando a faixa de nebulosidade característica.
A palavra convergência significa encontro. Em ZCAS, temos uma região de encontro de umidade, que é onde se forma a faixa de nebulosidade mencionada. Para que essa faixa de encontro de umidade ocorra, é necessário que 3 situações meteorológicas ocorram simultaneamente:
- uma frente fria atuando na Região Sudeste, atuando também no Oceano Atlântico (ou seja, aquela frente fria que deixa o mar bem bravo na região);
- um VCAN (Vórtice Ciclônico de Altos Níveis) na Região Nordeste, que é uma região ciclônica (baixa pressão) localizada a cerca de 10km de altitude;
- a Alta da Bolívia, que é uma região de alta pressão também em altos níveis (cerca de 10km de altitude), localizada sobre a Bolívia.
Quando esses 3 fenômenos estão atuando simultaneamente, é possível bombear umidade proveniente da Amazônia para que essa se ‘conecte’ com a faixa de nebulosidade associada à frente fria. Dessa forma, temos um corredor de umidade responsável por muitas áreas de instabilidade e muita chuva em todo o Brasil
A ZCAS é um fenômeno típico do verão e o fenômeno ocorre com mais frequência (mais episódios do fenômeno) em anos de La Niña. No entanto, ZCAS também se formam em anos neutros e em anos de La Niña.
O posicionamento das ZCAS pode variar um pouco a cada episódio do fenômeno. Usando como referência essa imagem do satélite GOES East, fiz um pequeno esboço apenas ilustrando possíveis posicionamentos de ZCAS. Dependendo do posicionamento do eixo da ZCAS, a chuva se desloca mais ao sul ou mais ao norte.

De acordo com a marcação indicada na figura acima:
Posição 1 (magenta): eixo da ZCAS localizado mais ao sul de sua posição normal (Posição 2). Nesse caso a chuva fica mais frequente sobre São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, sul de Goiás, sul do Mato Grosso, Mato Grosso do sul e norte do Paraná.
Posição 2 (verde): posição normal ou média da ZCAS. Nesse caso, a chuva se distribui em todas as regiões, atingindo também alguns Estados da Região Norte (Amazonas, Rondônia e Acre).
Posição 3 (laranja): o eixo da ZCAS fica mais deslocado para o norte de sua posição normal. Nesse caso, o fenômeno atinge o norte de Minas Gerais, Bahia, Tocantins, parte do Pará, sul do Amazonas, norte de Goiás, Distrito Federal e norte de Mato Grosso. Foi essa a situação do comecinho de 2022, quando várias cidades baianas foram severamente atingidas pelas chuvas.
Espero que vocês tenham compreendido um pouco mais sobre as ZCAS. Eu também gravei um Spin de Notícias sobre o assunto, confiram! Esse presente texto foi baseado no roteiro que fiz para esse spin.
A seguir, as fontes que usei para escrever esse post:
- Leila M. V. Carvalho; Charles Jones & Brant Leibman (2003). “The South Atlantic Convergence Zone: Intensity, Form, Persistence, and Relationships with Intraseasonal to Interannual Activity and Extreme Rainfall” (PDF). Journal of Climate, vol. 17, pp. 88.
