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Por que geralmente faz tanto calor no Centro-Sul do Brasil no final de agosto e início de setembro?

Poucas nuvens que se dissipam no final do dia e campo bastante seco. Esse cenário é bem típico do Cerrado no período entre março e setembro. Cortesia de Pixabay.

Nas minhas redes sociais eu tenho visto muita gente reclamar do calor. Eu mesma já comecei a usar shorts e regatas e tenho reparado que a manta já não tem sido obrigatória durante a madrugada. Para georreferenciar vocês, eu moro no Triângulo Mineiro e as reclamações sobre o calor que li por aí são também de moradores do Centro-Sul do Brasil.

Centro-Sul do Brasil, que engloba a Regiao Sul, Região Sudeste (exceto norte de Minas Gerais), Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e extremo sul do Mato Grosso. Fonte: Wikimedia Commons

Na divisão tradicional das Cinco Regiões do Brasil não falamos de Centro-Sul. Entretanto, quando levamos em conta aspectos geoeconômicos, falamos em Região Centro-Sul (veja mapa e legenda acima). Essa é a região que possui o maior PIB e é a principal responsável pela produção agropecuária.

Boa parte do Centro-Sul do Brasil (com exceção do sul do Rio Grande do Sul) possui uma característica climática bem importante: estação seca e estação chuvosa bem demarcadas. Vejam, existem vários climas nessa região, determinados pela continentalidade, altitude e latitude. No entanto, todos esses climas (com exceção do sul do Rio Grande do Sul) tem essa caractetísitca bem demarcada da estação seca e estação chuvosa, que começa por volta de setembro e termina em março.

Aqui no Cerrado – e o Cerrado é o bioma que compõe boa parte do Centro-Sul do Brasil – , o período entre abril e agosto é extremamente seco. Eu morei boa parte de minha vida em São Paulo-SP (e ainda visito com certa regularidade) e por lá a aproximação de alguma frente fria e o aporte de umidade do oceano ainda conseguem elevar a umidade relativa e fazer garoar durante esses meses (principalmente entre abril e julho). Por outro lado, aqui no Cerrado, não cai nenhuma gotinha de chuva nos meses secos e não são raros os dias de agosto em que a umidade relativa fica abaixo de 15%.

Minha experiência vivendo em São Paulo e no Triângulo Mineiro mostra que agosto é realmente o mês com umidade relativa mais baixa. Com relação a São Paulo-SP, isso pode ser consultado no Boletim Climatológico Anual da Estação Meteorológica do IAG-USP.

Além da baixa umidade relativa, agosto nos proporciona outras duas características em boa parte do Centro-Sul do Brasil:

  • agosto também já é o fim do inverno, então as temperaturas começam a se elevar (embora nos trópicos haja pouca variação anual da temperatura média);
  • em agosto ainda há o predomínio de uma área de alta pressão em boa parte do Centro-Sul do Brasil, o que dificulta a formação de nuvens.

Esses fatores possibilitam que a temperatura do ar se eleve ao longo do dia, permitindo temperaturas acima de 30ºC e que chegam muito perto ou passam de 40ºC em Goiás ou áreas de Minas Gerais. Em São Paulo, recordes de temperatura costumam ser quebrados no final da estação seca ou no comecinho da estação chuvosa (quando as chuvas ainda não “engrenaram”).

Como ainda é agosto, muitos começam a falar “ah, mas é inverno, por que está tão quente?” enquanto outros ainda afirmam que “é tudo culpa do aquecimento global”.

Em primeiro lugar é muito importante entendermos que na maior parte do Brasil o que determina as estações é o período seco e o período chuvoso. Estações do ano determinadas pela temperatura daquele jeitinho que vemos nos filmes americanos (verão ensolarado, outono com folhas caindo, inverno rigoroso e primavera florida e amena) é coisa das zonas temperadas do planeta, onde a quantidade de radiação solar incidente varia significativamente ao longo do ano.

Zonas Térmicas da Terra. A Zona Tropical está situada entre o Trópico de Capricório e o Trópico de Câncer. Fonte: Atlas Geográfico Escolar.

Sobre o aquecimento global ter uma parcela de culpa, isso não está errado. Recordes de temperatura tem sido sistematicamente quebrados no século XXI. Os cientistas estão observando mais eventos de seca extrema e de chuvas torrenciais em diversas regiões do planeta. Não há nenhum tipo de dúvida que a humanidade alterou o clima do planeta através das emissões de gases de efeito estufa provenientes principalmente dos combustíveis fósseis e da pecuária. No entanto, precisamos entender como funcionam as estações do ano nas diferentes regiões do planeta para compreendermos caractertísticas que sempre existiram (estação seca e chuvosa, por exemplo). O debate precisa ser racional e pautado em dados, não pode ser completamente emocionado!

Quem vive no Cerrado sabe, por exemplo, que agosto infelizmente é o mês das queimadas. As queimadas, que muitas vezes começam como um manejo errado da vegetação para formar áreas de pastagem, acabam se espalhando porque a vegetação ressecada, ar seco e ventos favorecem isso. É um mês também de bastante calor e racionamento hídrico, justamente porque ainda não choveu e a estação seca está no fim (e os reservatórios já estão em seus limites). Portanto são coisas que sempre existiram, mas que agora há a preocupação do agravamento dessas condições devido ao aquecimento global. Por isso é tão importante que a sociedade e os tomadores de decisão ouçam os cientistas para que sejam implantadas medidas de redução de emissões e também medidas de mitigação eficazes.

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