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O autômato turco

Soube outro dia de uma antiga história muito boa com mentirada, enganação e safadeza. Era uma vez, lá no século XVIII, um boneco autômato com roupas típicas otomanas da época, desses bonecos com engrenagens incríveis e bem feitas. Supostamente, o boneco sabia jogar xadrez muito bem. Em outras palavras, sugeriam que ele era dotado de uma certa inteligência, embora artificial.

O autômato turco, como ficou conhecido, chegou a jogar xadrez com Napoleão Bonaparte e Benjamin Franklin. Foi desenvolvido pelo austríaco Wolfgang von Kempelen em 1770 e foi a sensação do momento, impressionando reis e plebeus.

Demorou 50 anos para que a farsa fosse desmascarada pelo acadêmico de Cambridge, da área de engenharia mecânica, Robert Willis. O negócio é que não era inteligência artificial nada, debaixo da mesa tinha uma pessoa de verdade, que manjava de xadrez e fazia todo o jogo.

Por que me lembrei disso? Por vários motivos, vocês vão ver que todos eles se conectam. Eu soube de outra história incrível. Vamos agora para os anos 1960 e a série Perdidos no Espaço era sucesso absoluto. Numa feira de engenharia lá em Santa Catarina, em 1968, apareceu um empresário com um robô incrível e inteligente, que interagia com as pessoas. A história que ouvi por alto (aqui tem detalhes) é que o robô teria vindo da Suíça e teria passado por São Paulo, uma chiqueza. Reza a lenda que os participantes da feira estavam muito desconfiados e o vigia do local aguardou até a feira ficar vazia para observar a máquina, até que ela espirrou e a conclusão era óbvia: era uma pessoa vestida de robô.

Como não há nada novo debaixo do sol, como diria o livro de Eclesiastes e os golpes se repetem. Recentemente soubemos do caso da builder.ai, uma start up da área de tecnologia que prometia uma inteligência artificial sofisticada com respostas excelentes. No fim das contas, a empresa prometia muito mais do que entregava e havia vários engenheiros de software indianos fazendo o papel da inteligência artificial, ou seja, fornecendo as respostas. Antes desse caso tivemos também a história da Theranos, no qual uma empresária conseguiu arrecadar dinheiro de um monte de bilionário para investir no desenvolvimento uma máquina que conseguiria fazer vários exames sanguíneos muito rapidamente, forma automática e com uma pequena amostra. Essa máquina seria colocada em redes de farmácias e chegou a ser testada, só que nunca funcionou direito. Entregava exames errados, teve caso de um técnico da empresa mandar as amostrar para laboratórios analisarem e depois só ‘fazer de conta’ que foi a máquina que fez.

O fake it ‘till you make it sempre foi algo recorrente, creio que agora temos o diferencial desse processo todo ocorrer pela internet e/ou ser mediado por ela. Ocorre que nem sempre chega-se na parte de make, ficando apenas no fake. Além disso, há certamente situações em que não tem como sair do fingimento. No caso da Theranos, por exemplo, lembro de ter lido que cientistas inicialmente envolvidos no projeto alertaram que o que a CEO tinha prometido era impossível com a tecnologia disponível. Ou seja, era só um Autômato Turco moderno. No fim das contas, mudam as roupas, mudam as máquinas, mudam os discursos. Mas, de tempos em tempos, alguém continua escondido dentro do armário movendo as peças.

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