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A Brilhantina e o Presépio

Présépio que montei com meus filhos, que colocaram galhos e folhas de plantas que descrevo no texto do post.

No comecinho de dezembro eu montei esse presépio da foto. Trata-se de um presépio de resina, com figuras relativamente pequenas (menores que 10cm). Já tenho esse presépio há alguns anos, gosto muito dele e desde que meus filhos nasceram, a alegria em montá-lo tem sido ainda maior.

Minha paixão por presépios nasceu vendo meu antigo professor e colega de trabalho, Mario Festa, montá-los em exposições lá na Estação e em outros lugares. Além desse fato, há anos atrás meu marido passou uma temporada vivendo na Itália e pude vê-los em vários lugares deste país, onde são montados com muita criatividade e bom humor.

Em 2020, montar um presépio tem sido uma dessas atividades que trazem prazer e conforto e garantem uma alienação saudável. As crianças participam e eu fico muito contente com a empolgação deles. Meus pequenos resolveram que seria legal decorar o presépio com plantinhas e eu deixei que eles colhessem plantinhas que nascem espontaneamente pelo quintal. Eles trouxeram galhos de erva-moura, folhas de samambaia e essa planta com folhas pequeninas e brilhantes que a gente pode ver em primeiro plano. Eu sempre chamei essa plantinha de musguinho (?) embora tivesse sérias dúvidas sobre ser um musgo, porém era o nome que eu conhecia desde criança porque eu inventei isso ou fiz alguma comparação ou me contaram. Bom, eu aprendi essa semana, graças à Lorena, que essa planta se chama brilhantina e NADA (NADA!!!) tem a ver com musgos. Musgos são briófitas e a brilhantina é uma traqueófita (planta vascular). Ou seja, tenho MUITO (MUITO MESMO!) a aprender sobre Botânica. Para minha defesa, creio que chamava a brilhantina de musguinho apenas por ser uma planta rasteira, eu nunca tinha feito uma reflexão ou e pesquisa sobre o que é um musgo de fato.

Brilhantina é o nome popular de Pilea microphylla. É uma planta nativa de boa parte da América Latina (exceto extremo sul da América do Sul) e também do sul dos Estados Unidos. Essa plantinha nasce em qualquer cantinho com meia sombra daqui da minha região (bioma do Cerrado). Em outras regiões do planeta, ela é considerada uma espécie invasora. Nesse artigo de 2018, os autores falam sobre a planta ter sido encontrada pela primeira vez na Sicília e pela segunda vez na Itália.

Pilea microphylla em close, nascida numa fresta de concreto.
Imagem: Wikimiedia Commons

As folhinhas pequeninas da Pilea microphylla são de fato muito brilhantes (por isso o nome popular) e meio “gordinhas”. Algumas pessoas usam na medicina popular, mas eu sempre fico preocupada com essas coisas. Não que eu seja contra o uso de plantas no tratamento de doenças. Eu apenas acho que isso precisa ser considerado com cuidado. Penso que a Fitoterapia não pode ser um saber usado de maneira indiscriminada, é necessário estudar as plantas com cuidado e atentar para as doses recomendadas, sempre como um tratamento complementar. Se for usar uma planta para alguma finalidade curativa, é importante ler artigos científicos a respeito e conversar com pessoas capacitados no tema. Converse também com o médico que acompanha seu caso.

Eu fiquei curiosa sobre essas alegações curativas e fui pesquisar rapidamente. Há pelo menos dois artigos científicos que encontraram evidências de que a planta pode fornecer alguma proteção contra radiação induzida: Prabhakar et. al 2007, Bansal et. al 2011, sendo que o último fala também em efeitos antioxidantes.

A plantinha é muito graciosa e depois de arrancada fica verdinha por algum tempo. Ela é usada como cobertura do solo em alguns jardins e canteiros, porque ela é rasteirinha e dá um efeito bastante bonito. Se estiver em condições favoráveis de luminosidade e em solo com bastante matéria orgânica, multiplica-se com facilidade.

Agradeço aos meus filhos por proporcionarem esse novo olhar às coisas que eu já tinha visto, mas não tinha enxergado. E agradeço à Lorena pela conversa produtiva que me levou a descobrir mais sobre a brilhantina e a aprender a definição de musgo. As rápidas conversas que tenho com Lorena são sempre tão gostosas, ela ensina com simpatia e carinho que inspiram a querer ser melhor. Queria que todas as interações na Internet fossem assim.

Artigos

  • K.R. Prabhakar, V.P. Veerapur, Punit Bansal, Vipan Kumar Parihar, Machendar Reddy Kandadi, P. Bhagath Kumar, K.I. Priyadarsini, M.K. Unnikrishnan, Antioxidant and radioprotective effect of the active fraction of Pilea microphylla (L.) ethanolic extract, Chemico-Biological Interactions, Volume 165, Issue 1, 2007, Pages 22-32, ISSN 0009-2797, https://doi.org/10.1016/j.cbi.2006.10.007.(http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0009279706003073)
  • Punit Bansal, Piya Paul, Pawan G. Nayak, Steve T. Pannakal, Jian-hua Zou, Hartmut Laatsch, K.I. Priyadarsini, M.K. Unnikrishnan, Phenolic compounds isolated from Pilea microphylla prevent radiation-induced cellular DNA damage,Acta Pharmaceutica Sinica B, Volume 1, Issue 4, 2011,
    Pages 226-235, ISSN 2211-3835, https://doi.org/10.1016/j.apsb.2011.10.006.
    (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2211383511000864)

Sites

  • https://en.wikipedia.org/wiki/Pilea_microphylla
  • https://www.naturalcura.com.br/brilhantina/
  • https://www.jardineiro.net/plantas/brilhantina-pilea-microphylla.html

Radar Meteorópole

  • Já que eu mencionei a Lorena por aqui, leiam o ótimo texto dela sobre olhar para a natureza sem usar a lente dos valores humanos.
  • … texto esse que me fez lembrar de um dos causos contados no livro Desventuras na Ciência. Em uma das histórias, a cientista ouvida menciona que muita de nossas opiniões sobre o “caráter” dos mamíferos foi obtida em filmes da Disney e ela menciona particularmente O Rei Leão. Resumindo, ela me fez concluir que hienas são muito legais e leões são grandes vagabundos folgados criminosos, totalmente diferente do que a Disney ensinou.

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3 Comentários

  1. Oi Samantha,

    Eu li seu texto ontem de manhã, assim que acordei, foi minha leitura matinal. Queria dizer que eu aprendo muito com você e com a sua curiosidade pelo mundo natural, especialmente pelas plantinhas espontâneas. Apesar de eu saber o nome dessa, e ter identificado pra você, eu nem tinha noção de que ela tinha propriedades fitoterápicas, que haviam trabalhos sobre isso! Ela só é uma companheirinha desde a infância, que sempre fez parte dos quintais onde morei e está por aqui até hoje.

    Eu fico muito feliz que a gente possa trocar tanto e aprender uma com a outra. Me sinto honrada mesmo!

    Um beijo pra você e outro para os enfeitadores oficiais de presépio da sua casa!

  2. Oi Lorena, minha querida. Que bom te ver aqui. Pois é, conforme fui lendo conforme a brilhantina achei essas informarções. É tudo incrível, por isso a ciência nos fascina tanto: fazem pesquisa sobre tudo, há muita gente curiosa por aí que nos enchem de esperança.
    Um beijo <3 Obrigada por inspirar

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