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A falta de identidade

Dia desses eu precisei ir a um escritório de um profissional de uma determinada área. Comecei a observar a decoração desse escritório. Bom, eram aqueles projetos de arquitetura que estão atualmente na moda, com paineis ripados. A iluminação era uma combinação de luz branca com tons amarelados saindo das prateleiras. Na estante, escultura genéricas, dessas que os decoradores colocam em show rooms e coisas assim. Dois asteriscos de metal, uma escultura branca de um rosto sendo segurado por uma mão, uma planta de plástico e dois seguradores de livos que eram estátuas de leão. Os livros, menos de 10 e bem finos, eram coisas de autores como Tiago Nigro, acho que vi um Café com Deus pai ali também e alguma coisa sobre ganhar seu primeiro milhão. Também vi fotos do dono do escritório em festas de comunidades de imigrantes europeus, prêmios locais e fotos da família dele.

Fiquei um tempo pensando sobre isso e percebi que aquele escritório era igual muitos outros que entrei recentemente. São todos iguais. Creio que falta identidade, falta DNA brasileiro. Se vai colocar objetos de decoração, por que não investir em arte local? Por que não comprar uma arte bacana e imprimir em alta qualidade? Por que não investir em coisas com toques de brasilidade?

Por que as pessoas escolhem aquelas peças, aquelas mesmas peças? Alguém escolhe por elas? Vocês sabem de quais peças estou falando, basta ir em qualquer loja de móveis e observar aqueles ambientes decorados, provavelmente vão encontrar as mesmas coisas que tenho visto nos escritórios que tenho entrado.

Falta educação artística, faltam referências. Se você perguntar sobre um pintor famoso, essas pessoas vão saber mencionar, quando muito, um artista europeu. Vão dizer que arte mesmo é Renascença. Aquela coisa toda de pessoa básica e que parece que não tem um gosto pessoal, ela simplesmente segue o que está na moda.

Não estou julgando a qualidade dos serviços do profissional com base na decoração de seu escritório. Tem gente que se vende como intelectual desconstruído e é super desgracento. Essa pessoa desse escritório que entrei (o primeiro q menciono no post) teve uma postura muito profissional e transparente comigo, eu recomendaria seu trabalho. Minha intenção aqui com esse texto é refletir, pensar em como a gente se deixa influenciar por tendências externas ditadas por redes sociais e deixa de observar nossas vivências, as histórias de nossas famílias e dos objetos de decoração que comunicam sobre nós.

Imagem do post: sillas monobloc, as boas e velhas cadeiras de plástico. Essa foto é a capa do álbum “DeBÍ TiRAR MáS FOToS” , do artista porto-riquenho Bad Bunny. Essa foto poderia ter sido tirada em qualquer lugar América Latina. Não, gente, não é pra colocar dessas cadeiras na sala de espera do consultório odontológico para remeter brasilidade. Elas nem são tão confortáveis assim e também não são exatamente bonitas, mas é que essa foto convida a essa conversa sobre identidade latina. Confira o vídeo do Normose e do Espanhol Tranqui sobre esse assunto.

Muitas vezes, essas cadeiras são tudo o que temos. Elas estão em uma festa entre amigos. Em uma reunião de família com muitas risadas. Aqui em casa costumamos alugar essas cadeiras (três reais a unidade) quando resolvemos organizar churrasco. Essas cadeiras fazem parte de nossa identidade.

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Vocês percebem como esse texto em alguma relação com o post da polêmica dos mapas ‘invertidos’ com o Brasil no centro? O post foi muito elogiado por pessoas que admiro muito, algumas professores de Geografia e História. Quando não sabemos qual é o nosso lugar, quando não valorizamos a importância do nosso lugar, deixamos de nos perceber. Se não temos identidade, empurram coisas pra gente. E vamos aceitando, mesmo que nos destruam.

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