Apelo à autoridade: recurso usado constantemente em igrejas

Em meu texto anterior contei a história de um pastor que simplesmente disse que as urnas foram fraudadas. Ele simplesmente falou isso sem mencionar qualquer fonte ou referência. Claro, disse isso porque o vencedor das eleições não foi o candidato que ele apoiou. Em outras palavras, se Bolsonaro tivesse vencido às eleições, ele certamente não teria dito isso.
Esse pastor (assim como tantos) sabem que não precisam de fontes ou dados porque as pessoas simplesmente confiam neles. Confiam porque enxergam neles uma autoridade espiritual, que o tempo todo é fortalecida dentro das igrejas com expressões como “estar debaixo da bênção do pastor”. O próprio termo pastor transmite essa ideia de condução: as pessoas, ovelhas perdidas, precisam do pastor. Em lugares carentes, muitas vezes o pastor da igreja é a pessoa mais culta que muitos conhecem. Essa estrutura e esse cenário possibilitam todo tipo de abuso de poder.
Agora vamos pensar em um membro hipotético da igreja do pastor da minha história, vamos chamá-lo de John. Ele confia em seu pastor e segue suas orientações para conduzir sua casa e sua carreira. John então começa a dizer por aí, na salinha do café da empresa, que as eleições foram fraudadas. Como um de seus argumentos na conversa com os colegas de firma, ele diz que seu pastor – homem inteligente e direito, nas palavras de John – disse isso nas redes sociais e no culto.
Ora, se o pastor é um homem culto e inteligente, não poderia estar errado sobre as eleições, certo? Bom, claro que poderia! O pastor não é funcionário da segurança do TSE ou especialista em urnas eletrônicas. Ele é simplesmente pastor e tem alguma autoridade quando estamos falando de argumentos teológicos ou bíblicos (e não é bem assim, já chego lá). Quando vamos usar um apelo à autoridade, precisamos invocar a autoridade certa. Se estou falando de Mecânica Clássica, área da Física, vou falar de Newton. Se estou falando de instrumentos de percussão, posso convocar Djavan ou Stevie Wonder. Bom, vocês entenderam: se vai usar o apelo à autoridade, tem que ser A AUTORIDADE, tem que botar pra quebrar.
E é aí que temos uma questão: eu sou Meteorologista, certo? Isso quer dizer que eu me formei na Universidade, concluí o curso de Bacharelado em Meteorologia (no meu caso foi Bacharelado em Ciências Atmosféricas, mas dá no mesmo). Só que usar a informação “eu li no blog da Samantha” pode não ser o suficiente, dependendo do contexto. Eu sou uma pessoa, eu erro, eu posso induzir ao erro dependendo do leitor ou com uma explicação mal dada por mim. E eu não sei tudo de Meteorologia. Por isso, quando vamos fazer uma pesquisa, é bom pesquisar em várias fontes independentes e de qualidade.
Além disso, eu sou uma pessoa e poderia ser induzida por questões pessoais a omitir ou distorcer fatos científicos. É dessa maneira que muitos cientistas defendem que o aquecimento global é uma falácia ou que o desmatamento não é tão ruim quanto parece. Porque eles são pessoas, interpretaram fatos de maneira errada, estão recebendo dinheiro para omitir informações, tem motivações pessoais diversas, etc.
O mesmo acontece com um pastor, mesmo quando estamos falando de Teologia. Ele tem suas próprias motivações e talvez ele nem tenha uma formação tão robusta em Teologia. Tem de tudo por aí nesse meio, acreditem. Há por exemplo aqueles que se tornaram evangélicos hoje e amanhã são “ungidos como pastor” e saem falando um monte de coisa perigosa por aí.
Um outro exemplo de apelo à autoridade que pode dar ruim (e já deu) é a história do número de seguidores. Há pessoas que procuram por médicos e enxergam na quantidade de seguidores no Instagram um indicativo da qualidade do atendimento desse médico. Tem o lance da vaidade também: eu vou me consultar naquele doutor famoso que atendeu aquela influencer e vou dar check-in lá no consultório chique, fazendo uma foto naquele jardim de inverno elegante. É dessa maneira que as pessoas são enganadas por charlatães ou fazem tratamentos perigosos ou que não são indicados para todos os casos.
Ter sucesso nas redes sociais não é uma tarefa fácil e muitos nem querem. É preciso de tempo para ficar postando e para engajar os posts. Há até consultorias especializadas nisso. Não é todo médico que tem vontade de ser sucesso nas redes, muitos inclusive trabalham demais e estudam muito, não tendo tempo para essas coisas. Além disso, seguidores e curtidas podem ser comprados. Se você digitar “comprar seguidores” no Google, vai encontrar vários serviços dessa natureza. Portanto, não confie em números. Ok, os seguidores podem ser até orgânicos. Mas o médico (ou qualquer outro profissional) ser sucesso de carisma nas redes sociais não significa que necessariamente ele é um profissional capacitado. Portanto, busque sempre informações nos conselhos de medicina, procure se há reclamações do profissional e sempre que possível peça indicações para amigos e pessoas reais que de fato se consultaram naquele médico e não ganharam nada para isso. O fato de ser “médico com muitos seguidores” não garante nada!
Sendo assim, cuidado quando for fazer um apelo à autoridade. Certifique-se que você está falando realmente de uma sumidade no assunto e mostre exatamente onde essa sumidade publicou ou disse o que você está repetindo. Sempre questione as pessoas que você tem como autoridades. E não se impressione com fotos de estúdio, biografias bem escritas e quantidade de seguidores nas redes sociais. Sempre que precisar de um profissional, pesquise muito sobre ele.
